Comores é um pequeno arquipélago no Oceano Índico, próximo à costa oriental da África, localizado entre Moçambique e Madagascar. Parte do Império Francês, conquistou a independência em 1975, e atravessa uma história conturbada desde então, entre a enorme desigualdade social e os 20 golpes de estado realizados nestes 43 anos. Mais da metade dos 795 mil habitantes vivem abaixo da linha da pobreza. E como é de se imaginar, o desenvolvimento do futebol é irrisório entre os comorenses. A seleção surgiu em 1979 e conquistou nove vitórias desde então. Desde 2015, porém, os resultados tem melhorado, recrutando descendentes de comorenses nascidos na França. Os nanicos chegaram a segurar um empate contra Gana nas Eliminatórias da Copa de 2018, além de se igualarem também em amistosos contra Togo e Gabão em 2016. Já neste sábado, Comores anotou aquele que pode ser considerado um dos gols mais importantes de sua história. Mas o que significa muito aos azarões também pode ser visto como um vexame a Camarões. Na estreia de Clarence Seedorf à frente dos Leões Indomáveis, ele empatou por 1 a 1 contra os Celacantos.

Costumeiro saco de pancadas, Comores dificultou a vida de Gana em 2015. Na última etapa qualificatória antes da fase de grupos das Eliminatórias da Copa de 2018, os Celacantos seguraram o empate sem gols e perderam apenas por 2 a 0 na visita aos Estrelas Negras. Já no classificatório para a Copa Africana de 2017, os nanicos conquistaram sua primeira vitória no torneio, ao baterem Botsuana. Seguem como zebras rumo à CAN 2019, ainda mais considerando que seu grupo dá apenas uma vaga, como Camarões está automaticamente classificado por ser a sede. Ainda assim, o empate deste sábado vale demais.

Embora o elenco se concentre na liga local, Comores conta com vários jogadores em campeonatos profissionais na Europa. Em relação óbvia pelo colonialismo, a Ligue 1 possui o maior número de convocados, enquanto há também atletas atuando na Holanda, na Bélgica, na Suécia, na Romênia e na Sérvia. A principal referência do time é El Fardou Ben Nabouhane, que se transferiu ao Estrela Vermelha nesta temporada e se tornou herói da classificação inédita do clube à fase de grupos da Liga dos Campeões. O goleiro Ali Ahamada, o meio-campista Rafidine Abdullah e o atacante Djamel Bakar, todos com passagens pelas seleções de base da França, são outros nomes experimentados.

Pois a “geração dourada” causa uma empolgação natural da torcida comorense. Mesmo com uma estrutura modesta, para apenas 2 mil espectadores, o Estádio Said Mohamed Cheikh se abarrotou para o confronto com Camarões – sobretudo com gente amontoada atrás dos gols. E as arquibancadas certamente estremeceram quando Ben Nabouhane abriu o placar para Comores, aos 15 minutos. A seleção camaronesa vinha com seus principais jogadores à disposição de Seedorf, o que não impediu os Leões Indomáveis de sofrerem. Além de imporem uma grande pressão inicial, os Celacantos ainda dominaram o jogo durante a parte do primeiro tempo, enquanto levaram perigo através dos contra-ataques na etapa complementar. O empate de Camarões só sairia aos 31 do segundo tempo, graças a Stéphane Bahoken, que aproveitou um erro da defesa para evitar o vexame dos visitantes. Ainda assim, já era um excelente resultado aos nanicos.

Com Camarões classificado, a briga de Comores se concentra contra Marrocos e Malawi, mas parece difícil imaginar que os Celacantos irão conseguir peitar a melhor seleção africana da Copa de 2018. Resta tentar atrapalhar e, com um pouco mais de sorte nos chaveamentos, buscar outra surpresa nos próximos anos. A adição dos descendentes de comorenses nascidos na França, sobretudo, indica a evolução do pequeno arquipélago. Nada menos que 14 convocados do atual elenco são filhos ou netos de comorenses que nasceram no território francês.

E se serve de consolo a Seedorf, Camarões não foi a única seleção grande da África a dar vexame neste sábado pelas eliminatórias da CAN 2019. Em Kasarani, Quênia derrotou Gana por 1 a 0, graças a um gol contra. As Estrelas de Harambee não vão à fase final da Copa Africana desde 2004. De qualquer maneira, o velho craque holandês já percebeu o tamanho de seu desafio. Será necessário um trabalho consistente para aproveitar uma geração deficiente, que já havia superado as expectativas ao faturar a CAN 2017. Como anfitriões, a responsabilidade aumenta.