Na véspera da abertura da Copa do Mundo, uma das favoritas ao título trocou o seu treinador. O presidente da Federação Espanhola, Luis Rubiales, decidiu demitir Julian Lopetegui, incomodado com o anúncio de que o ex-goleiro treinaria o Real Madrid ao fim do Mundial. E não perdeu tempo – até porque não há nenhum sobrando – para escolher o seu substituto: Fernando Hierro, diretor esportivo da entidade. Hierro comandará um único treinamento antes da viagem para Sochi, onde a Espanha enfrenta Portugal, na sexta-feira.

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Hierro é um jogador histórico do Real Madrid e da seleção espanhola, pela qual disputou quatro Copas do Mundo. Foi escolhido também por essa imagem, de ser um nome forte que tentará unificar um vestiário que ficou dividido pelo caso Lopetegui. No entanto, há dois problemas: nos bastidores, o próprio Hierro não andava de mãos dadas com Rubiales e o ex-jogador tem pouquíssima experiência como treinador.

Hierro voltou para a Federação Espanhola, na qual ele trabalhou como diretor esportivo entre 2007 e 2011, no mandato anterior ao de Rubiales. Juan Luis Larrea comandou a entidade interinamente, depois da saída do poderoso Ángel María Villar, homem forte do futebol espanhol desde 1988 que foi preso por denúncias de corrupção. Larrea disputou a eleição, mas foi derrotado. Rubiales assumiu em maio de 2018 e uma das suas primeiras medidas foi renovar o contrato de Lopetegui até 2020.

Quem convenceu Hierro a assumir o cargo foi o então diretor de marketing Vicente Casado, com quem ele havia trabalhado em sua primeira passagem pela federação e no Málaga, do qual o ex-jogador também foi diretor, entre 2011 e 2012. Casado retornou à entidade espanhola em outubro do ano passado. Hierro, em novembro.

A parceria, porém, durou pouco tempo. Duas semanas atrás, Rubiales decidiu demitir Casado para trazer alguém de sua confiança. Escolheu Rubén Rivera, antigo parceiro do Sindicato dos Jogadores Espanhóis, origem política do presidente da RFEF. Esse já havia sido um golpe duro para Hierro. O segundo foi próprio o anúncio da saída de Lopetegui, descrito como um “homem de confiança” e peça chave no projeto que o diretor esportivo vislumbrava.

Segundo o jornal AS, Hierro foi contra a decisão de Rubiales de demitir Lopetegui. Ao chegar à base espanhola em Krasnodar, ciente da relação próxima entre os dois ex-jogadores, Rubiales perguntou se Hierro sabia das negociações entre Lopetegui e o Real Madrid. A resposta foi “não”, mas o diretor esportivo aconselhou o chefe a não demitir o treinador e, de acordo com a publicação, também se ofereceu para comandar a equipe depois da Copa. Nesse cenário, porém, a imprensa espanhola conjectura que Hierro, que perdeu dois profissionais próximos dele em questão de semanas, provavelmente não continuará na Federação Espanhola ao fim do torneio russo.

Saindo dos bastidores e indo para o campo, a situação da Espanha não é muito melhor. Hierro, 50 anos, terá que lidar com os problemas que a negociação de Lopetegui com o Real Madrid criou em um lado do elenco e a insatisfação que sua demissão pode ter criado no outro. E sem grande experiência como treinador. Foi auxiliar de Carlo Ancelotti, quando Zinedine Zidane assumiu o Castilla, e teve uma temporada no comando do Real Oviedo, na segunda divisão. Ficou em oitavo lugar na temporada 2016/17 e não conseguiu vaga nos playoffs do acesso.

Por outro lado, todo o trabalho tático e estratégico do campo e bola já foi feito por Lopetegui – e muito bem porque a Espanha chegou voando à Rússia. Cabe a Hierro tocar o barco e administrar um vestiário que, em condições normais de temperatura e pressão, não é um grupo dos mais fáceis. Em ebulição, será o desafio da sua vida. A seleção espanhola era uma das favoritas para o título da Copa do Mundo. Agora, está assolada pelas incertezas.