Não foi só no Brasil que se esperavam reações de um jogador em particular após a campanha na Copa do Mundo. Na Alemanha, Mesut Özil também foi protagonista do que se falou sobre a vexatória campanha da Mannschaft – tanto pelo que (não) mostrou em campo, quanto pela polêmica foto tirada com o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, e o meio-campista Ilkay Gündogan. Foi justamente por esse último motivo que Özil apareceu neste domingo, divulgando uma carta aberta em seus perfis nas mídias sociais. E na “reflexão” feita, o meio-campista não só anunciou o fim de sua passagem pela seleção da Alemanha, como criticou a reação à foto – e não só a reação da imprensa alemã.

Na primeira parte da carta, o meia criticou fortemente a oposição de vários alemães à foto. Contrabalançou as críticas com seu histórico familiar: “Cresci na Alemanha, mas meu ambiente familiar tem raízes firmemente baseadas na Turquia. Tenho dois corações, um alemão e outro turco. Durante minha infância, minha mãe sempre me ensinou a sempre respeitar e nunca esquecer o lugar de onde vim”. E continuou com a descrição do encontro com Erdogan: “Em maio, encontrei o premiê Erdogan em Londres, após um evento de caridade. (…) Estou certo de que a nossa foto causou grande reação na Alemanha, e embora algumas pessoas tenham me acusado de ser mentiroso ou ser maldoso, a foto que tiramos não tinha intenções políticas”.

A partir daí, Özil partiu para as críticas à imprensa: “Embora a imprensa alemã tenha retratado algo diferente, a verdade é que não encontrar o presidente teria sido desrespeitar as raízes de meus antecessores, que eu sei que se orgulhariam de onde estou hoje. Para mim, não interessava quem era o presidente, interessava que era o presidente. Fosse o presidente turco ou o alemão, minhas ações não teriam sido diferentes. Sei que pode ser difícil entender isso, já que em muitos países o líder político não pode ser pensado como algo dissociado da pessoa. Mas nesse caso, é diferente. Qualquer que fosse o resultado desta eleição, ou da passada, eu ainda teria tirado a foto”.

As críticas continuaram: “Alguns jornais alemães usaram meu histórico e minha foto com o presidente Erdogan como propaganda de direita para impulsionar a causa deles. Por que mais usariam minhas fotos e manchetes com o meu nome como uma explicação direta para a derrota na Rússia? Não criticaram minhas atuações, não criticaram as atuações do time, só criticaram minha ascendência turca e a relação com minha educação. Isso cruzou uma linha pessoal que não deveria ser cruzada”.

Finalmente, as críticas se endereçaram a outros aspectos da mídia. “O que também me desaponta são os dúbios padrões que a mídia tem. Lothar Matthäus (capitão honorário da seleção alemã) se encontrou com um líder mundial, alguns dias atrás, e quase não recebeu críticas da imprensa. A despeito do papel dele na DFB, não pediram que ele explicasse publicamente suas ações, e ele continuou representando os jogadores alemães sem restrições. Se a imprensa achou que eu deveria ter ficado fora da convocação para a Copa, então ele deveria ter sua capitania honorária retirada?”

Finalmente, vieram as críticas a alguns patrocinadores que romperam com o jogador. “Sempre achei que parcerias significavam apoio, para as horas boas e ruins. Recentemente, planejei visitar a Berger-Feld, escola onde estudei anteriormente em Gelsenkirchen, junto a dois de meus parceiros de caridade. Fundei um projeto, por um ano, no qual crianças imigrantes, crianças de famílias pobres e outras crianças poderiam jogar futebol juntas e aprender regras de comportamento. No entanto, dias antes da visita, eu fui abandonado por meus chamados “parceiros”, que não queriam trabalhar comigo desta vez. Além disso, a escola disse ao meu agente que não queriam que eu estivesse lá desta vez, porque temiam a ‘reação da mídia’ após minha foto com Erdogan, especialmente com ‘o crescimento do partido de direita em Gelsenkirchen’. Com toda a honestidade, isso dói”.

