As grandes histórias nas noites de futebol não são escritas necessariamente por times, mas quase sempre por grandes personagens. Por aqueles heróis que surgem e fazem acontecer o resultado. Há uma antítese no Brasileirão em que vários clubes parecem querer o sucesso, mas nem todos tratam o torneio como prioridade, o que se reflete em arquibancadas vazias mesmo em jogos importantes. Ainda assim, nesta quarta, os protagonistas pareciam dispostos a brotar. E, à sua maneira, cada um dos duelos contou com um jogador relevante no contexto, possibilitando o resultado favorável.

Em Porto Alegre, Grêmio e Cruzeiro fizeram a partida de maior relevo da rodada. Os tricolores pareciam mais interessados no jogo, ao escalarem os titulares contra um mistão celeste. Contudo, foram os mineiros que saíram em vantagem, com um chute caprichoso de Bruno Silva. Mas ainda não chegara a hora do personagem. Ele parecia ter surgido no início da segunda etapa, quando Everton resolveu aprontar. O melhor jogador gremista do ano chamou a zaga cruzeirense para bailar e, depois de abrir caminho com seus dribles, acertou um chutaço que desviou no meio do caminho, sem chances a Fábio. Ainda assim, não era ele. O escolhido veio já na reta final do confronto, quando a virada parecia inescapável.

Foi então que brilhou Fábio, um daqueles que possui gosto pelo estrelato nas noites de quarta. O ídolo do Cruzeiro já tinha arrebentado na última semana, ao pegar três pênaltis na disputa contra o Santos, garantindo o seu time na próxima fase da Copa do Brasil. A defesa, desta vez, teve um peso maior por si. E mostrou como a Raposa consegue ser copeira também em jogo de pontos corridos. O Grêmio viu a penalidade ser marcada a seu favor e Luan mirou o canto. Parou mais uma vez nas mãos salvadoras do goleiro, que deu o empate por 1 a 1. Foi o quarto chute consecutivo na marca da cal perdido pelos gremistas. O time de Renato Gaúcho desperdiçou a chance de se aproximar dos líderes e vem com 37 pontos, na quarta colocação. Por outro lado, assumindo o que interessa no momento, mas sem deixar de lutar, os cruzeirenses aparecem em sétimo, com 27 pontos.

O protagonista, aliás, não precisa ser necessariamente o herói de um épico. No Maracanã, por exemplo, aconteceu assim. Pedro poderia ter sido um desses, se realmente marcasse o golaço que aprontou, mas errou a finalização. Cássio também era um candidato, acumulando ótimas defesas na atuação ruim do Corinthians, mas sua participação foi contrabalanceada pelo antagonismo de Romero, expulso ainda no primeiro tempo. Quem levou o triunfo do Fluminense a outro caminho foi Gum. O zagueiro assegurou o 1 a 0 no placar logo na etapa inicial, aproveitando bola dentro da área, e deixou os tricolores com os mesmos 26 pontos dos alvinegros na tabela. Ao fim da noite, porém, o veterano tratou de partir ao pastelão. Deu uma pitada de comédia, agradecendo ao VAR por ter influenciado o resultado com a expulsão do corintiano. Só depois de ser avisado pelo repórter teve noção da gafe que cometeu e tentou consertar, mas o estrago já tinha sido feito.

O São Paulo, ainda líder, arrancou um empate fora de casa. Mas o ponto não se torna tão valioso assim, considerando que veio diante do lanterna Paraná. Diego Aguirre confiou em seus titulares desta vez e o personagem talvez saísse entre estes. Nenê precisou de pouco tempo para abrir o placar e Diego Souza quase roubou a cena, emendando uma bicicleta por cima do travessão. Contudo, os paranistas tiveram uma postura valente de pressionar os primeiros colocados. Silvinho e Biteco reivindicavam para si o papel principal, participando bastante das jogadas de definição. Mas foi o lateral Júnior quem se destacou, com uma bomba que valeu o empate por 1 a 1. Sidão ainda teria participação para evitar a virada, enquanto a pressão no fim pouco rendeu aos paulistas, agora com 42 pontos, mas vantagem menor.

