Ao longo dos últimos meses, vários técnicos tiveram seus nomes ligados ao Bayern de Munique. O clube até manifestou sua intenção em manter Jupp Heynckes por mais uma temporada, mas o veterano está disposto a voltar à aposentadoria, independentemente das chances de conquistar outra tríplice coroa. Assim, a diretoria bávara precisou caçar uma nova opção no mercado. E o escolhido acaba revelado não mais que de repente. Niko Kovac não aparecia entre os cogitados, mas o rumor que surgiu nesta quinta-feira acabou confirmado menos de 24 horas depois. O croata, atual comandante do Eintracht Frankfurt, tomará as rédeas na Allianz Arena a partir de julho, após assinar contrato pelos próximos três anos.

Kovac pode ser considerado um treinador “da nova geração”. Aos 46 anos, tem uma carreira relativamente recente à beira do campo, apesar da experiência no futebol alemão. Nascido na Berlim Ocidental, mas filho de imigrantes de origem croata que vieram na Bósnia, o antigo meio-campista rodou por grandes clubes do país. Defendeu Hertha Berlim, Bayer Leverkusen, Hamburgo e o próprio Bayern, entre 2001 e 2003 – chegando à Baviera juntamente com seu irmão, o zagueiro Robert. Presente em duas Copas como atleta, Niko se aposentou em 2009, no Red Bull Salzburg. E por lá começou a trajetória como técnico, dirigindo a base e atuando como assistente nos Touros Vermelhos.

A ascensão de Niko Kovac na nova jornada veio a partir de 2012, convidado a assumir a seleção sub-21 da Croácia. No ano seguinte, diante dos resultados ruins e das turbulências internas, assumiu o lugar de Igor Stimac no time principal, restando uma rodada para o fim das Eliminatórias. Levou a equipe à repescagem e a classificou para a Copa do Mundo de 2014, embora tenha caído ainda na fase de grupos. O comandante seguiu no cargo até setembro de 2015, com o time sem empolgar na qualificação à Euro.

Então, em março de 2016, iniciou o trabalho que o credencia, contratado pelo Eintracht Frankfurt. Cumpriu sua missão inicial ao salvar as Águias do rebaixamento no Campeonato Alemão, disputando a repescagem contra o Nürnberg. Já na temporada passada, flertou com a classificação às competições europeias, apesar da derrocada durante o segundo turno da Bundesliga, e chegou à final da Copa da Alemanha. Ritmo mantido na atual campanha, entre os semifinalistas na Pokal e rondando o G-4 da liga – no momento, quinto colocado, na zona de classificação à Liga Europa.

Ao que parece, o Bayern contratou Niko Kovac mais por aquilo que o treinador pode se tornar, por mais que ele possua os seus predicados visíveis. É um comandante de personalidade forte, que montou um time equilibrado e agressivo em Frankfurt. Gosta de atuar com três defensores, adianta sua marcação e treina forte as bolas paradas. Além disso, recuperou vários “bondes” na Commerzbank Arena. Mas não indica, por exemplo, ser alguém com ideias revolucionárias como Pep Guardiola e nem é matreiro como Carlo Ancelotti. Com as condições excepcionais que encontrará na Allianz Arena, pode se revelar, mas até aqui seu histórico é de pés no chão e de flexibilidade.

Pelo perfil, enérgico e organizador, Kovac talvez se aproxime justamente de Jupp Heynckes (que elogiou publicamente o substituto), embora muito distante de todo o sucesso do veterano. As chances da corda arrebentar para o lado do croata em meio a uma sequência ruim de resultados seriam muito maiores. Mas, em um mercado que não traz grandes certezas, dá para entender a postura dos bávaros. As tratativas com Thomas Tuchel não vingaram e agora ele se aproxima de Paris ou Londres; Julian Nagelsmann permanece preso a seu contrato com o Hoffenheim; Joachim Löw parece fruto mais de imaginação da imprensa do que realidade; e outros tantos, ou não possuem uma ligação com a Alemanha, ou não tem tanto lastro assim. Desta maneira, a escolha de Kovac se explica.