ATUALIZAÇÃO (às 15h10 de Brasília)

O teor crítico continuou na última parte da carta, na qual a federação recebeu o maior teor das críticas. Mais precisamente, o seu presidente, Reinhard Grindel: “O assunto que mais me chateou ao longo dos últimos meses foi a falta de consideração da DFB, na pessoa de seu presidente. Depois da foto com Erdogan, fui chamado por Joachim Löw, que me pediu para interromper as férias e ir a Berlim para dar uma explicação, encerrar os boatos e deixar tudo claro. Eu tentei explicar a Grindel minhas heranças, minha ancestralidade e, portanto, as minhas razões por trás da foto, mas ele estava mais preocupado em apregoar sua visão política e ignorar minha opinião”.

Özil ainda detalhou outro encontro: “Eu também fui procurado por Frank-Walter Steinmeier, presidente da Alemanha. Ao contrário de Grindel, ele foi profissional, e estava interessado no que eu tinha a dizer sobre minha família, minhas heranças e minhas decisões. Eu me lembro que o encontro foi só entre mim, Ilkay [Gündogan] e Steinmeier, com Grindel se irritando por não ter sido permitida a sua entrada, para impor os assuntos políticos que desejava. Concordei com Steinmeier em divulgar uma nota em conjunto sobre o assunto [a foto], em outra tentativa de seguir em frente e focar no futebol. Mas Grindel ficou irritado, porque não foi a equipe dele que divulgou a nota – irritado pelo fato da assessoria de Steinmeier ter tomado a frente no assunto”.

As críticas ao mandatário da federação alemã seguiram: “Desde o fim da Copa, Grindel ficou sob muita pressão, por causa de suas decisões antes do torneio, e acho certo que isso ocorra. Recentemente, ele disse que eu deveria explicar novamente minhas ações e me culpou novamente pelos maus resultados, a despeito de ter me dito em Berlim que tudo estava acabado [sobre a foto]. Não estou fazendo isso [divulgando uma carta] por Grindel, mas porque eu quero. Não serei mais um bode expiatório por sua incompetência e incapacidade de fazer seu trabalho direito. (…) Para Grindel e seus correligionários, eu sou alemão quando ganhamos, e um imigrante quando perdemos. Porque, a despeito de pagar impostos na Alemanha, doar equipamentos a escolas alemãs e ganhar a Copa de 2014 com a Alemanha, não sou aceito na sociedade, ainda”.

Finalmente, a decisão de abandonar o Nationalelf: “As opiniões de Grindel podem ser encontradas por aí, também. Bernd Holzhauer (um político alemão) me chamou de ‘fodedor de cabras’ por minha foto com Erdogan e por minha ascendência turca. Além disso, Werner Steer (chefe do Teatro Alemão) me mandou ‘ficar puto na Anatólia’, um lugar na Turquia, no qual muitos imigrantes vivem (…) Para você, Reinhard Grindel, estou chateado, mas não surpreso por suas ações. Em 2004, quando você era um membro do Parlamento alemão, você disse que ‘na realidade, o multiculturalismo é um mito, uma mentira que dura a vida toda’, quando votou contra as leis para cidadãos de dupla nacionalidade e punições por suborno, bem como disse que a cultura islâmica havia se tornado enraizada demais em muitas cidades alemãs. Isso é imperdoável e inesquecível. O tratamento que recebi da DFB e de muitos outros me faz não querer mais vestir a camisa da seleção da Alemanha. Eu me sinto indesejado, e acho que tudo o que consegui desde minha estreia em 2009 foi esquecido”.

Assim, após nove anos, 92 jogos, 18 gols, três Copas do Mundo e duas Eurocopas, está encerrada a passagem de Mesut Özil pela seleção da Alemanha. Sendo mais um capítulo na crise da federação que a eliminação historicamente vexaminosa descortinou.