Não demorou para ficar claro que o Paulo Henrique Ganso talentoso e genial de seus primeiros meses no Santos não passava de uma miragem. O meia ainda teve uma passagem boa pelo São Paulo, com momentos de brilho, mas aquém das expectativas criadas quando surgiu. Já a venda ao Sevilla renovava a curiosidade sobre aquilo que poderia fazer na Espanha, sob as ordens de um técnico ofensivo (e, na época, respeitado) como Jorge Sampaoli. Foram duas temporadas na Andaluzia, apenas 28 jogos, alguns lampejos e a certeza de que ele não teria espaço. Ainda se imaginava que o camisa 10 pudesse encontrar algum clube médio para seguir sua carreira. Entretanto, vai para um destino modesto: nesta sexta, o Amiens assegurou o empréstimo do brasileiro por uma temporada, no fechamento do mercado de transferências.

O Amiens é um clube com parca história na elite do Campeonato Francês. Os Unicórnios (apelido sugestivo a quem deseja fazer piada com o negócio) conquistaram o acesso inédito em 2017, durante a insana rodada final da Ligue 2. Acumulavam 36 temporadas na segundona quando alcançaram o feito. Já o desempenho em sua estreia foi modesto, terminando cinco posições acima da zona de rebaixamento. Para tentar um salto de qualidade, a equipe investiu bastante nesta janela de transferências. Reforçou principalmente o ataque.

Entre as novidades do Amiens, a diretoria levou Saman Ghoddos, principal jogador na temporada sensacional do Östersunds na Liga Europa, que disputou a Copa do Mundo pelo Irã. Também buscou Juan Ferney Otero, que vinha sendo o principal jogador do Estudiantes nos últimos meses. Da Itália, trouxe o meio-campista Eddy Gnahoré, ex-Palermo, e o lateral Emil Krafth, ex-Bologna. E ainda fez um negócio interessante ao contratar Rafal Kurzawa, ponta da seleção polonesa, que estava no Górnik Zabrze. Treinados por Christophe Pélissier, os alvinegros ainda contam com o zagueiro Mathieu Bodmer, o ponta Stiven Mendoza e o atacante Matheus Cassini como outras opções conhecidas no elenco.

Ganso chega como a cereja do bolo neste mercado de transferências. Junta-se a um time que possui alguma ambição de subir de patamar e em um campeonato com nível técnico inferior ao Espanhol. Entretanto, a Ligue 1 também possui um estilo muito mais físico. E o meia se insere em uma equipe que, na temporada passada, tinha como característica principal a velocidade. Encaixar o meia, quase sempre significa adaptar o jogo do restante do time à sua funcionalidade. Resta saber se os alvinegros estarão dispostos a isso. Se o camisa 10 representa qualidade para resolver em um lance, em outros todos os companheiros costumam correr dobrado para compensá-lo em campo.

O Amiens venceu um de seus três primeiros jogos da Ligue 1 – goleando o recém-promovido Stade de Reims, mas sucumbindo a Lyon e Montpellier. Brigar pelas competições europeias parece algo acima de suas pretensões, embora o equilíbrio na França permita sonhar com isso, como ocorreu ao final do primeiro turno na temporada passada, até a equipe sofrer uma queda vertiginosa. Ganso, de qualquer forma, surge como um grande anúncio dos Unicórnios. No anúncio em suas redes sociais, o clube chama o meia de “estrela brasileira”, mencionando seu histórico ao lado de Neymar, Robinho e Lucas Moura. Já o L’Equipe fala em um “grande negócio”. Sinais não apenas do tamanho do clube, como também do fechamento de janela pouco movimentado. Em seu site oficial, o Sevilla chegou a errar a grafia do nome de Ganso, chamando-o de “Paulo Enrique”.

A trajetória de Ganso no futebol europeu deixa cada vez mais claro que talento não é suficiente, sem estar aliado à capacidade física e ao empenho para fazer acontecer. Por qualidade técnica, o meia teria bola para chegar em um time razoável da Ligue 1 ou de outro grande centro da Europa. Porém, diante do que não aconteceu no Sevilla, quase ninguém quis pagar para ver. O Amiens acaba se tornando uma exceção, e a mudança do atleta ao menos indica seu desejo de aderir ao desafio. Certamente têm consciência que, às vésperas de completar 29 anos, esta talvez seja sua última chance no continente. Mas a melancolia é inegável.