Poucos músicos possuem uma trajetória tão aclamada quanto a de Elton John. O ‘sir’ chega aos 70 anos com mais de 160 milhões de discos vendidos, o quinto mais bem-sucedido da história neste aspecto. E entre tantos álbuns, hits e prêmios, o inglês também pode ser considerado o rock star que mais contribuiu ao futebol. Graças à paixão do Rocket Man, o Watford também se transformou em um foguete, ascendendo da quarta divisão à Copa da Uefa. O astro investiu no time de coração parte da fortuna conquistada com seu talento musical, assumindo a presidência dos Hornets em duas jornadas. De um mero figurante nas divisões inferiores, o clube se tornou uma das maiores sensações do Campeonato Inglês e teve a honra de jogar em Wembley, em final da Copa da Inglaterra. “Eu nunca quis existir sem Watford”, declarou, em 1982.

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A relação de Elton John com o Watford começa ainda na infância. O músico cresceu na região de Vicarage Road, aprendendo a torcer para a equipe que figurava, na época, entre a terceira e a quarta divisão do Inglês. Acompanhando seu pai, frequentava o estádio e idolatrava o centroavante Cliff Holton, um dos maiores ídolos da história do clube. E havia até mesmo uma relação sanguínea com o futebol. Roy Dwight, seu primo, era jogador profissional. O camisa 7 anotou o primeiro gol do Nottingham Forest na conquista da FA Cup de 1958/59, em jogo no qual teve que deixar o campo após fraturar a perna. O garoto assistiu a tudo pela televisão.

Através da música, Elton John chegou ao estrelato no final dos anos 1960. A partir de 1972, com o lançamento do álbum Honky Château, passou a frequentar o topo das paradas. E sua aproximação ao comando do Watford aconteceu meses depois. O cantor assumiu o cargo de vice-presidente, a princípio apenas figurativo. Em maio de 1974, realizou um show em Vicarage Road para arrecadar fundos ao clube. Cerca de 30 mil pessoas lotaram as arquibancadas para curtir o Rocket Man, fantasiado como um Zangão. Rod Stewart, outro rock star doente por futebol, e a banda Nazareth o acompanharam na apresentação. A ligação crescente fez os dirigentes perceberem que Elton John não estava ali apenas para se promover. Agregava também com os seus conhecimentos, seja sobre gestão ou sobre o próprio esporte. Pouco depois, ascendeu à diretoria dos Hornets.

Ao mesmo tempo em que contribuía ao Watford, Elton John se envolveu com a NASL, a liga americana, que vivia o seu ápice. O inglês se tornou um dos acionistas minoritários do Los Angeles Aztecs, que tentava repetir o impacto do New York Cosmos na costa oeste. Inclusive, chegou a participar de um treinamento com os atletas, dividindo os holofotes com George Best, principal contratação da franquia. Contudo, o ‘soccer’ não estava entre as prioridades do músico, pouco aparecendo nos bastidores dos Aztecs e vendendo sua parte após duas temporadas. Seus interesses todos se voltavam ao Watford. Em maio de 1976, enfim, o astro tirou dinheiro do próprio bolso para comprar os Hornets e, além de dono, assumiu o posto de presidente do clube de coração. Mesmo entre turnês e gravações, dedicava-se bastante à função. Em seus primeiros atos, declarou a intenção de levar o time à elite do Campeonato Inglês. Poderia parecer loucura naquele momento, mas o desejo se concretizaria em pouco tempo.

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Na primeira temporada sob as ordens de Elton John, o Watford teve um desempenho modesto. Frequentava a parte de cima da tabela na quarta divisão, mas sem disputar o acesso. Em abril de 1977, o presidente tomou a decisão que, no fim das contas, se provaria correstíssima: demitiu o técnico Mike Keen, à frente da equipe desde 1973. O favorito para ganhar a prancheta era Bobby Moore, que defendera o Fulham na temporada anterior. Os dois chegaram mesmo a um acordo, mas o dirigente desistiu no meio do caminho. Encontrou outro treinador, que, segundo a sugestão de Don Revie, então no comando da seleção inglesa, se encaixaria melhor no projeto. Graham Taylor, o homem que impulsionou a transformação em Vicarage Road.

