Aquela simpática abelhinha causou muitas dores de cabeça aos adversários do Rayo Vallecano na virada do milênio. Reunindo jogadores emblemáticos do clube e do período, aquele time de 1999/00 superou sua própria melhor colocação no Campeonato Espanhol até então, obteve resultados memoráveis contra as potências de La Liga e de quebra ainda embarcou na única participação numa copa europeia em sua história, na temporada seguinte. Tudo isso vestindo uma camisa curiosa e de história um tanto controversa por trás, mas que se eternizaria no imaginário de seguidores e fãs do futebol do país.

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O Rayo estreou na elite em 1977/78 com um bom décimo lugar (desempenho que valeu a convocação do meia Antonio Guzmán, defendendo a Espanha na Copa de 1978). Figuraria por mais duas temporadas e depois chegaria a parar na terceira divisão em 1984/85, mas lá pelo fim da década estava de novo na máxima categoria, iniciando uma tradição de ioiô: promovido em 1989, 1992 e 1995 e rebaixado em 1990, 1994 e 1997. Neste último ano, o clube seria uma das vítimas do “enxugamento” da liga, de 22 para 20 clubes: quatro cairiam direto, com o 18º disputando uma repescagem – e foi esta a colocação do time, que acabou derrotado nos gols fora de casa pelo Mallorca.

Na temporada 1998/99, a equipe chegou a liderar a segunda divisão por algumas rodadas, mas oscilou demais e terminou na quinta colocação, oito pontos atrás do campeão Málaga. Para sua sorte, o segundo colocado foi o Atlético de Madrid B, que, sendo clube filial, não poderia subir. Assim, o Numancia (terceiro) herdou a outra vaga de acesso direto e o Sevilla (quarto) foi mantido nos playoffs, com o Rayo ganhando a chance de enfrentar o Extremadura, 17º colocado na primeira divisão, para tentar voltar à elite. O time de Vallecas venceu ambos os jogos por 2 a 0 e comemorou a volta ao convívio dos grandes.

Na ocasião, o clube era de propriedade do polêmico e folclórico empresário José María Ruiz-Mateos, que em 1994 colocou sua esposa, Teresa Rivero, na presidência (tornando-se a primeira mulher a ocupar o cargo em um clube da divisão de elite espanhola) e seu filho Álvaro na gerência. Ruiz-Mateos havia comandado um conglomerado de empresas denominado Rumasa, que controlava desde bancos e hotéis, vinícolas e supermercados, e que em 1983 fora expropriado pelo governo espanhol pelo acúmulo de dívidas que somavam vários bilhões de pesetas.

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Mais tarde, depois de passar uma temporada preso, o empresário voltaria à cena fundando a Nova Rumasa, na mesma época em que assumia o controle acionário do clube de Vallecas. O símbolo da antiga empresa, uma simpática abelhinha desenhada sob um hexágono amarelo imitando uma colmeia, foi parar na camisa do Rayo a partir do acesso de 1999. Seria com ela que o clube faria história ali naquela virada do milênio.

No comando da equipe estava um treinador que ganhava nome nas divisões inferiores (incluindo uma passagem pelo Barcelona B) e já havia levado o Logronés à elite em 1996. Juande Ramos, 45 anos, ficaria para a campanha de retorno à primeira divisão. Com algumas contratações ambiciosas de reforços pinçados em outras grandes ligas europeias, um elenco que primava pela versatilidade e um esquema de jogo de defesa firme, marcação implacável, meio-campo dinâmico e atacantes perigosos, os franjirrojos não queriam apenas evitar o descenso. A vontade expressa era a de brigar um pouco mais acima.

Entre os jogadores que chegaram ao clube para aquela temporada estavam o goleiro Kasey Keller, vindo do Leicester depois de ser titular da seleção dos Estados Unidos na Copa de 1998 – e de parar o Brasil na Copa Ouro com uma famosa atuação; o armador alemão Gerhard Poschner, ex-Stuttgart e Borussia Dortmund, trazido do Venezia italiano; o volante português Hélder, comprado do Paris Saint-Germain; o atacante Manuel Canabal, buscado no Alavés. E o jovem Jordí Ferrón, 21 anos, cria da cantera azulgrana (fora comandado de Juande no Barcelona B) e que atuava com a mesma eficiência nas laterais ou no meio-campo.

