Os primeiros meses de 2018 já tinham servido para lavar a alma dos torcedores do Ferroviário. As campanhas no Campeonato Cearense e na Copa do Nordeste não foram tão boas assim, mas logo em fevereiro o Tubarão protagonizou uma vitória histórica na Copa do Brasil. Dentro da Ilha do Retiro, o Ferrão negou o impossível e fez 11 minutos valerem por anos. O cearenses perdiam por três gols de diferença e, a 15 minutos do final, buscaram o empate contra o Sport. Já nos pênaltis, os visitantes consumaram a inimaginável classificação à terceira fase da competição. O que parecia o ápice a uma torcida tão sofrida, no entanto, tornou-se apenas um prólogo ilustre. O doce aperitivo ao prato principal devorado nesta segunda-feira, com outro épico só decidido nas penalidades: o Ferroviário está de volta à terceirona do Brasileiro, como não acontecia há 12 anos, em acesso inédito ao clube nas divisões nacionais.

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A última aparição do Ferrão na Série C deixou uma sensação de quase imensa em sua torcida. Em 2006, os cearenses viveram uma maratona na Terceirona. Disputaram 32 jogos ao longo de quatro fases. Tudo isso para ficar a uma posição de conquistar o acesso à Série B. No octogonal final, o Ferroviário somou 19 pontos, na quinta colocação, quatro pontos a menos que o Grêmio Barueri, promovido ao lado de Criciúma, Vitória e Ipatinga. Os anos seguintes, aliás, seriam duros aos tricolores. E tempos nos quais a participação na terceira divisão dependia do desempenho nos estaduais, o clube se ausentaria da competição nos dois anos seguintes, até o surgimento da Série D.

A última década guardou boas doses de sofrimento ao Ferroviário. Após cair na segunda fase da Série D em 2009, diante do Sergipe, a agremiação ficou oito anos distante das divisões do Brasileirão. Estava longe de honrar a história de quem participou seis vezes da Série A e outras sete da B, entre 1971 e 1991. Pior, nem mesmo no Campeonato Cearense o Ferrão era sombra da força que representou em outros tempos. Depois de um longo período com campanhas modestas, flertando com o rebaixamento, o Tubarão foi relegado à segundona estadual em 2014. Passou dois anos por lá, conquistando o acesso graças ao Alto Santo, que desistiu de disputar a elite em 2017. Dono do famoso “Coliseu do Sertão”, o clube abriu mão da oportunidade justamente por problemas em seu elefante branco.

A brecha para retornar à primeira divisão Cearense, no fim das contas, se tornou o primeiro capítulo da epopeia que desembocou nesta segunda-feira. O Ferroviário fez bonito no estadual em 2017 e, depois de surpreender o Fortaleza nas semifinais, terminou com um honroso vice-campeonato diante do Ceará. Foi a deixa para que participasse da Copa do Brasil, da Copa do Nordeste e da Série D em 2018. A sexta colocação no último estadual e a eliminação na fase de grupos da Lampions League se contrastaram com a façanha diante do Sport. Na quarta fase da Copa do Brasil, apesar da goleada na ida em Belo Horizonte, o Ferrão conseguiu peitar o Atlético Mineiro no Castelão e chegou a abrir dois gols de vantagem, até ceder o empate. Sinal de que algo melhor poderia vir na quarta divisão.

E veio. O Ferroviário não fez uma primeira fase brilhante, mas terminou na primeira colocação de seu grupo, com duas vitórias e quatro empates. Nos 16-avos de final, passou pelo Cordino, que vinha de sua própria chave. Superou pelo Altos nas oitavas, ao arrancar uma difícil vitória por 4 a 2 no Piauí, encerrando longa invencibilidade dos oponentes como mandantes. Já nas quartas de final, no duelo decisivo, encarariam uma pedreira considerável diante do Campinense. No jogo de ida, o Ferrão impôs uma suada vitória por 3 a 2 no Castelão, apesar do tento de Danilo Bala no fim, que deixava o cenário aberto. A “final” desta segunda, por fim, aconteceu no Estádio Amigão, em Campina Grande.

Um dos maiores desafios do Ferroviário era lidar com a pressão da torcida da casa, que fazia uma linda festa nas arquibancadas. Depois do acesso conquistado pelo rival Treze, o Campinense queria dar a sua resposta. E o primeiro tempo no Amigão foi franco, entre a busca pelo ataque e a insistência dos paraibanos, contra a organização e os contra-ataques dos cearenses. Já no início do segundo tempo, a emoção aumentou quando Jorginho acertou um lindo voleio e abriu o placar para a Raposa. O Campinense passou a sufocar o Tubarão e criou boas chances para anotar o gol do acesso, mas não aproveitou. Na melhor oportunidade, já aos 44, Alex Murici soltou a bomba, mas o goleiro Gleibson desviou e a bola explodiu no travessão. Com a vitória por 1 a 0, a decisão seguiu aos pênaltis. Uma bola na trave de Felipe Macena foi a deixa para que os cearenses comemorassem, ao acertarem todas as suas cobranças e assegurarem a vitória por 5 a 4.

A torcida do Ferrão tinha todo direito de extravasar. Por anos, passou pela provação de amar um clube errante, sofrendo longe de seu esplendor e da grandeza que vivenciou um dia. Mas noites como a desta segunda valem por uma vida de dedicação. São aquelas que justificam qualquer paixão, abrandando o ressentimento passado. Nos bares de Fortaleza, aconteceram as primeiras celebrações. Já nesta terça, dezenas de torcedores aguardaram para receber o time na volta na Barra do Ceará, a casa do Tubarão. Autor do gol que valeu o acesso, o ídolo Edson Cariús terminou como o mais festejado.

O técnico Marcelo Vilar mantém os pés no chão. Afinal, ainda há a chance de conquistar um título nacional nas próximas semanas. O Ferroviário encara o São José de Porto Alegre nas semifinais da Série D, enquanto Treze e Imperatriz se enfrentarão do outro lado da chave – todos devidamente promovidos à Terceirona. De qualquer maneira, a história já se concretizou ao Ferrão. Se há dois anos o clube contava com os descaminhos do futebol para ascender no Ceará, agora vê suas finanças ganharem novas perspectivas e o calendário se ampliar com a disputa da Série C. Sem dúvidas, um feito e tanto, que não beneficia apenas os tricolores, mas o próprio futebol cearense. É bom ver um clube tradicional, dono de nove títulos estaduais, experimentando sua redenção.