A torcida que encheu o Camp Nou naquele 5 de setembro de 1993 esperava ver uma grande atuação do Barcelona. O time treinado por Johan Cruyff vinha de três títulos consecutivos em La Liga e estava recheado de craques. Ronald Koeman, Hristo Stoichkov, Brian Laudrup e Pep Guardiola apareciam entre aqueles recebidos pelo “pasillo” feito pela Real Sociedad. Além do mais, havia uma curiosidade especial nos culés presentes nas arquibancadas. Eles queriam ver Romário, o novo reforço do time, contratado após cinco anos de atuações estrondosas com o PSV. Pois o Baixinho não decepcionou. Logo sua primeira partida oficial pelos blaugranas foi inesquecível. Só não fez chover na vitória por 3 a 0 sobre os bascos, em que anotou todos os três gols. Início animador que servia de aperitivo aos ótimos meses que vivenciou na Catalunha e que também respingaria em sua trajetória na seleção brasileira.

Segundo o jornal da véspera, Romário não estava previsto na escalação do Barcelona. Em tempos nos quais apenas três estrangeiros podiam entrar em campo simultaneamente, era esperado que Cruyff privilegiasse os mais antigos do elenco. No entanto, não foi o técnico a cortar o barato de seu novo goleador, deixando Koeman na reserva. Aquela data, aliás, tinha boas memórias aos blaugranas. Vinte anos antes, também em 5 de setembro, o próprio Cruyff fez sua estreia pelos catalães como jogador. Em amistoso contra o Club Brugge, o gênio holandês anotou uma tripleta na goleada por 6 a 0. Algo que o brasileiro, após já ter participado de alguns amistosos, tentaria repetir.

As negociações do Barcelona por Romário se alongaram durante algumas semanas, diante das altas exigências feitas pelo PSV. A diretoria blaugrana acertou o negócio em meados de julho de 1993, pagando uma parte da contratação em dinheiro e disputando amistosos para reverter a renda aos holandeses. Enquanto isso, o atacante vivia um momento decisivo em sua carreira também na Seleção. Deixado de lado das convocações por conta de um desentendimento com Carlos Alberto Parreira, o Baixinho via de longe a equipe nacional se complicar nas Eliminatórias da Copa. Um bom início na Catalunha também poderia aumentar os clamores, já enormes, para que fosse chamado à partida decisiva contra o Uruguai.

Romário já tinha anotado seus gols na pré-temporada e falava aos quatro cantos da amizade instantânea com Stoichkov. De qualquer forma, seu primeiro desafio aconteceria com o pontapé inicial do Campeonato Espanhol. Não sentiu qualquer peso da responsabilidade. Foi uma atuação primorosa do Baixinho contra a Real Sociedad. O camisa 10 (sim, 10 e não 11) demonstrava sua mobilidade ao voltar para buscar o jogo e partir em velocidade entre os zagueiros. O primeiro gol saiu aos 15 minutos. Ótima jogada de Guardiola, fintando a marcação e tocando ao artilheiro, que passava em velocidade. Ele cortou dois zagueiros ao mesmo tempo antes de chutar cruzado, no contrapé do goleiro Alberto López.

Já no início do segundo tempo, Romário ficou um pouco mais fixo, fazendo o pivô. Valeu-se outra vez do ótimo entendimento com Guardiola. O segundo gol saiu aos 20 minutos. O centroavante recebeu e deu um lindo passe de primeira ao meio-campista, com o calcanhar. Guardiola vislumbrou a tabela e devolveu rapidamente, por cima da zaga. Correndo às costas da marcação, o camisa 10 invadiu a área, dominou e deu um leve toque para tirar o goleiro. A vantagem levava a Real Sociedad ao ataque e dava mais espaço ao Barcelona contra-atacar. O Baixinho abusava de suas famosas arrancadas, arriscando bastante a gol. Até que a cereja do bolo acontecesse aos 43. Lançamento de Guardiola para o brasileiro aproveitar a linha de impedimento e ficar livre. Matou no peito e, sem deixar a bola cair, bateu de fora da área com capricho. O chute por cobertura fez a parábola perfeita para encobrir o arqueiro, fechando a conta.

Já na comemoração do gol, Romário ouvia seu nome gritado pela torcida, em meio aos aplausos. Os blaugranas ganhavam um ídolo. “Romário, Romário e Romário: assim com facilidade”, dizia a manchete do Mundo Deportivo. “Definitivamente, o Barça estreia um craque. Três gols mágicos converteram Romário na grande figura blaugrana e um Camp Nou entusiasmado descobriu o homem que marca a diferença e, além do mais, dá todo o espetáculo. O Barça fez uma grande contratação, não há dúvidas. É o homem que pode romper o equilíbrio em uma jogada e, ao mesmo tempo, colocar umas gotas de fantasia contra os estrategistas se empenham em jogar cada dia mais uma batalha de bloqueio”, descreve a reportagem.

Até Alberto, goleiro da Real Sociedad, se rendia ao camisa 10: “Quando você se encontra com um jogador desta qualidade, tem que aplaudir. Na hora em que ele chega com a bola dominada, a única coisa que deseja é que ele erre, mas isso acaba sendo muito difícil. É péssimo tomar três gols de um só jogador, mas se são bonitos como esses, só resta aplaudir. Não é exagero dizer que o Romário foi o homem que fez a diferença”. Já Cruyff aproveitou a ocasião para afastar as dúvidas que existiam sobre os estrangeiros do Barça. Além de ressaltar as qualidades do Baixinho, o treinador também exaltou Guardiola, autor das três assistências. O meio-campista, de qualquer forma, passou os méritos ao centroavante: “Coincidiu que eu dei os três passes, mas o mérito é de Romário. O verdadeiramente difícil é escapar da marcação e fazer os movimentos. Na área ele tem cinco ou seis metros que de, cada cinco bolas que recebe, manda seis para dentro”.

Já a melhor notícia veio dias depois. O Barcelona 3×0 Real Sociedad teve transmissão ao vivo para o Brasil. Os tentos do craque chegaram mesmo a ser anunciados no placar eletrônico de São Januário, enquanto o Vasco vencia o Atlético Mineiro, tamanho era o interesse pela estreia. Diante da empolgação, em 8 de setembro, Parreira finalmente deu o braço a torcer e convocou o Baixinho para o duelo decisivo contra o Uruguai, que valia a vaga na Copa. “O passado está esquecido. Romário tem as portas abertas na Seleção. Seus três gols contra a Real Sociedad e seu comportamento mais recente demonstram que quer participar do esforço coletivo para classificar o Brasil. E isso é o que todos precisamos”. Em 19 de setembro de 1993, em pleno Maracanã, Romário viveu a atuação mais emblemática de sua carreira. Uma história para ser recontada dentro de alguns dias.