Um elenco versátil

A versatilidade simbolizada por Ferrón se estendia à maioria dos jogadores, o que permitia inumeráveis variações táticas a cada jogo ou dentro de uma mesma partida, ainda que sempre mantendo a compactação do setor defensivo. O elenco era homogêneo até mesmo no gol, onde Kasey Keller tinha como sombra o experiente Julen Lopetegui, 33 anos, terceiro goleiro da seleção espanhola na Copa de 1994. Revelado pelo Real Madrid (onde não teve muitas oportunidades), viveu grande fase no Logronés, antes de seguir para o Barcelona, no qual também ficou na reserva, chegando ao Rayo em 1997.

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A defesa, repleta de nomes experientes, poderia ser formada tanto por uma linha de quatro quanto por três centrais e dois alas. Nos dois casos, o francês Jean-François Hernández seria um dos pilares do miolo de zaga. Ao seu lado, fosse pelo centro ou em uma das laterais, jogavam o capitão Jesús Cota (que chegou ao Rayo, única equipe de sua carreira, em 1987) e o versátil Ángel Alcázar, ex-Sporting Gijón. Carlos Llorens, outro jogador rodado por clubes pequenos, era o lateral-esquerdo, podendo também ocupar aquela faixa do meio-campo. O setor contava ainda com o jovem Ivan Amaya, cria da base, e David Clotet, trazido do Logroñés, além do brasileiro Gilmar, ex-São Paulo e Zaragoza, que atuou em apenas duas partidas.

O meio-campo, por sua vez, também tinha várias formações possíveis: dois ou três volantes, um ou dois armadores, ou uma linha de quatro simples. Além de atuar nas duas laterais, o já citado Jordí Ferrón também era utilizado com frequência pelo lado direito do setor, ou como um da trinca de volantes. Assim como acontecia com o veterano Eduardo Estibaríz, vindo de sete temporadas pelo Athletic Bilbao, sem chegar a se firmar. No miolo, entretanto, a figura imprescindível era o português Hélder. Outros jogadores úteis do setor eram o volante Pablo Sanz, os meias Miguel Ángel Sánchez (o Míchel I) e Miguel Carrilero (o Míchel II, que também podia jogar na frente), além do ponta holandês Dave van den Bergh.

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O patrão do meio-campo, no entanto, era o alemão Gerhard Poschner, que combinava raça e talento sob um visual que remetia ao ator Antonio Banderas no filme “A Balada do Pistoleiro”. Um pouco mais à frente, na ligação com o ataque, jogava o dinâmico Luís Cembranos, nascido em Lucerna, na Suíça, mas de nacionalidade espanhola e carreira desenvolvida na Catalunha, onde defendeu Figueres, Barcelona B (com rápida passagem pelo elenco principal) e Espanyol. Suas atuações pelo Rayo valeriam uma convocação para defender a Espanha, então sob o comando de José Antonio Camacho (ex-técnico do clube).

Na frente, atuava uma dupla goleadora: Jon Andoni Pérez, o Bolo, era uma promessa da filial do Athletic Bilbao, mas nunca conseguiu se firmar no time de cima. Depois de rodar emprestado pelo Osasuna e pelo Hércules, encontrou seu espaço no Rayo, na temporada do acesso. Em 1999/00, marcou dez gols em La Liga, um a menos que seu parceiro de frente, Manuel Canabal. Grandalhão (1,95m), mas de certa habilidade, Canabal foi revelado pelo Mérida e logo em seguida contratado pelo Real Madrid, onde fracassou. Cedido ao Alavés, acabou indo parar no Rayo como uma das novidades na volta à elite.

De início, alçado ao topo

A estreia deste novo elenco veio não muito longe de Vallecas, diante de um Atlético de Madrid comandado por Claudio Ranieri e que havia investido uma fortuna para reaver o título da liga – mas que já seria surpreendido na primeira partida. No Vicente Calderón, uma cabeçada de Hernández após escanteio perto do fim da primeira etapa e um rebote aproveitado por Ferrón logo no início do segundo tempo deram uma surpreendente vitória por 2 a 0 ao time da abelhinha.

