A classificação já tinha se encaminhado em San Miguel de Tucumán. Derrotar o Atlético Nacional por 2 a 0 no jogo de ida das oitavas de final da Libertadores havia sido um resultado enorme ao Atlético Tucumán. Ainda assim, os argentinos teriam que encarar a pressão do Atanásio Girardot. A torcida verdolaga fez barulho, mas o momento dos colombianos não é dos melhores. Até venceram por 1 a 0, em meio a um bombardeio. No entanto, o resultado acabou sendo insuficiente para interromper o sonho dos tucumanos, na maior noite da história do clube. Um dos times mais tradicionais do interior da Argentino, o Decano avança às quartas de final e enfrentará o Grêmio. De certa forma, expande o mapa das fases finais da Libertadores, colocando uma cidade que não fez parte da elite do futebol em seu país nos primórdios, mas representa um rincão enlouquecido pelo esporte. Foi o que se viu nesta terça.

A história do Atlético Tucumán nas competições internacionais é breve, mas épica. O clube vem em ascensão marcante desde 2015, quando reconquistou o acesso à primeira divisão. Classificou-se à Libertadores em 2016, sua primeira competição internacional; viveu preliminares insanas em 2017, até cair na fase de grupos e ser repescado à Copa Sul-Americana, na qual sucumbiu logo nas oitavas de final. Já desta vez, a vaga veio direta à fase de grupos e os tucumanos avançaram em uma chave equilibrada, que ainda contava com Libertad, Peñarol e Strongest. A passagem agônica às oitavas de final marcava uma façanha. Que se ampliou contra o Atlético Nacional.

Depois da insanidade de sempre no Estádio Monumental José Fierro, com a vitória por 2 a 0, o Atlético Tucumán dependia apenas de suas próprias forças para segurar os verdolagas no Atanásio Girardot. E não foi simples. Logo aos 12 minutos, William Duarte abriu o placar ao Atlético Nacional. A partir de então, os colombianos exerceram uma grande pressão sobre os visitantes, precisando ao menos de mais um gol. Durante o primeiro tempo, o goleiro Cristian Lucchetti fez um par de defesas magníficas. Já na etapa complementar, em meio ao sufoco constante, a falta de pontaria atrapalhou os anfitriões. Foram bolas e mais bolas dentro da área, em emoção que só aumentou o tamanho do feito do Decano ao término do duelo.

O melhor, de qualquer forma, aconteceu além das quatro linhas. Milhares de torcedores saíram do norte da Argentina rumo à Colômbia. Realizaram um ‘banderazo’ nas ruas de Medellín e encheram um dos setores do Atanásio Girardot, festejando demais com os jogadores. Enquanto isso, em San Miguel de Tucumán, o apito final bastou para a loucura tomar as ruas. Entre carros e pedestres, a torcida transbordava com bandeirões, bumbos, cantoria e muita alegria. Dimensiona o tamanho do que o Decano acabara de alcançar.

Adversário do Grêmio nas quartas de final, o Atlético Tucumán será o clube menos renomado entre os oito melhores do torneio continental – e, possivelmente, o único a nunca ter erguido a taça, se Palmeiras e Boca Juniors cumprirem suas missões. Algo que não significa que os tricolores terão tranquilidade. Primeiro, pelos problemas de encarar a atmosfera do Estádio Monumental José Fierro, que deve preparar uma festa ainda mais intensa para a visita gremista. Depois, pela qualidade de um time que já mostrou como pode encarar adversários de peso, mesmo tendo carências e sofrendo com mudanças. A grande lenda é ‘La Pulga’ Luis Miguel Rodríguez, que pode ser considerado o maior ídolo da história tucumana. Além disso, o clube trouxe bons acréscimos nos últimos meses, como Leandro Díaz e Ricardo Noir. No meio, quem chama atenção é Juan Mercier, volante que fez uma Libertadores espetacular em 2014 e, depois de deixar o San Lorenzo, oferece sua experiência além das fronteiras. Já no banco de reservas, Ricardo Zielinski chegou em 2017 e possui uma bonita história no interior, após anos à frente do Belgrano.

Até 2017, nunca um clube além da região de Buenos Aires ou de Rosario / Santa Fe (que historicamente está integrada à AFA, não necessariamente às ligas locais do interior) havia alcançado os mata-matas da Libertadores. O Godoy Cruz quebrou a escrita, mas caiu logo naquela etapa ao próprio Grêmio. O Atlético Tucumán supera este feito e não seria exagero dizer que registra o maior momento do interior do país além das fronteiras. O Talleres possui um título da Copa Conmebol em 1999, mas não bateu de frente com nenhum campeão continental, como fez o Decano. Além de deixarem o Peñarol pelo caminho, os tucumanos superaram os bicampeões continentais desta vez, mesmo decidindo fora de casa o duelo eliminatório. É algo enorme.

Dentro de suas limitações e das dificuldades de contar com um orçamento menor, em uma região de investimentos mais baixos na Argentina, o Atlético Tucumán impressiona pela qualidade do seu projeto. Não é um ponto fora da curva, pela continuidade que apresenta nestas últimas temporadas. Uma pena que a campanha no último Campeonato Argentino, de meio de tabela, afastou os albicelestes da próxima temporada internacional no continente. De qualquer maneira, a chance de fazer história está posta na mesa. Com um time muito aguerrido e combativo, o Decano tende a dar o seu máximo por uma conquista ainda maior contra o Grêmio. Eliminar os dois campeões mais recentes da Libertadores seria algo ímpar.