Há ocasiões em que falar sobre futebol incomoda. Tudo porque aquilo que deveria ser um elemento de entretenimento ou de socialização acaba se transformando em barbárie. Tudo porque se renega o que realmente é futebol. O Pacaembu, infelizmente, viveu uma dessas noites nesta terça-feira. Foi o desfecho de uma partida que reuniu o pior possível para traçar um estereótipo bisonho da Libertadores e abandonou a identidade de uma competição que é rica por si, em cultura e arquibancada, sem necessariamente ser parte de imbecilidades e boçalidades. O placar de 0 a 0, a classificação do Independiente ou a eliminação do Santos ficam em segundo plano. A marca deixada é de um duelo entre dois clubes tradicionalíssimos que simplesmente não aconteceu.

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O primeiro ato da estupidez foi protagonizado pela Conmebol. Uma entidade que se pretende moderna e quer abrir as portas a uma “nova era na Libertadores” renegando suas origens, mas que não tem a capacidade de criar um sistema eletrônico que saiba informar os clubes sobre as suspensões de seus jogadores. O Santos foi amador no processo, sobretudo pela ingenuidade de não desconfiar da incompetência da entidade sul-americana. Só nisso, 90 minutos em Avellaneda foram jogados no ralo e a preparação dos atletas também foi prejudicada. Promoveu-se então um jogo de futebol de clima impossível, em que o Peixe precisaria reverter a derrota por 3 a 0 no tapetão, com o sangue quente pela decisão que os cartolas do continente não foram sequer capazes de tomar com uma antecedência maior.

Logo nos primeiros segundos, o Santos confundiu o que era vontade com violência. Aí, viu-se um apelo às místicas que não ganham jogo. A situação gerou um jogo extremamente tenso e ríspido, em que mal a bola rolou para que os jogadores de ambos os lados trocassem entradas fortes. Os santistas, que necessitavam de concentração, caíram na pilha e tinham dificuldades. O Independiente sabia fazer o seu jogo e se fechava bem, criando a primeira ocasião, em lance no qual reclamaram de pênalti. Pouco depois, a resposta alvinegra viria em chute de Gabriel que o goleiro Martín Campaña pegou. O Peixe tinha a iniciativa, mas cometia erros tolos pelo nervosismo. Enquanto isso, o Rojo levava vantagem numérica no meio-campo, algo fundamental para evitar qualquer pressão. Com quatro homens no ataque, os paulistas mal conseguiam criar e, quando Gabriel apareceu de novo, Campaña salvou.

Naquele momento, a torcida do Santos já precisava se apegar a algum sinal do sobrenatural. E ele apareceu aos 43 minutos, quando Vanderlei cometeu pênalti. Maximiliano Meza cobrou e o goleiro voou no canto para defender. O lance deveria servir como uma injeção de ânimo para os três gols necessários à classificação santista. Ao final do primeiro tempo, relembrando a lendária semifinal do Brasileiro de 1995, os jogadores permaneceram em campo para ouvir os recados do técnico Cuca. O comandante precisava mudar de estratégia e fez isso, com a entrada de Bryan Ruiz no lugar de Bruno Henrique. O abafa, todavia, pouco funcionava.

Aquela empolgação pelo pênalti defendido por Vanderlei logo se provou apenas uma miragem. O Independiente seguia mais confortável em campo, evitando os chuveirinhos dos anfitriões. E, com espaço para contragolpear, começou a criar chances. Vanderlei fez duas boas defesas, antes que Pablo Hernández acertasse uma bomba no travessão. O relógio marcava 27 do segundo tempo e a esta altura nem os mais crentes alvinegros confiavam nos três gols. Não demorou para o caos tomar o Pacaembu.

O estopim da confusão aconteceu depois que uma bomba explodiu nas proximidades do banco de reservas do Independiente, paralisando do jogo. Um bando de descontrolados no meio da torcida do Santos tentou forçar as grades do Pacaembu e invadir o campo, em cena parecida com a ocorrida durante o Corinthians x River Plate na última década. Mais explosões de quem só queria tumultuar, mais golpes de cassetete de uma polícia despreparada, mais boçalidade. Algumas invasões aconteceram e ficava claro que a situação não era favorável à continuidade da partida. O estouro da violência, em partes, lavava as mãos da Conmebol.

A ira de indivíduos portando a camisa do Santos é responsabilidade deles mesmos. São eles que destruíram o patrimônio, são eles que colocaram a integridade de outras pessoas em risco, são eles que prejudicavam os torcedores que estavam ali realmente para torcer. São eles que precisam ser tratados criminalmente por seus atos. Seria natural ficar com raiva da confederação sul-americana, mas isso não precisa desembocar em tamanha estupidez. De qualquer forma, indo além das responsabilidades pessoais, a Conmebol também tem sua parcela de culpa pela negligência e pela incompetência – muito além do caso envolvendo Carlos Sánchez, aliás.

Não se nega a própria permissividade no tratamento que a Conmebol (além de outras autoridades) dá a pessoas que provocam a barbárie em estádios na América do Sul. Os exemplos de violência são vários nos últimos anos e nem sempre têm as punições devidas, especialmente sem o tratamento criminal que mereceriam. Basta ver outra mancha neste confronto, com a passividade que o Independiente tratou um tema sério como o racismo na viagem de seus torcedores ao Brasil. Mesmo que a CBF esteja enfraquecida no jogo político, os causadores do problema sabem que a impunidade impera. Aí entra também a politicagem que fede nos corredores da confederação sul-americana.

É torcer para que essa sucessão de episódios lamentáveis que envolveram Santos x Independiente pare por aí. Contudo, este jogo precisa ficar marcado para sempre. Precisa ser lembrado como um exemplo do que a Libertadores não pode ser. A Libertadores não pode ser subjugada por desmandos, por incompetências, por selvagerias. Foi apenas isso o que envolveu esta eliminatória, pouco lembrada pelos quase 170 minutos em que a bola rolou. Jogadores, comissão técnica, a maioria absoluta dos torcedores e a instituição acabam sendo vítimas de um punhado de incapazes, seja nas arquibancadas ou nos escritórios.

A Libertadores pode não contar mais com os melhores jogadores, mas deve continuar simbolizada como um torneio de resultados imprevisíveis, de times entregues, de torcidas apaixonadas, de clubes tradicionais. Não é difícil entender isso e nenhum desses elementos precisa dos excessos vistos nos últimos dias. Mas para isso, muitos dos atores que compõem o torneio precisam de mais consciência – inclusive torcedores, clubes e jogadores. Principalmente, a Conmebol, esta entidade da qual não se espera nada além do pior e que enfia no ralo uma competição em que a paixão deveria ser marca, não a irracionalidade.