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E não seria apenas uma sensação de primeira rodada: de volta a Vallecas, a equipe derrotou o Mallorca e a Real Sociedad, ambos por 2 a 1. E na quarta partida, foi a Vigo e bateu o Celta por 1 a 0, gol de Bolo no segundo tempo. O resultado entrou para a história. Superando o Barcelona por dois pontos, o Rayo era, pela primeira vez em sua existência, o líder isolado do Campeonato Espanhol.

O primeiro revés, derrota em casa para o Zaragoza pelo placar mínimo, seguido por um empate em Santander diante do Racing (1 a 1) tiraram os franjirrojos da ponta, mas ela seria recuperada com mais dois bons triunfos: 2 a 1 contra o Espanyol em casa e 1 a 0 na visita ao Alavés no País Basco. O perde e ganha continuou com uma derrota em casa para o Betis (3 a 1) compensada com outra vitória fora diante do Valladolid (2 a 1), que trouxe de volta a primeira colocação.

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Na 11ª rodada, a sorte jogou a favor: apesar da derrota em Vallecas para o vizinho Real Madrid (3 a 2), a equipe se manteve na liderança graças a uma derrota do Barça para o Málaga em pleno Camp Nou. Mas daí em diante, nenhum deslize seria perdoado. O Rayo perderia também os três jogos seguintes, iniciando seu período mais crítico na temporada. Até o fim do turno, somaria apenas duas vitórias e um empate.

Pregando as últimas peças

O returno começaria na mesma batida: nas oito primeiras rodadas, apenas uma vitória e dois empates, tendo ainda de amargar uma goleada de 5 a 1 para o Espanyol na Catalunha. Na 27ª rodada, a equipe já havia despencado para uma modesta 12ª colocação, 15 pontos atrás do líder Deportivo de La Coruña e apenas quatro acima da zona de rebaixamento. Parecia que o brilho inicial havia sido passageiro, o time de Juande Ramos apenas tinha obtido ali uma reserva de pontos que o permitiria permanecer na elite.

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Foi quando o Rayo resolveu tirar mais alguns coelhos da cartola. Depois de empatar em 1 a 1 com o Betis em Sevilha e golear o Valladolid em casa (4 a 1), era chegada a hora de visitar o Real Madrid no Santiago Bernabéu, em 25 de março de 2000. O time segurou um 0 a 0 diante dos merengues de Raúl, Redondo e Roberto Carlos, chegando ao terceiro jogo seguido sem derrota, algo que não conseguia desde quando era líder. E outro 0 a 0, contra o Numancia em casa, precederia duas grandes vitórias.

Contra o Athletic Bilbao no San Mamés, Michel I abriu o placar logo aos três minutos e Carlos Llorens ampliou de pênalti ainda no primeiro tempo. Ezquerro descontou para os bascos, mas o Rayo segurou os três pontos. Em seguida, os franjirrojos receberiam o Deportivo de La Coruña. Líderes isolados, cinco pontos à frente do Barcelona, os galegos vinham de golear o Atlético de Madrid por 4 a 1. Mas saíram atrás em Vallecas graças a outro gol de Michel I, de pênalti. No fim, Jordi Ferrón deu números finais: 2 a 0 para o Rayo, numa vitória categórica sobre o futuro campeão da liga.

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Mas ainda não havia acabado. O Barcelona de Louis van Gaal chegava à 36ª rodada na vice-liderança a dois pontos do Deportivo. Uma vitória sobre o Rayo no Camp Nou poderia levar a equipe ao topo em caso de novo tropeço dos galegos. Para a missão, contavam com Rivaldo, Kluivert, Guardiola e outros craques. Só que o Rayo resolveu estragar os planos. Logo aos nove minutos, Bolo recebeu cruzamento da esquerda e guardou o primeiro. Depois, já no fim do jogo, recebeu passe nas costas da defesa e fez o segundo. Foi a primeira – e até hoje única – vitória franjirroja no Camp Nou na história. Com o perdão do trocadilho, a campanha já tinha sua cereja do bolo.

