Alguns jogos, por si, já servem para moldar a história de um clube. Não importa o que aconteceu antes e não importa o que acontecerá depois: eles compreendem um universo em si, que transportará os torcedores a outra dimensão quando mergulharem nas memórias do que se viveu com intensidade. O Grêmio x Estudiantes de 1983 é um ótimo exemplo. A Batalha de La Plata não foi o melhor resultado aos gremistas e não foi suficiente aos pincharratas, mas permanece tatuada na pele por aquilo que eternizou – aos tricolores, uma etapa fundamental de sua primeira conquista continental. O jogo desta terça-feira na Arena ainda não tem seu nome de contornos épicos, embora mereça. É daqueles duelos que constroem a fama da Libertadores, que invadem a mente de vencedores e não nega a dose de orgulho contido aos vencidos. Outra vez, Grêmio e Estudiantes fizeram uma partidaça. E para sempre será dos gaúchos a honra de escancarar os dentes e encher os pulmões para proclamar uma vitória apoteótica. Imortal. Um agônico triunfo por 2 a 1 que jamais morrerá, selado nos pênaltis, com o sonho do tetracampeonato extremamente vivo.

A quem desejava menosprezar a conquista maiúscula e incontestável do Grêmio na Copa Libertadores de 2017, o peso das camisas que os tricolores enfrentaram nos mata-matas virou ponto de debate. Discussão vã de quem prefere apenas ser clubista e não reconhecer os méritos, mas que teria um contraponto logo nas oitavas de final da Libertadores 2018. O Estudiantes teve um desempenho claudicante na fase de grupos, mas ainda é o time tricampeão continental na virada dos anos 1960 e que chegou ao tetra na última década. Honrando a sua tradição, os pincharratas demonstram outra postura após a pausa para a Copa do Mundo, impulsionados por jovens jogadores e pelo trabalho de sucesso imediato comandado por Leandro Benítez. A boa vitória por 2 a 1, conquistada na partida de ida, era um sinal de que o confronto seria muito mais difícil que o previsto quando o sorteio se consumou.

O Grêmio, mesmo oscilando, continua a ser o clube brasileiro que melhor joga futebol desde os últimos meses de 2016. Renato Portaluppi é o mentor desse processo, com um time de vocação ofensiva e bom trabalho coletivo, mas que também conta com as individualidades afiadas para definir. Se em 2017 os tricolores contaram com a eclosão de Arthur e Luan, além de tantos veteranos que gastaram a bola, o nome da vez é Everton. É ele quem concentra os holofotes e emana luz própria para manter as esperanças dos gremistas. Seria ele o iluminado na Arena, chamando a responsabilidade em certos momentos, incendiando a defesa adversária e ajudando os anfitriões a se superarem.

O Estudiantes vinha com uma proposta defensiva, mas cinco minutos bastaram para o Grêmio fazê-la ruir. Everton já tinha dado o seu cartão de visitas ao aplicar um chapéu nos primeiros minutos. E o melhor ocorreu na sequência, em uma boa trama dos anfitriões pelo alto. Maicon e Jael prepararam a jogada para Everton aparecer na área. O garoto controlou o espaço com inteligência e foi ainda mais esperto ao observar o posicionamento de Mariano Andújar. Com um toque sutil, encobriu o experiente goleiro e deixava os gaúchos em vantagem. Provocava a avalanche nas arquibancadas.

Erros pontuais, porém, arrefeceram o Grêmio logo na sequência. Uma saída de bola mal feita por Jaílson permitiu a Lucas Rodríguez puxar o contra-ataque. Geromel chegou para a dividida, mas a bola ainda sobrou ao atacante, que saiu de frente para o gol. Diante de Marcelo Grohe, não perdoou. Como após o apito inicial, os gremistas continuavam precisando marcar apenas um gol para continuar sonhando. E teriam atitude para isso, mas o restante do primeiro tempo não foi tão favorável. Jogando firme e com solidez, os pincharratas se seguravam bem na defesa. Apesar da posse de bola e da movimentação de seus protagonistas no ataque, o Grêmio tinha dificuldades para encontrar os espaços e se aproximar da meta adversária. Custou para outra chance clara de gol acontecer. Ela veio apenas nos minutos finais, a partir de um escanteio que sobrou na segunda trave para Luan, com pouco ângulo. Andújar fez a defesa no susto.

Renato Portaluppi não escondia a sua tensão. O time passava dos 70% de posse de bola, mas os arremates eram raros. Por isso mesmo, a bronca no intervalo deve ter sido grande. Os tricolores voltaram com mais atitude, ajudados também pela entrada de Alisson no setor ofensivo. O ponta dava incisividade no lugar de Ramiro, a uma equipe que precisava encontrar as frestas. E logo elas começaram a surgir, no talento ou na marra. Pouco a pouco, os gremistas passaram a bombardear a meta pincharrata. Jael aparecia, com sua característica de não ter medo de arriscar. Enquanto isso, os argentinos precisavam entrar mais duro, acumulando faltas e cartões. Na melhor chance dos primeiros 15 minutos, Jaílson soltou a bomba de fora da área e Andújar se esticou para salvar.

