O futebol sofreu uma marcante transformação durante a década de 1990. Cada vez mais, a força física se tornava importante para alguns jogadores conseguirem se impor. E melhor ainda se ela pudesse fundir-se com outros atributos, sobretudo a qualidade técnica. Nesta visão, Marcel Desailly se apontava como o jogador do futuro. “The Rock” era tudo isso e mais um pouco. Um monstro fisicamente, por sua potência e sua consistência defensiva, mas que ia além. Poucos defensores na história foram tão completos quanto o francês. Juntava sua velocidade, sua qualidade para quebrar as linhas de marcação com arrancadas, sua precisão nos passes. Era um craque atrás, que antevia o jogo e sabia muito bem se antecipar aos adversários, e que unia isso à auto-confiança e ao senso de liderança. Campeão por onde passou, capitão em diferentes equipes, ídolo de várias torcidas. Um gigante, que merece a reverência no dia em que completa 50 anos de idade.

Desailly possui uma história de vida particular. Nasceu em Accra, capital de Gana, batizado como Odenke Abbey. Nunca foi reconhecido por seu pai biológico e sua mãe não suportava a ideia de se casar a um marido poligâmico. A vida da família mudou quando ela conheceu Marcel Édouard Georges Desailly, funcionário do consulado francês. Ambos se apaixonaram e o homem resolveu adotar Odenkey, dando seu próprio nome ao garoto. Quando tinha quatro anos, mudou-se à cidade de Nantes. “Eu vi meu pai biológico apenas uma vez, quando atingi a maioridade. Cumprimentei-o e isso foi tudo. Meu verdadeiro pai é o Monsieur Desailly. Eu o respeito porque ele me adotou e me deu uma chance”, declara o jogador. Estudando em bons colégios, Marcel falava três línguas já na juventude e logo começou a se destacar nos esportes. Em 1980, juntou-se às categorias de base do Nantes. Nesta época, porém, precisou superar um baque. Seth Adonkor era seu meio-irmão e atuava como profissional no Nantes. Em 1984, faleceu em um acidente de automóvel. Foi quando o adolescente resolveu se empenhar na carreira e virar seu sucessor.

Desailly ganhou a primeira chance no elenco principal do Nantes quando tinha 18 anos. Estreou pelas mãos de Jean-Claude Suaudeau, grande lenda dos Canários. Logo se tornou um nome frequente na primeira equipe e despontou nas seleções menores da França. Era uma das referências do time que acumulava campanhas medianas na Ligue 1 e sabia que poderia almejar mais. Assim, o grande passo ao jovem aconteceu em 1992, aos 23 anos. Aceitou uma proposta para se juntar ao Olympique de Marseille, grande potência do país na época, que vinha de três títulos consecutivos no Campeonato Francês.

O defensor permaneceu apenas uma temporada e meia no Vélodrome, mas já suficiente para fazer história. Chegou a pedido de Bernard Tapie, dono do clube, mesmo contra a vontade do técnico Raymond Goethals. Visto como o substituto de Mozer, precisou passar três meses na equipe reserva, até ganhar uma chance para se provar. Então, jogando no mais alto nível, mudou a ideia do treinador e virou titular absoluto. Ao lado de nomes como Jocelyn Angolma e Basile Boli, formou uma linha defensiva célebre. O coração do time que conquistou a Liga dos Campeões em 1993, derrotando o poderoso Milan na final. O triunfo por 1 a 0 teve Desailly como um dos destaques, bastante elogiado por marcar de perto Marco van Basten na decisão. Entretanto, o escândalo de manipulação de resultados envolvendo os marselheses abreviou a passagem do monstro pela Provença. Diante da punição ao clube e o seu consequente rebaixamento, ele acaba deixando o Olympique. Em novembro de 1993, assina com o Milan, visto como o substituto de Frank Rijkaard.