Com isso, o Internacional pode ser considerado o grande vitorioso da quarta-feira. Também jogou fora de casa e venceu um desafio mais exigente, batendo o Bahia na Fonte Nova por 1 a 0. Foi um jogo bom de se ver no primeiro tempo, com muita intensidade. E que terminou com um destaque digno à campanha excelente dos colorados. Patrick foi uma adição valiosa ao elenco e é desses que ajudam a elevar as perspectivas do Inter na competição. Dá combatividade ao meio-campo, ajuda na construção do jogo e também aparece nas definições, algo que ficou evidente em Salvador. Após jogada de Rossi, seria dele a tarefa de empurrar a bola para dentro e definir o resultado aos visitantes. Permitiu que os gaúchos ficassem com o jogo na mão e administrassem a vantagem principalmente no segundo tempo. Chegam aos 41 pontos, apenas um a menos que o São Paulo.

Em Recife, no encontro de duas equipes que mais se preocupam em olhar à parte inferior da tabela, o América Mineiro mostrou que pode fazer uma campanha digna dentro de sua realidade. E se o interesse é apostar em medalhões, um deles funcionou decisivamente ao Coelho. Luan não deixou muitas saudades nas torcidas de clubes de maior projeção pelos quais passou. No Independência, entretanto, desfruta de certa tranquilidade e ressalta como pode ser útil. O Sport tinha as melhores chances na Ilha do Retiro. Chegou a acertar a trave, a parar em grande defesa de João Ricardo. Mas foi o veterano quem apareceu para estufar as redes, pegando rebote de milagre de Magrão, e também serviu Rafael Moura no final. Enquanto os pernambucanos beiram a zona de rebaixamento, os mineiros aparecem numa satisfatória décima colocação, encostados em Flu e Corinthians.

Por fim, um dos maiores personagens surgiu no Allianz Parque. Lucas Lima não justificou o investimento do Palmeiras ainda. Com a chegada de Felipão, todavia, parece recobrar um pouco mais da confiança. Coloca-se entre aqueles que se reerguem na boa sequência de resultados sob as ordens do treinador. E, ganhando minutos, seria o trunfo para bater o Botafogo. Era um jogo amarrado aos alviverdes, que tiveram controle no primeiro tempo, mas não criaram tantas oportunidades assim. Para a segunda etapa, Felipão decidiu colocar o meia, sacando Bruno Henrique e recuando Moisés. Foi a chave para que os palmeirenses saíssem com os três pontos.

Outros heróis ainda poderiam ter aparecido. Borja perdeu um gol feito logo no início da segunda etapa. O Botafogo não era ajudado pelos seus, entre os deslizes do goleiro Saulo e a expulsão de Moisés. Assim, com um a mais, o Palmeiras encontrou o caminho à vitória a partir dos 32, graças à precisão dos tiros de Lucas Lima. O sem-pulo cruzado para abrir o placar já valia o ingresso. E, depois que Saulo defendeu um pênalti de Dudu, o meia se mostrou como se faz. Em uma cobrança de falta com pouco ângulo, arriscou a gol em batida fechada e mesmo assim encontrou o caminho às redes. Decretou a vitória por 2 a 0 que, em 45 minutos, já lhe valeu a melhor atuação com a camisa alviverde. É um Palmeiras que se reencontra, especialmente pela segurança defensiva de oito jogos sem sofrer gols. O time em quinto, a um ponto de entrar no G-4.

O Brasileirão carece da emoção e da taquicardia que se vê nas outras frentes às quais se interessam seus principais clubes. Também não tem o apelativo prêmio da Copa do Brasil ou o prestígio internacional da Libertadores, fatalmente caminhos mais curtos. De qualquer forma, além dos finais de semana de disputa, a quarta-feira mostrou que também é possível ter boas histórias na competição nacional. Um pouco de cor para tentar aumentar a expectativa neste início de segundo turno, após um final de primeiro no qual nem todos pareceram se dedicar como deveriam àquele que é o principal torneio do país. São necessárias mais noites como esta.