Na última rodada, uma vitória por 3 a 2 fora de casa sobre o lanterna e já rebaixado Sevilla garantiu a nona colocação, que passou a ser a melhor posição final do clube na liga em sua história até 2013. Já era uma temporada inesquecível por si só. Mas, após o encerramento do campeonato, veio outra ótima notícia: indicado pelo prêmio Fair Play (entre as equipes mais disciplinadas das ligas europeias), o clube foi um dos sorteados para uma vaga na fase preliminar da Copa da Uefa.

Em seguida, a boa campanha europeia

Enquanto aguardava a estreia europeia, o clube manteve o técnico Juande Ramos, mas teve que negociar parte do cobiçado elenco. O curinga Jordi Ferrón e o zagueiro Iván Amaya seriam convocados pela seleção olímpica da Espanha para os Jogos de Sydney, na segunda quinzena de setembro, mas ambos já haviam deixado o clube: o primeiro foi vendido ao Zaragoza e o segundo ao rebaixado Atlético de Madrid, que também levou Jean-François Hernández para tentar o acesso. A mesma missão teria Michel II no Sevilla, enquanto Carlos Llorens rumou para o promovido Osasuna e Canabal para o Málaga.

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Algumas lacunas foram supridas com a contratação de nomes como os zagueiros De Quintana (que voltava ao clube após três anos) e Ballesteros, do lateral Mingo, do meia Quevedo, do atacante brasileiro Gláucio e do bósnio Elvir Bolic. A fase preliminar do torneio europeu foi superada sem problemas, com duas goleadas sobre o inexpressivo Constelaciò, de Andorra: 10 a 0 e 6 a 0. A pontaria também esteve afiada na estreia na liga, quando o time enfiou 5 a 1 no Villarreal fora de casa. No entanto, desta vez a campanha seria bem mais discreta, ainda que sem ameaça de rebaixamento, terminando apenas num 14ª lugar.

Já na Copa da Uefa, o próximo adversário seria o Molde, que havia alcançado a primeira fase de grupos da Liga dos Campeões na temporada anterior. Mas nem o bom momento dos noruegueses assustaria o Rayo, que venceria fora de casa por 1 a 0 e seguraria o empate em 1 a 1 em Vallecas. O clube voltaria à Escandinávia na etapa seguinte para enfrentar o Viborg. Batido em Madri por 1 a 0, o time dinamarquês venceu em seus domínios por 2 a 1, mas os franjirrojos avançaram pelo gol como visitante.

Na etapa seguinte, o Rayo voltaria da Rússia com um empate sem gols diante do Lokomotiv Moscou no jogo de ida para vencer por 2 a 0 em Vallecas. E nas oitavas, já em fevereiro de 2001, viria o resultado mais memorável daquela campanha. O adversário era o Bordeaux francês, dos atacantes Dugarry e Pauleta. Na partida de ida, na Espanha, os franjirrojos tomaram um susto com o gol de Laslandes logo aos dois minutos, mas empataram com De Quintana e, nos 20 minutos finais, partiram para a virada com goleada de 4 a 1, em que Bolic, Michel e Quevedo balançaram as redes. Na volta, outra vitória por 2 a 1 na França confirmou a classificação às quartas de final.

A trajetória europeia do Rayo terminaria diante de outra sensação espanhola, o Alavés. Perdendo por um administrável 1 a 0 até os 33 minutos da etapa final no País Basco, o time de Juande Ramos sofreu dois gols em sequência, aos 34 e 35, deixando o adversário com a classificação às semifinais quase encaminhada. Na volta, o time de Vallecas não conseguiu o que seria uma “remontada” histórica, mas venceu por 2 a 1 de virada e encerrou de maneira honrosa a única campanha continental de sua história.

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Dali a duas temporadas, o clube retomaria sua sina de ioiô: apesar de bater seu recorde no número de sócios em 2003, acabaria sofrendo dois rebaixamentos consecutivos, permanecendo quatro temporadas na terceira divisão, até voltar à segunda em 2008 e finalmente à elite em 2012 – ainda que em meio a graves problemas financeiros, que levaram à saída de José María Ruiz-Mateos. A equipe terminaria a temporada 2012/13 na oitava colocação, superando aquela posição de 2000, mas três anos depois cairia novamente. Atualmente, o Rayo lidera a segunda divisão e sonha em fazer história outra vez na elite.

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Quinzenalmente, o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

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