Versátil, Desailly podia jogar tanto como zagueiro quanto como volante. Em Milão, Fabio Capello aproveitava a sua dominância principalmente na cabeça de área. Seu encaixe no time foi imediato, colocando-se à frente da linha defensiva famosa composta por Tassotti, Baresi, Costacurta e Maldini. Na Serie A, os rossoneri sofreram míseros oito gols nas 21 partidas nas quais o francês atuou e ficaram com a taça. Mas o melhor mesmo aconteceu na decisão da Champions, mais uma vez. O desafio contra o Barcelona era enorme. O Dream Team de Johan Cruyff estava recheado de craques e Hristo Stoichkov causava más lembranças ao volante, depois de eliminar os Bleus nas Eliminatórias da Copa de 1994, no quarto jogo do jovem pela equipe nacional. Pois Desailly não apenas engoliu o búlgaro, como também botou Romário, Bakero e quem mais fosse em seu bolso. Se Dejan Savicevic arrebentou com os blaugranas no ataque, o camisa 8 tomou conta da defesa. The Rock se impôs fisicamente, deu poucos espaços às transições e potencializou as saídas ao ataque. Acabou premiado com um gol na atuação de gala. Pelo segundo ano consecutivo, ergueu a Orelhuda.

No Milan, Desailly ainda conquistou a Serie A em 1996, depois de perder a final da Champions no ano anterior para o Ajax. Ao mesmo tempo, começava a se destacar também na seleção francesa, referência absoluta na defesa. Apesar de uma campanha apenas razoável dos Bleus na Eurocopa, caindo nas semifinais, o defensor acabou eleito para a seleção do campeonato e também foi apontado para o time ideal da Fifa naquele ano, além de terminar em oitavo na Bola de Ouro. Já o ápice aconteceu na Copa de 1998. O camisa 8 foi titular em todas as sete partidas e um dos esteios na equipe de Aimé Jacquet. A força atrás se concentrava em sua parceria com Lilian Thuram, Laurent Blanc, Bixent Lizarazu e Didier Deschamps – este, seu companheiro nos tempos de Nantes. Desailly chegou até mesmo a usar a braçadeira de capitão, contra a Dinamarca. Excepcional, terminou com a taça nas mãos e novamente apontado entre os melhores da competição.

Segundo Paolo Maldini, Desailly foi o melhor defensor estrangeiro que passou pela Serie A. Disputou 186 jogos em cinco temporadas com o Milan e, posteriormente, entrou para o Hall da Fama dos rossoneri. No entanto, seu adeus aconteceu logo após o Mundial de 1998, acertando sua transferência ao Chelsea. Os Blues ainda não eram uma força, mas cresciam ano após ano e investiam em seu elenco para se colocar entre os primeiros na Premier League. O francês representava um salto de qualidade, pronto para liderar a defesa. Ganharia apenas uma Copa da Inglaterra e uma Community Shield em Stamford Bridge, mas seu talento era inegável, recolocando o clube na Champions depois de quase cinco décadas. Tanto é que, na comemoração dos 10 primeiros anos de Premier League, ele foi eleito um dos dois melhores zagueiros que atuaram no campeonato. Também viraria capitão dos londrinos, permanecendo na equipe por seis temporadas. Foi exemplo a John Terry e passou o bastão ao sucessor já na temporada 2003/04, a primeira sob a influência de Roman Abramovich.

Neste intervalo, Desailly continuou imprescindível à seleção francesa. Conquistou também a Eurocopa em 2000, titular em todos os jogos e novamente apontado para a seleção do torneio. Seria ele o substituto de Deschamps com a braçadeira, erguendo a taça na Copa das Confederações de 2001, antes da decepção no Mundial de 2002. Intocável no time, o veterano perderia espaço apenas na Euro 2004, vendo do banco a eliminação contra a Grécia nas quartas de final. Despediu-se dos Bleus com 116 partidas disputadas, a terceira maior marca da seleção, abaixo apenas de Lilian Thuram e Thierry Henry. Neste momento, já se encaminhava ao adeus. Os últimos atos aconteceram no Al-Gharafa e no Qatar SC, aposentando-se em 2006.

Mesmo depois da aposentadoria, Desailly continuou como um personagem querido. Famoso por seu sorriso franco e pelo bom humor, virou comentarista na televisão local. Também virou embaixador da Unicef e embaixador contra o racismo no governo francês. Caráter que se junta às boas lembranças pelo que fez em campo. Afinal, um gigante como o camisa 8 gravou seu lugar na história por todo o talento e por todas as conquistas. Sem dúvidas, uma lenda na França, na Itália e na Inglaterra. Um enorme exemplo.