Raras vezes a Argentina contou com um grupo de representantes tão seleto à Libertadores. Os quatro clubes que mais vezes conquistaram a competição continental estarão presentes na fase de grupos: Independiente, Boca Juniors, Estudiantes e River Plate. O Racing ergueu a taça há meio século e apenas uma vez, mas não pode ser menosprezado em termos de tradição e poderio. A estes, se junta o Atlético Tucumán, completando o sexteto – um concorrente que não tem o peso dos compatriotas, mas merece respeito especialmente após a campanha passada, impulsionada pelo fervor de sua torcida. Seis times qualificados para sonhar ao menos com os mata-matas. E que vêm com força para levar o troféu mais uma vez ao país, depois de duas temporadas em jejum.

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Em termos de possibilidades financeiras, o Campeonato Argentino ainda fica atrás do Brasileirão. Mas não se nega que a capacidade de investimento dos clubes tem crescido nos últimos tempos. Basta ver o peso das contratações realizadas ao longo deste início de ano, sobretudo pelos “quatro grandes” presentes na Libertadores. Racing e River Plate quebraram seus recordes de transferência mais cara. O Independiente realizou a segunda e a terceira maior transação de sua história. E se o Boca Juniors não quebrou a banca necessariamente nas negociações, engordou bastante sua folha salarial com a volta de Carlos Tevez. Apenas Estudiantes e Atlético Tucumán não gastaram tanto assim, com apostas mais modestas.

Além disso, o próprio momento do Campeonato Argentino contribui para que os times aumentem sua dedicação à Libertadores. O Boca Juniors é o líder absoluto, com nove pontos de vantagem em relação ao segundo colocado, o Talleres. Vai em busca daquela que permanece como sua maior obsessão, em seca que supera uma década. Entre os demais participantes do torneio continental, o Independiente é quem mais se aproxima na liga, mas já 14 pontos atrás, interessado apenas na classificação à próxima edição da Libertadores. Racing, Estudiantes e Atlético Tucumán também estão no páreo pelas competições continentais. Por fim, River Plate ocupa o medíocre 21° lugar e é o mais pressionado a dar uma resposta, considerando os questionamentos sobre Marcelo Gallardo.

E a própria fase de grupos será propícia a forjar o caráter daqueles que desejam o título. Exceção feita ao Atlético Tucumán, que possui o Peñarol como maior desafio, todos os outros argentinos estarão em chaves que podem ser minimamente consideradas “da morte”. Todos os cinco ex-campeões precisarão enfrentar equipes brasileiras na primeira rodada, além de se encontrarem com outras pedras no sapato em menor escala. Será a hora de fazer valer camisa e tradição, em meia à briga de foice que se desenha para os próximos meses.

Abaixo, traçamos um breve panorama sobre os cinco argentinos que cruzarão o caminho dos brasileiros, falando um pouco sobre os seus elencos, seus destaques individuais, seus técnicos e seus resultados recentes.

River Plate, adversário do Flamengo no Grupo 4

Nenhum outro clube argentino representou tão bem a veia copeira do país nas últimas temporadas. Com Marcelo Gallardo, os Millonarios conquistaram a Libertadores e a Copa Sul-Americana, ainda com outras boas campanhas continentais. Mas sabem também que estão devendo. Pela maneira como o time se reforçou para a reta final da campanha em 2017, a reviravolta diante do Lanús nas semifinais em 2017 gerou cobranças. E os resultados recentes não são exatamente animadores, apesar do título na Copa Argentina em dezembro. Pelo Campeonato Argentino, desde setembro, são apenas duas vitórias nas últimas 14 rodadas. O risco de rebaixamento ainda está distante pelo promédio, mas a situação modesta não condiz nem um pouco com o investimento.

