Quem vende o Brasileirão como um “campeonato de pontos corridos cheio de decisões” teve seu argumento neste domingo. O Maracanã recebeu um grande jogo, com peso relativo. O Flamengo, líder da competição, tentava abrir vantagem. Encarava o atual campeão Corinthians, em busca não apenas de se igualar aos rubro-negros no topo da tabela, como também de referendar o momento de mudança interna. Os alvinegros bem se lembram como o peso do triunfo no próprio Maraca deu embalo em 2015. Não foi desta vez. Porque o Fla amadurece nas últimas semanas, sem mais os temores que a Libertadores trazia e vendo seus jogadores botarem a mão na consciência sobre as suas funções. Ao final, os torcedores puderam ver um duelo que fez jus ao cartaz, em ritmo intenso e com bons lances. Mas que, com a vitória por 1 a 0, acaba empurrando os flamenguistas nesta fase de afirmação.

A partida aberta alternou momentos. Primeiro o Flamengo mandou no ataque, criando várias oportunidades, mas falhando na hora de acertar em cheio a meta de Walter. Depois, nos 15 minutos finais do primeiro tempo, o Corinthians cresceu. A saída de Jadson, lesionado, acabou beneficiando o time de Osmar Loss. Roger deu mais presença de área aos visitantes, que passaram a rondar a meta de Diego Alves. Inclusive, o goleiro acabaria aparecendo, para evitar riscos maiores. Mesmo que não tenha sido exatamente uma “trocação clara”, a intensidade acabou aparecendo nos dois lados do campo. Era um jogo aberto, que permitia apostar em qualquer um dos lados.

O segundo tempo começou equilibrado, o que serve de eufemismo para os ânimos arrefecidos, entre duas equipes que não atacavam da mesma maneira. No entanto, logo o Flamengo voltaria a responder, e foi senhor da partida durante a meia hora final. Conseguiu se impor no ataque e acuar o Corinthians, como se pede a um líder em busca da vitória. Faltava mais qualidade nas conclusões, ainda mais pela jornada infeliz de Henrique Dourado. Bastou Felipe Vizeu entrar para a sua estrela brilhar. Aos 35 minutos, Lucas Paquetá exigiu uma defesaça de Walter. Só que a bola sobrou limpa dentro da área, justamente para Vizeu concluir. No mais, o Corinthians só teria uma chance mais evidente ao empate no último minuto dos acréscimos. Foi quando Anderson Daronco apitou o final da partida e permitiu a confusão quanto à bola que sobrava para Roger.

Ainda é cedo para fazer qualquer afirmação mais incisiva. Completou-se apenas um quarto do Brasileirão e, em uma temporada na qual a Copa do Mundo quebrará o ritmo de todos os 20 times, as transformações na sequência da campanha tendem a ser acentuadas. Mesmo assim, o momento do Flamengo é crescente. O time transmite uma confiança que não se notava em outros momentos da temporada, sobretudo no início da campanha na Copa Libertadores. Há suas carências no time, há dúvidas quanto ao futuro de Maurício Barbieri, há preocupações sobre quem ficará no retorno à Copa. Contudo, fica claro que os rubro-negros se acertam. O choque de realidade demorou a vir, mas a atitude do time agrada muito mais do que vinha sendo.

E o mais importante é a maneira como as vitórias têm saído. O Flamengo conquista pontos que, em outras condições, pareceriam impossíveis. O triunfo sobre o Atlético Mineiro no Estádio Independência é um exemplo. Os riscos foram claros, mas (aproveitando a expressão da moda) os rubro-negros souberam sofrer para segurar o resultado numa noite em que não tiveram tanta inspiração assim. Já neste domingo, a comemoração contra o Corinthians dá outro exemplo de iniciativa. O Fla foi melhor a maior parte do tempo, se recuperou quando correu riscos e teve garra para persistir até arrancar o resultado nos minutos finais. E isso sem contar com Cuéllar, um dos termômetros do time, que aguarda a definição sobre a convocação da Colômbia à Copa do Mundo – será suplente, mas precisa que os Cafeteros enviem a lista de 23 à Fifa para voltar.

Se coletivamente o Flamengo ainda não é brilhante, os indivíduos aparecem. Diego Alves justifica a sua reputação com uma ótima sequência de atuações. Rodinei e Renê vêm fazendo o feijão-com-arroz, sem precisar ser laterais estupendos para isso. Léo Duarte ganha ritmo na zaga e foi um dos melhores em campo contra o Corinthians. Lucas Paquetá continua como um garoto acima da média e, mesmo oscilando um pouco mais, se faz decisivo. Vinícius Júnior é outro com capacidade imensa, embora não resolva na mesma intensidade. E há Diego. A postura e a letargia do camisa 10 não foram criticadas sem razão. Todavia, quando ele consegue oferecer dinâmica ao time, realmente se aproxima daquilo que pensa que é. Aconteceu neste domingo, influenciando inclusive o gol da vitória, numa criação sua até que a bola chegasse a Paquetá.

Ao Corinthians, restam mais dúvidas do que certezas. O time vive uma seca de resultados desde a chegada de Osmar Loss, com uma vitória em quatro jogos, e preocupa por isso, embora seja difícil atribuir a culpa apenas ao técnico. Contra o Flamengo, os alvinegros esperaram demais e não souberam capitalizar em suas principais investidas. Precisam agradecer à noite inspiradíssima de Balbuena no miolo de zaga, o grande responsável por retardar o gol dos rubro-negros, bem acompanhado por Henrique. Já na frente, era Pedrinho quem proporcionava um ou outro lampejo, mas não que fosse tão excepcional. Sua troca por Marquinhos Gabriel acabou gerando insatisfação. Com 14 pontos, na oitava colocação, os corintianos estão no bolo daqueles que tentam se aproximar do topo.

O Flamengo é realmente o único desgarrado na tabela, com 20 pontos. Entre o misto de boas partidas e uma pitada de sorte (que todo líder necessita), vai fazendo uma grande campanha. Precisa se planejar para a virada depois da Copa, até para resolver suas questões pendentes – Vinícius Júnior, opções em setores-chave, centroavante que garanta resultados, técnico. Porém, o resultado já é positivo. Pode não ser a máquina que alguns empolgados tentavam imaginar em meio ao caminhão de contratações para a mesma posição, meses atrás. Mas ganha confiança depois de meses incertos, e isso vale demais. Os renomados jogadores, e os que nem são tão renomados assim, vão se revezando na hora de resolver.