“Eu era técnico do Lincoln City quando Don Revie me ligou dizendo que havia me recomendado a um novo dirigente. Estava imaginando qual grande clube era. Quando ele me disse que era Elton John, no Watford, eu desanimei. Eles estavam na última divisão. Eu pensei: ‘Um rock star responsável por um time da quarta divisão, isso é loucura!’. Mas Elton me convidou a sua casa e disse que queria levar a equipe às competições continentais”, contou Taylor, anos depois, ao Guardian. “Nós éramos próximos, quase como irmãos. Eu ajudei Elton porque, enquanto as pessoas ao seu redor nunca falavam a verdade, eu dizia a ele o que pensava. Nós entramos em um acordo que se ele não me falava qual time escalar, eu não diria a ele quais músicas cantar. Isso funcionou bem”.

O impacto de Graham Taylor no Watford foi imediato. Em suas duas primeiras temporadas, conquistou dois acessos. Em campo, os Hornets sustentavam um futebol simples e direto, mas bastante ofensivo. De certa maneira, era um resgate ao tradicional ‘kick and rush’. Além disso, o técnico era um entusiasta da aproximação com o público. Não era raro que ele promovesse eventos à comunidade dentro do próprio clube. Em alguns dias sem jogos, abria os portões de Vicarage Road para criar um clima de confraternização. Jogadores faziam apresentações “artísticas” para entreter os visitantes. Enquanto isso, o próprio gramado chegava a ser tomado por crianças, brincando em gincanas. Isso sem falar em sua capacidade no trato com as pessoas. Era um pai a tantos de seus comandados.

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Elton John, por sua vez, fomentava o sucesso de seu homem de confiança. Incentivava a política de portões abertos, ele mesmo sendo uma figura carismática o suficiente para ser associado a tal tipo de relacionamento. A liberdade era cultivada, de jeitos distintos. Mas o cartola também botava a mão nos bolsos para os investimentos, estimados em £790 mil nos sete primeiros anos. Com o dinheiro do músico, ótimo descobridor de talentos que era, Graham Taylor moldava um elenco jovem. Luther Blissett e John Barnes logo se tornaram fenômenos. Em sua quinta temporada em Vicarage Road, o técnico concretizou a promessa do presidente e colocou os Hornets na primeira divisão. E logo no ano de estreia na elite, o sucesso inimaginável, com o vice-campeonato nacional, que garantiu o time na Copa da Uefa. O Watford era uma verdadeira sensação, de futebol agradável de se ver e prezando pela simplicidade em sua organização, da base ao topo.

A temporada de 1983/84 foi um verdadeiro sonho a Elton John. O time não passou de um modesto 11° lugar no Campeonato Inglês, é verdade. Todavia, carimbou o seu passaporte nas competições continentais. Eliminou Kaiserslautern e Levski Sofia nas fases iniciais da Copa da Uefa, antes de ser eliminado pelo Sparta Praga nas oitavas de final. Já na Copa da Inglaterra, os Hornets foram superando etapa a etapa. Alcançaram a final em Wembley, diante do Everton de Howard Kendall. Orgulhoso por aquilo que ajudara a conquistar, o Rocket Man não segurou as lágrimas nas tribunas. A jornada havia sido inigualável. Infelizmente, terminou a decisão derrotado pelos Toffees por 2 a 0.

Graham Taylor permaneceu no comando do Watford até 1987, fazendo campanhas de meio de tabela no Campeonato Inglês. E a saída do treinador resultou também num afastamento gradual de Elton John de suas funções diretivas, sem ver a mesma magia nos bastidores do clube. Os Hornets acabaram rebaixados em 1987/88. Já em 1990, o músico vendeu suas ações. Tornou-se presidente honorário, posição que carregará pelo resto da vida.