A boa notícia para os torcedores é que o River Plate possui armas suficientes para a guinada. O elenco, que já era qualificado, ganhou excelentes adições. Franco Armani decidiu uma Libertadores, Lucas Pratto era sonho de consumo do clube há tempos, Juan Fernando Quintero tem potencial para se firmar, Bruno Zuculini é um motor para o meio-campo. Além disso, há outros medalhões remanescentes de outras campanhas – a exemplo de Ignacio Scocco, Leo Ponzio, Pity Martínez, Enzo Pérez, Rodrigo Mora e Javier Pinola. O problema é dar liga ao time, o que não se vê nos últimos compromissos, sem titulares definidos. Mas se há alguém capaz dessa montagem, este é Gallardo, por tudo o que construiu desde que retornou ao Monumental de Núñez.

Racing, adversário de Cruzeiro e Vasco no Grupo 5

Em quantidade, o Racing foi o time que mais se movimentou nesta virada de ano. Para o comando técnico, trouxe Eduardo Coudet, responsável por grandes campanhas à frente do Rosario Central, e que havia trabalhado antes no Tijuana. Um comandante de mentalidade agressiva, que ganhou novas peças para reerguer a Academia. O negócio mais caro foi o retorno de Ricardo Centurión, antigo ídolo do clube que deixou uma ótima impressão quando defendeu o Boca Juniors, mas não vinha bem na Itália. Além disso, todos os setores se reforçaram. A defesa ganhou Alejandro Donatti e Leonardo Sigali, enquanto o meio foi acrescido com a experiência de Nery Domínguez e Neri Cardozo. Já no ataque, o prata da casa Lautaro Martínez ganha os louros, pelas atuações retumbantes que fazem crescer os clamores sobre sua convocação à seleção. Tem a companhia ainda do veterano Lisandro López.

Fato é que a campanha do Racing no Campeonato Argentino, que não era tão boa assim, ganhou um impulso. Já são quatro vitórias consecutivas, que colocam os albicelestes na cola do rival Independiente e na luta pela zona de classificação à Libertadores 2019. Mas antes de pensar no futuro, os racinguistas pretendem mostrar suas credenciais no torneio continental desde já. Será uma grande oportunidade principalmente a Lautaro Martínez, se quiser uma chance rumo à Copa do Mundo, bem como para oferecer um agrado à torcida em seu último semestre no Cilindro, vendido à Internazionale para a próxima temporada. Pelas possibilidades do elenco que Coudet tem em mãos, é possível pensar alto. Serão bom testes em jogos grandes nesta fase de grupos.

Estudiantes, adversário do Santos no Grupo 6

Dentre os argentinos de camisas pesadas nesta Libertadores, o Estudiantes é o que menos possui badalação ao seu redor. Afinal, a impressão deixada nas competições continentais em 2017 não tinha sido muito boa, com a eliminação em sua chave na Libertadores e a queda para o Nacional na Sul-Americana. Ao menos o Campeonato Argentino passado teve alguma valia, com a terceira posição recolocando os pincharratas no principal palco do continente. Na atual temporada, porém, o desempenho é apenas regular. Os alvirrubros ocupam a décima colocação, alcançada com a recuperação nos últimos meses. Antigo ídolo de Newell’s e Monaco, Lucas Bernardi assumiu a equipe em setembro, naquele que pode ser considerado o maior desafio na recém-iniciada trajetória como treinador.

Em campo, é possível ver alguns dos velhos bastiões do Estudiantes. Mario Andújar, Leandro Desábato, Rodrigo Braña, Mariano Pavone e Gastón Fernández continuam compondo o plantel, alguns deles titulares. Mas há também uma mescla aí, que inclui outros jogadores interessantes como Fernando Zuqui e promessas do nível de Lucas Rodríguez. Todavia, ainda é um time em desenvolvimento, que não tem o nível de investimento dos principais vizinhos e nem impressiona no papel, apesar das melhoras recentes. Entre as movimentações no mercado, destaque para a contratação em definitivo do colombiano Juan Ferney Otero, protagonista dos pincharratas neste início de ano. Além dele, outro cafetero a chegar foi Andrés Escobar, que disputou o último Brasileirão pelo Vasco.

