A Fifa anunciou nesta quinta-feira os responsáveis pela arbitragem na Copa do Mundo de 2018 – cujos nomes estão disponíveis neste link. Ao todo, 36 árbitros principais e 63 assistentes participarão do Mundial, representando 46 países diferentes. A escolha, porém, não trouxe surpresas. A preparação realizada pela entidade começou em setembro de 2014, pré-selecionando 53 trios de arbitragem ao redor do mundo. Ao longo dos últimos anos, os membros deste conjunto se reuniram e receberam o aprimoramento oferecido pela federação internacional. Segundo a Fifa, sua lista final se baseou “nas habilidades e na personalidade de cada árbitro, bem como em seu nível de entender o futebol e a habilidade de ler tanto o jogo quanto as táticas empregadas pelos times”.

O programa da Fifa contou com seminários preparatórios, se debruçando sobre “o fair play, a proteção dos jogadores e a imagem do jogo, bem como consistência e uniformidade”. Além disso, no final de abril haverá outra reunião dos selecionados, que permanecerão por duas semanas na Itália para os ajustes finais. Depois disso, a Fifa anunciará os escolhidos para trabalhar como árbitro de vídeo durante a Copa do Mundo. Até o Mundial, a entidade ainda fará um acompanhamento individual com cada um dos eleitos.

Olhando para a estratégia adotada, a Fifa possui o seu propósito. De fato, a preparação aos árbitros é fundamental, considerando ainda o grau amador da função, profissionalizada em raríssimos países. O aprimoramento serve não apenas para melhorar a capacidade de interpretação e ação dos escolhidos, como também para criar um padrão na arbitragem ao longo do torneio. É uma tarefa muito difícil, considerando todas as intempéries às quais o futebol acaba submetido, mas válida a partir da instrução.

Todavia, surgem outros tantos questionamentos diante da posição da Fifa. Talvez o maior deles se concentre quanto à falta de mobilidade na escolha dos árbitros. O grupo de pré-selecionados está fechado ao longo do ciclo, apenas com os cortes periódicos. Baseia-se na instrução intensiva, mas se esquece que o futebol é momento também para os homens do apito. Não à toa, alguns dos nomes escolhidos soam discrepantes. Pegando um exemplo, Antonio Mateu Lahoz de fato se colocou entre os melhores da Espanha por um tempo, mas faz uma temporada muito ruim – exemplificada pela noite infeliz que teve no Las Palmas x Barcelona no começo de março, em que errou para os dois lados, mas mais contra os catalães. Mesmo assim, segue intocável dentro da visão da Fifa. E desta maneira, outros podem ser citados.

Outro caso notável é o da Inglaterra. Dentro da pré-seleção, Mark Clattenburg era o representante do país rumo à Copa de 2018. Contudo, o britânico decidiu se desligar da Football Association, convidado para se tornar o novo chefe de arbitragem na Arábia Saudita – certamente com uma proposta financeira mais vantajosa. Fez a sua opção de vida. No entanto, a Fifa sequer permitiu que os ingleses pudessem incluir um novo árbitro principal rumo ao Mundial. Assim, pela primeira vez desde a Copa de 1938, a Inglaterra não terá um de seus homens no apito.

Além do mais, a Fifa fecha o seu grupo conforme a nacionalidade. Pode até haver um fator logístico aí, considerando os árbitros de diferentes confederações para não haver conflitos de interesses, em meio à sequência altíssima de jogos que acontece, sobretudo na fase de grupos. Mas há muito de bastidores nisso também. A distribuição mais ou menos equilibrada não foge da velha politicagem dos cartolas, que fazem suas trocas de favores com questões que são essenciais. Assim, se os dois melhores árbitros do mundo são do mesmo país, um deles acabará pagando o preço. É necessário considerar que os problemas na arbitragem são em escala mundial, inclusive nas grandes ligas. Mas fica difícil imaginar que alguns dos países que contam com os melhores jogadores do mundo também não possa ter um número de árbitros acima da média.

O principal ponto a se atacar, quase sempre, é a falta de um regime profissional amplo na arbitragem. É paradoxal que exista tanto dinheiro jorrando no futebol, mas quase nada disso seja direcionado especificamente aqueles que deveriam tornar o esporte mais justo. Seria interessante criar um intercâmbio de árbitros ou mesmo de transferências, dentro do profissionalismo? Uma pirâmide de trabalho que prepare de maneira mais sistemática desde as divisões inferiores, e não precise criar grupos especiais rumo à Copa do Mundo? Um ciclo menor que leve em conta também o momento na escolha rumo à Copa? Há muitas respostas que podem ajudar, diante de um modelo que gera dúvidas.

Ao final, para não ficar apenas na nebulosidade, vale olhar para outro exemplo. O rúgbi é um esporte de raízes similares ao futebol, embora as arbitragens acabem inseridas em um contexto distinto. Há mais honestidade entre os jogadores, mais abertura ao público em relação àquilo que o árbitro decide e uma conexão maior com novas tecnologias. De qualquer maneira, o sistema de seleção à Copa do Mundo não deixa de ser adaptável.

A World Rugby possui uma lista de árbitros de elite para as partidas internacionais. Até aí, nada de novo. Entretanto, o grupo conta com uma mobilidade considerável. Quatro vezes ao ano, as arbitragens são escolhidas por um comitê, conforme um ranking que avalia os trabalhos em jogos de clubes e de seleções. Há remoções e inclusões, diante do nível das atuações. Para chegar a esta elite, um árbitro precisa passar por um programa de desenvolvimento e de experiências, enquanto suas federações adotam um padrão estrito de preparação.

Já para a Copa do Mundo, meses antes do torneio, há uma avaliação final feita pela banca de arbitragem da World Rugby, que considera o mérito ao longo do período. Assim, existe uma escolha mais condizente com o momento e com o resultado total do ciclo. E não há restrições quanto a nacionalidade. No Mundial de 2015, por exemplo, foram 12 árbitros de seis países – a França com o máximo, três no total. Embora a quantidade e a frequência das partidas seja menor na Copa do Mundo de rúgbi, não é algo totalmente alheio ao Mundial de futebol. A World Rugby, afinal, também aponta o aprimoramento como algo constante, como faz a Fifa. Mas não só isso, elevando o nível de importância da avaliação, algo que não se vê com tamanha dinâmica no futebol.