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Entretanto, a relação de Elton John no Watford não seria mero decorativo. Em 1996, Graham Taylor reassumiu a equipe. E anunciou, um ano depois, que o astro voltara à cadeira presidencial. Pela segunda vez, o músico empregou o seu dinheiro para virar acionista majoritário do clube de coração. Naquele momento, os Hornets estavam na terceira divisão. O milagre do Rocket Man voltou a se repetir. Os “irmãos” lideraram a equipe a mais dois acessos entre 1998 e 1999, promovida à Premier League. A estadia na elite não durou mais do que uma temporada, com a queda em 1999/00. Ainda assim, valeu para levar novas alegrias a Vicarage Road. Glórias inesquecíveis.

Em 2001, Graham Taylor encerrou sua segunda passagem pelo Watford, substituído por Gianluca Vialli. Já no ano seguinte, Elton John abriria a mão da presidência, diante da rotina pesada como músico. “Com as grandes mudanças acontecendo no futebol, é necessário à diretoria ser liderada por um presidente que esteja apto a oferecer mais tempo ao clube. Estou certo que eles encontrarão a melhor pessoa”, declarou na época. Vendeu parte de suas ações, mas nunca o seu amor. Diante das dificuldades financeiras enfrentadas pelos Hornets anos depois, o astro fez dois shows em Vicarage Road para arrecadar fundos, assim como na década de 1970. Em 2005, após a hipoteca do estádio, o dinheiro levantado com a apresentação ajudou a comprar de volta a propriedade. Cinco anos depois, a bilheteria seria usada para a contratação de novos jogadores.

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Elton John, no entanto, perdeu um pouco de seu encantamento com o futebol.”O que me deixa tão ensandecido é que tanta gente ama o futebol, nos seus mais diferentes níveis, da Copa do Mundo aos campeonatos amadores, e ainda assim o tempo todo estão levando este esporte para longe do povo. Algumas pessoas dizem que os times menores não importam, mas elas não poderiam estar mais erradas. Você encontra o futebol que toca o coração por lá. Você vê o que realmente significa o esporte. Você vê o amor…”, declarou em 2010, durante entrevista ao Independent.

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Mas nem mesmo a visão crítica cessou o hábito de Elton John. Uma exigência básica em sua turnê é a instalação de uma televisão com todos os canais esportivos disponíveis, para seguir antenado com os resultados e relaxar vendo as partidas. Mesmo sem apreciar o atleticismo cada vez mais impregnado no jogo, ele assiste a um pouco de tudo. O astro só não frequenta tanto as arquibancadas. Segundo ele, a evolução tecnológica o atrapalha a se concentrar no campo. O motivo? O excesso de fãs pedindo para tirar fotos em seus celulares a cada instante.

Em 2014, Elton John recebeu a maior homenagem possível em Vicarage Road. Um dos setores nas arquibancadas foi batizado com seu nome. O músico esteve no gramado e dedicou um belíssimo discurso aos presentes, exaltando a importância dos torcedores. Ele mesmo, mais um entre milhares. O fanatismo é tão grande que o cantor chegou a ligar para Troy Deeney para agradecer pela vitória sobre o Arsenal na Copa da Inglaterra em 2015/16. Já no último mês de janeiro, manifestou seu profundo lamento. Graham Taylor, o parceiro da epopeia, faleceu aos 72 anos. “Para amar alguém, você precisa estar preparado para ser honesto e aberto. E Graham foi o homem mais aberto e honesto que eu já conheci. Por causa dele, tenho o Watford gravado na alma. Ele é uma lenda nesta comunidade e na vida”, escreveu, em carta de despedida. O treinador, afinal, foi capaz de concretizar todos os sonhos de infância do menino que cresceu frequentando Vicarage Road. Se hoje o Watford desfruta da estabilidade na Premier League, deve muito à paixão daquele pequeno aficionado.

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