Independiente, adversário do Corinthians no Grupo 7

O Independiente recobrou sua grandeza continental nos últimos meses. Conquistou a Copa Sul-Americana e retorna à fase de grupos da Libertadores após sete anos – e com chances reais de ir além na competição que marca a sua história. O time de Ariel Holan, aliás, é velho conhecido dos brasileiros. Derrotou o Flamengo na decisão da Sul-Americana e tornou a vida do Grêmio difícil na Recopa. E a permanência do treinador surge como um dos grandes trunfos do Rojo para a sequência do trabalho. As ameaças feitas pelos barra bravas ao comandante o levaram à renúncia, mas mudaria de ideia dias depois. Melhor para os alvirrubros, que podem seguir esperando um time com muitas variações, que sabe se adaptar às condições de jogo e se movimenta bastante – apesar de exagerar na força algumas vezes, como os gremistas bem sentiram.

As vendas de Ezequiel Barco e Nicolás Tagliafico, obviamente, são golpes duros. O craque e o capitão do último título foram embora. Mas o Independiente também soube reinvestir o dinheiro. Destaque para Fernando Gaibor, meio-campista de capacidade na organização que passou anos como protagonista do Emelec; e para Silvio Romero, centro-avante que despontou no Lanús e estava no América do México. No mais, a espinha dorsal permanece a mesma. Martín Campaña é um goleiraço, que pode fazer a diferença na Libertadores. O meio está bem servido com Nicolás Domingo e Maximiliano Meza, além de contar com Jonás Gutiérrez, que não havia sido inscrito na Sul-Americana. Já na frente, Emanuel Gigliotti e Leandro Fernández são os nomes a se prestar atenção. Há boas possibilidades de registrarem a melhor campanha do Rojo na Libertadores neste século.

Boca Juniors, adversário do Palmeiras no Grupo 8

Sem dúvidas, o Boca Juniors é o competidor mais qualificado entre os argentinos nesta Libertadores. E não apenas por questões de camisa, caldeirão ou tradição. O trabalho feito por Guillermo Barros Schelotto à frente dos xeneizes é ótimo. O começo teve seus momentos ruins, especialmente com a queda para o Independiente del Valle nas semifinais da Libertadores de 2016. Mas, ausente da edição seguinte do torneio continental, o antigo ídolo recuperou o moral. Conquistou o último Campeonato Argentino com autoridade e deve fazer o mesmo na atual campanha, dada a tranquilidade desfrutada na primeira colocação. Agora, a frente continental se torna a principal ambição. Dependerá mesmo de grande esforço, considerando a concorrência pesada com Junior de Barranquilla e Palmeiras, talvez a mais forte pelas duas vagas nas oitavas de final.

O Boca conta com um time equilibrado, entre uma defesa que sofre poucos gols e um ataque com boa média de tentos anotados. Não à toa, lidera os dois quesitos no Campeonato Argentino, com apenas duas derrotas nas 17 rodadas. Paolo Goltz, Frank Fabra e Pablo Pérez são alguns dos homens de confiança. Destaca-se também o trio internacional formado por Wilmar Barrios, Nahitan Nández e Edwin Cardona – entre a proteção dedicada, a coesão na ligação e a qualidade na armação. Já na frente, dentro das opções, é até difícil escalar os titulares. Darío Benedetto seguia em grande fase, mas se lesionou e deve se tornar reforço apenas na possível reta final. Carlos Tevez retornou para assumir o protagonismo, e tem demonstrado seu oportunismo neste reinício. Há ainda o habilidoso Cristian Pavón, talento inegável, além de alternativas como Walter Bou e Ramón Ábila. Cartas na manga que valem para manter o ritmo forte nas duas frentes.