O próximo comandante do Bayern de Munique, inclusive, resgata uma certa ligação do clube com a Croácia. Antes que Udo Lattek levasse o esquadrão dos anos 1970 ao topo da Europa, em trabalho complementado por Dettmar Cramer, dois croatas passaram pelo banco de reservas. Zlatko Cajkovski foi o primeiro a chegar, assumindo o comando dos bávaros em 1963. Ex-jogador do Colônia, fez grande sucesso nos Bodes logo em seus primeiros anos de carreira como treinador. Já na Baviera, seu grande mérito foi firmar a geração de ouro que ascendia no clube, promovendo entre os titulares Beckenbauer, Maier e Gerd Müller. O treinador ganhou também o primeiro título continental, a Recopa Europeia de 1966/67. Já em 1968, Cajkovski acabou substituído pelo compatriota Branko Zebec, seu antigo companheiro no Partizan e na seleção iugoslava. Era outro técnico de pouca experiência, mas bem sucedido com o Dinamo Zagreb. Foi importante para moldar o estilo de jogo e a preparação física. Conquistou a Bundesliga em 1969, encerrando um jejum de 37 anos. Porém, deixou os bávaros em 1970, em atrito com os astros.

Obviamente, o contexto do futebol é totalmente diferente cinco décadas depois. Mas não se deixa de traçar semelhanças. E para ajudar Niko Kovac, uma entrevista à revista Kicker em janeiro expôs suas virtudes. O croata demonstrou seu pulso firme na gestão de estrelas, embora pela idade, consiga estabelecer uma proximidade com o jogadores. E, mais do que isso, enfatizou a importância que costuma conferir às categorias de base. O treinador crê em um plano integrado, que adapte e aproveite os garotos em ascensão nas equipes menores. Algo que, provavelmente, soou como música aos ouvidos dos dirigentes bávaros, considerando a inauguração de sua nova academia e o repetido discurso de que devem gastar menos, promovendo mais seus talentos.

Mas o que parece bom a Hoeness e Rummenigge no comando do Bayern, sob a benção de Heynckes, não caiu bem ao Eintracht Frankfurt. Segundo a revista Kicker, o contanto dos bávaros com Niko Kovac começou há duas semanas, mas apenas nas últimas horas é que o acerto se acelerou. Na quinta-feira, o treinador recebeu o contrato e acertou sua saída com a diretoria das Águias. Já na sexta, comunicou sua decisão ao elenco, antes que o Bayern oficializasse o acerto. Não pegou bem na outra parte envolvida.

O diretor esportivo do Eintracht Frankfurt, Fredi Bobic, acusou o “desrespeito” pela maneira como o anúncio do acerto foi feito. Não houve um alinhamento prévio entre os clubes, com um turbilhão de notícias alterando a rotina das Águias justo em uma semana decisiva. A torcida, por sua vez, está descontente pela maneira como o técnico agiu, semanas depois de reafirmar a sua fidelidade – e, pior, de criticar aqueles que interrompem seus trabalhos no meio do caminho. O que fez, de qualquer forma, não tem nada de ilegal. Ele acionou uma cláusula avaliada em 2,2 milhões de euros, prevista em seu vínculo com o Eintracht Frankfurt.

Olhando para frente, restam mais dúvidas do que certezas. É ver como o Eintracht Frankfurt irá reagir, em meio à briga pela conquista da Copa da Alemanha (na qual pode cruzar com o Bayern na final) e da corrida para voltar à Liga dos Campeões depois de 58 anos. E, quando assumir o cargo na Baviera, Niko Kovac continuará lidando com os questionamentos. Vai saber controlar as estrelas que minaram a passagem de Carlo Ancelotti? Vai manter a competitividade do time, com um estilo de jogo suficientemente bom para gerar aplausos? Vai criar espaços aos jovens, em um elenco tão recheado? Interrogações que podem gerar cobranças instantâneas, a não ser que o novato corresponda rapidamente.