O futebol, um universo de inspiração e genialidades, engloba diversas artes em si. E há artistas que são exímios especialistas naquele tipo de obra, capazes de reproduzi-las com destreza e minúcia inigualáveis. Um estalo e, pronto, a arte está feita em um gesto simples, como se fosse mera trivialidade – mas que, no entanto, dependeu de anos de prática e de sua dose de talento. De lendas a jogadores limitados, muitos são os futebolistas que possuem o seu movimento característico. A sua arte. Ricardo Quaresma é um deles. Que não tenha sido o craque que muitos esperavam, ainda se mantém como um bom coadjuvante. Pronto para decidir partidas com seu recurso artístico, a consagrada trivela. Em sua primeira Copa do Mundo, já aos 34 anos, o veterano teve o seu lampejo. Uma trivela eterna, que valeu a sobrevida a Portugal, rumo às oitavas de final do Mundial da Rússia.

VEJA TAMBÉM: Irã foi muito valente e ficou perto da vaga, mas é Portugal quem avança com muito sufoco

Quaresma demorou a viver sua primeira Copa. Sua estreia pela seleção, afinal, aconteceu ainda em 2003, quando o prodígio de 19 anos estourava com a camisa do Sporting. Mundial após Mundial, porém, o ponta era preterido pelos técnicos portugueses. Felipão foi o primeiro. Depois, Carlos Queiroz. Por último, Paulo Bento. Em 2014, inclusive, deixou a lista da Seleção das Quinas no último corte. Todas as ausências foram por escolhas dos comandantes, não necessariamente por lesão ou outro entrave que o impossibilitasse de ser chamado. As oscilações e o estilo arredio poderiam ser um problema, mas também prescindiam de um atleta de extrema habilidade. Apenas com a chegada de Fernando Santos é que o ponta ganhou realmente uma sequência na equipe nacional e compensou a confiança. Em sua terceira Eurocopa, teve os seus momentos de brilho, ajudando a dar o título inédito a Portugal em 2016.

Mantendo a boa forma no Besiktas e sendo uma alternativa interessante à seleção, enfim, Quaresma chegou à sua primeira Copa do Mundo em 2018. Seria reserva em uma equipe que confiava em seus jovens. Porém, o veterano foi ganhando seus minutos. Na estreia contra Espanha, seu primeiro jogo em Mundiais, quase decidiu a noite épica com um golaço. A sequência de dribles terminou bloqueada de maneira crucial dentro da área. E depois da fraca atuação dos lusitanos contra Marrocos, o camisa 20 ganhou sua vez. Seria titular na ponta direita no encontro decisivo com o Irã, em que o empate bastaria aos portugueses, mas no qual as dificuldades seriam previsíveis.

Quaresma não fez a partida perfeita, longe disso. Errou um bocado de vezes e não conseguia dar sequência às jogadas. Ao menos, aparecia, chamava o jogo para si. E em uma jornada pouco pródiga de Portugal, um lampejo poderia ser suficiente. Uma arte. Exatamente o que aconteceu. Aos 45 do segundo tempo, o camisa 20 tabelou com Adrien Silva e partiu em diagonal, rumo à entrada da área. Recebeu a bola e todos sabiam o que faria. Todos sabiam, mas ninguém pararia. Das trivelas sensacionais de Quaresma, a mais genial. A mais importante, porque, afinal, valeria tanto em uma Copa do Mundo. Seu pé direito virou em 90°. O refinamento e a soberba se juntavam em um só movimento, com o corpo destinando toda a sua energia àqueles três dedos. Toda a sua inspiração. A bola, matreira, fez a curva teleguiada para escapar dos marcadores. Para, maldosa, ver o goleiro Alireza Beiranvand dando um tapa no ar, antes de acariciar as redes. De agradecer, em forma de gol, a Quaresma por tratá-la tão bem.

Em um segundo tempo tão tenso a Portugal, a trivela de Quaresma parece ter acontecido dias atrás. Até o ponta se esqueceu da própria sutileza, ao cair na pilha e ele mesmo dar uma entrada duríssima que valeu o cartão amarelo. Com 25 minutos, até para não causar nada pior, acabou substituído. O duelo de várias reviravoltas poderia terminar com um destino totalmente diferente a Portugal. Foram dois pênaltis, intermináveis consultas ao VAR, minutos bastante arrastados. Mas ao final, a Seleção das Quinas pôde sorrir. Quando os lusitanos se lembrarem do filme do jogo, falarão sim do nervosismo. Independentemente disso, terão uma obra de arte para exaltar. A melhor das telas de Quaresma.

Quaresma é um jogador que precisa se manter concentrado. Que por vezes inventa demais, e se expõe aos erros. Mas que pode decidir em um lance. Em um estalo artístico, com sua nobre categoria tão reverenciada. Nesta segunda, a magia do camisa 20 valeu ouro aos portugueses, evitando um trauma, provocando a comemoração. Era o que ele aguardava, após tanto tempo sem a Copa do Mundo. O veterano certamente se satisfaz por deixar sua marca no Mundial. E os Mundiais também agradecem, agora por contar com um dos melhores exemplos da arte boleira. O museu das Copas agora já tem a sua trivela de Quaresma.