Era um grande ataque contra defesa. Naturalmente, Renato passou a botar mais gente na frente. Aos 24 minutos, Léo Moura saiu para a entrada de André. Criticado com razão pelas atuações ruins nos últimos jogos, o centroavante ajudou bastante desta vez e quase encontrou o gol em uma de suas primeiras ações em campo. O cruzamento em direção à área necessitou da disputa de seus companheiros. Jaílson foi travado, mas Jael apareceu com a chance nos pés. Bateu e o defensor apareceu na hora exata para bloquear, com a bola ainda resvalando na trave. Enquanto o Estudiantes era resistência, o Grêmio representava a energia. Jogava como se pede que um time em suas condições jogue, com vontade de atacar e sem aliviar nas divididas. Nas raras saídas dos pincharratas ao ataque, encontravam uma defesa que concentrava todas as suas forças no bico da chuteira. Kannemann, particularmente, era um gigante em noite irrepreensível.

O Grêmio, de qualquer maneira, precisava controlar as emoções. Luan e Everton apareciam, mas não conseguiam concluir as jogadas da melhor maneira. Uma boa cobrança de falta cavada por Everton acabou isolada pelo garoto, levando Renato à loucura, mesmo que ele voasse pela esquerda. Depois, Luan teve boa chance para arriscar, mas preferiu o capricho à força e mandou a bola nos braços de Andújar. Portaluppi gastou sua última alteração mandando mais um homem ao ataque, Pepê, no lugar de Jaílson. E por mais que o sufoco permanecesse, impressionava também a maneira como o Estudiantes conseguia ser preciso na hora de fazer os cortes e bem preparado para ocupar os espaços. Os gremistas abafavam, mas os pincharratas respiravam, sobretudo pelas ações de Gastón Campi e Rodrigo Braña.

Uma vitória épica, ainda assim, costuma ser um exercício de fé. Está no equilíbrio mental entre as chances aos montes, que indicam que o gol decisivo logo virá, e os desperdícios, que põem a crença em xeque, dando a impressão de que nada vai dar certo. Ao Grêmio, foi necessário confiar até os 47 do segundo tempo. Alisson surgiu como um novo herói na epopeia tricolor pelas Américas. Nem seria ele o mais credenciado a aparecer na área para cabecear, mas foi ele o responsável por fazer desmoronar a muralha alvirrubra. Luan cobrou falta lateral e o ponta se antecipou no primeiro pau, para um leve desvio de cabeça. O suficiente para triscar na trave, morrer nas redes e dar sobrevida aos gaúchos. A vitória por 2 a 1 levava aos pênaltis.

E então, apesar do drama inerente à porção de chutes na marca da cal, o espírito do Grêmio estava bem mais revigorado para aturar a pressão. Maicon e Lucas Rodríguez converteram na primeira série, enquanto Everton abriu a segunda também balançando as redes. O erro fatal ficaria nos pés de Campi, justamente um daqueles que poderia ser símbolo pincharrata caso o empate prevalecesse. O zagueiro exagerou na força e isolou, rumo às arquibancadas. Depois disso, ninguém mais pecou. Jael, Fabián Noguera, Alisson e Pablo Lugüercio mantiveram o ritmo. Até que André se tornasse o responsável por abrir o sorriso e garantir o terremoto na Arena, com o gol que conclui a noite memorável da maneira mais feliz aos anfitriões. O Estudiantes, por mais que tenha feito um jogo muito bom na defesa, mesmo sem aproveitar tanto os contra-ataques, foi inferior a um adversário que desejou a classificação com todas as suas forças. Não é o Tricolor de 2017 pelo futebol bonito, mas de certa forma o superou em sangue nos olhos.

O Grêmio sai mais forte dessas oitavas de final. Fez acontecer aquilo que não se viu na Copa do Brasil contra o Flamengo, por exemplo. Teve a postura que a torcida cobrou em Porto Alegre e manteve o gás até o fim que faltou no Maracanã. Foi o Tricolor copeiro, que os gremistas conhecem como parte de sua identidade. Entre o talento e a persistência, os gols saíram, ainda que o grande trunfo da noite tenha sido mesmo a maneira aguerrida com a qual os jogadores atuaram ao longo dos 90 minutos. É o que se pede a um campeão da Libertadores. É o que se pede a quem quer ser campeão novamente. O destino pode até não ser tão pródigo aos gaúchos nas próximas etapas, já que o futuro se escreverá passo a passo. Mesmo assim, por dois jogos, a campanha de 2018 já é eterna a quem teve o prazer de viver um jogo com o verdadeiro selo do que é a competição sul-americana. E do que o gremista é apaixonado por ela, particularmente.