Pochettino, Sarri, Allegri, Conte, Guti. Vários foram os nomes especulados como possível treinador do Real Madrid, após a saída de Zinedine Zidane. No entanto, o anúncio oficial nesta terça-feira provocou grande surpresa. O verdadeiro escolhido passou distante do radar da imprensa espanhola. Os merengues confirmaram que, após a Copa do Mundo, Julen Lopetegui chegará ao Santiago Bernabéu. Encerrará o seu trabalho de dois anos à frente da seleção espanhola para assumir um desafio gigantesco, tentando erguer a sua reputação à frente de clubes. Claramente, uma cartada de Florentino Pérez que passa longe da badalação midiática que poderia se sugerir.

Em sua nota oficial, o Real Madrid não trouxe grandes informações. Apenas declarou que Lopetegui se incorporará ao clube após o Mundial e que assinou contrato pelos próximos três anos. Curiosamente, o treinador havia renovado seu contrato com a seleção em 23 de maio e contava com todo o respaldo interno. “Esta decisão supõe a renovação de um projeto. Está feita há tempos, sem nenhuma precipitação. Julen foi nossa aposta clara desde o primeiro momento e, por mim, pode seguir até 2020, 2022 ou 2024”, declarou Fernando Hierro, que agora trabalha como diretor esportivo da seleção.

Não se nega a maneira como Lopetegui tem revigorado a seleção espanhola no atual ciclo, após a saída de Vicente del Bosque ao final da Eurocopa. O novo comandante livrou a Roja de algumas amarras e permitiu ao time exibir um futebol mais dinâmico. Além disso, vem sabendo gerir o elenco, balanceando medalhões e novatos. Ainda assim, o grande teste para aquilo que desempenha virá na Rússia. Há uma prova de fogo aos espanhóis, que podem ser colocados entre os favoritos, mas terão uma missão árdua desde a fase de grupos. Nesta perspectiva, considerando apenas amistosos e Eliminatórias, o treinador não foi provado suficientemente.

Goleiro de carreira modesta, Lopetegui defendeu o Real Madrid quando era jovem. Jogou no Castilla por três anos e por duas temporadas ocupou o banco de reservas do elenco principal, sem ganhar grandes oportunidades. Defendeu também Logroñés e Rayo Vallecano, onde desfrutou as maiores sequências de sua trajetória, além de ter sido reserva do Barcelona entre 1994 e 1997. Já como treinador, também é uma cria dos merengues. Chegou a chefiar os olheiros do clube em meados da década passada e, em 2008/09, permaneceu uma temporada como técnico do Castilla. A partir de então é que iniciaria os seus maiores sucessos à frente das seleções de base.

Lopetegui teve sua primeira passagem pela federação entre 2010 e 2014. Dirigiu inicialmente o time sub-19, campeão europeu e participando do Mundial Sub-20. Já o grande feito aconteceu à frente do sub-21, quando conquistou o Campeonato Europeu de 2013. Aquela equipe contava com diversos nomes que irão à Copa do Mundo, entre eles Thiago Alcântara, Isco, Koke e Rodrigo Moreno. Deixaria a seleção para assumir o Porto, em passagem frustrada de dois anos. Então, viraria a aposta da federação para suceder Del Bosque. Conhecido de muitos no elenco, vem fazendo um trabalho positivo até o momento.

Até parecia que Lopetegui se tornaria um “treinador de seleção”, conduzindo um trabalho de longo prazo, sem tanta pressão por resultados imediatos e aproveitando o trânsito que tem na base. Entretanto, preferiu aceitar o desafio ao assumir um gigante como o Real Madrid. Neste momento, até parece um passo maior que as suas próprias pernas, considerando o histórico. Terá que mudar a impressão deixada no Porto e assumir uma responsabilidade imensa, não apenas pela dinastia construída pelos merengues com Zidane, mas também pelas dúvidas quanto à renovação de algumas peças.

A contratação de Lopetegui indica que o mercado, um motivo de rusgas entre Zidane e seus superiores, deve voltar a ser mais controlado pela diretoria. Além do mais, reforça a tendência recente do Real Madrid em buscar reforços entre boas promessas do futebol espanhol. Por seu passado nas seleções de base, o novo comandante deve potencializar isso ou mesmo aproveitar alguns nomes já presentes no elenco. Há bons valores que não renderam tanto na última temporada e outros que podem render ainda mais.

Enquanto a decisão de Zidane pegou muitos jogadores de surpresa, o anúncio de Lopetegui deve ter corrido nos corredores da concentração da seleção espanhola. É natural imaginar que lideranças, como o próprio Sergio Ramos, foram consultadas sobre a escolha da diretoria, até para asseverar a relação com o restante do elenco. Ainda assim, há muito mais egos a se gerir, dentro de uma equipe com tantas estrelas. Este será um ponto crucial. Zidane, bem mais “boleiro” e de carreira que fala por si, se deu bem neste aspecto, até por já ter trabalhado como assistente de Carlo Ancelotti. Apesar disso, os desgastes foram naturais com o tempo. Dentro deste contexto, Guti parecia ser um nome forte, por sua relação de anos com o clube.

Outro ponto é o estilo de jogo. O que Lopetegui faz na seleção espanhola é diferente do que se viu no Real Madrid durante os últimos anos. A Roja permanece como uma equipe que gosta de ter a bola em seus pés, embora apresente um dinamismo e uma proteção maiores do que as vistas nos últimos tempos de Del Bosque. Não é um time de ações tão diretas quanto os merengues. Será outra questão importante a partir de sua chegada: a maneira como lidará com as bases já estabelecidas. Na seleção, de certa forma, ele as aproveitou. Fará o mesmo no Bernabéu?

A princípio, Lopetegui soa como um técnico de transição. Alguém que poderá fazer mudanças no grupo, sem se opor às escolhas da diretoria e sem bater de frente com os jogadores. O ponto é saber se este perfil mais modesto será suficiente em um clube que, quando fez apostas do tipo, confiava em alguém com reputação interna – a exemplo de Del Bosque, Zidane e outros comandantes históricos em Chamartín. A pressão será imensa, principalmente se o desempenho da Espanha na Copa do Mundo não for suficiente para respaldá-lo rumo ao Real Madrid. Fazer o time jogar bem, como conseguiu na Espanha, será o primeiro desafio. Mas sempre se cobra mais no Bernabéu, e seus resultados precisam ressoar.