Paulinho vive um momento de sonho em sua carreira. Titular absoluto da Seleção, transformou-se em um dos pilares da ótima sequência sob as ordens de Tite, mesmo com todas as desconfianças que carregava. E mesmo com todas as desconfianças que carregava, também vem causando impacto em seus primeiros meses no Barcelona. Não é titular absoluto, mas demonstra a sua importância à rotação, anotando gols e se doando ao máximo dentro de campo. Desfruta de todo o moral junto aos companheiros. Mais do que isso, começa a cair nas graças dos torcedores que antes torciam o nariz por aquilo que poderia fazer no Camp Nou.

Nesta sexta, o meio-campista deu uma longa entrevista ao jornal catalão El Periódico. Falou sobre toda a sua trajetória no futebol, desde os primórdios no futsal até a ascensão ao Barça. E, em todas as palavras, deixa transparecer a força mental que rege a sua carreira. Fica mais fácil entender as tantas voltas por cima que deu para chegar no patamar atual e por que não vai se abalar com qualquer crítica. Abaixo, traduzimos em tópicos:

Os primórdios

Comecei aos cinco anos. Jogava futebol de salão em uma equipe de bairro até que fui à Portuguesa, também no futebol de salão. Fiquei ali até os 11 ou 12 anos, ainda que ia alternando com os gramados. Logo saí ao Pão de Açúcar, um clube que agora se chama Audax. Meus pais me acompanharam sempre. Se tinham que trabalhar mais horas para que eu pudesse seguir jogando, eles faziam. O futuro era uma incógnita. Jogava futebol porque amava o futebol. Não sabia o que seria de mim, mas seguia igual.

A saída para a Lituânia

Foi em 2006, tinha 16 anos. Estava jogando no Pão de Açúcar, no meio-campo. Em toda a minha vida fui meio-campista. Às vezes, um pouco mais defensivo, mas sempre com com vocação para ir ao ataque. Era uma grande oportunidade. Era uma criança, um menino. Naquela equipe de Vilnius havia mais brasileiros. Eles estavam a mais tempo, estavam adaptados. Para mim era tudo novo, uma verdadeira aventura. Ainda assim, sendo tão jovem como era, entendia que devia ir. Era uma boa forma de ajudar economicamente os meus pais. Não é que passávamos fome, nunca, porque eles sempre trabalharam muito. Meu pai esteve 30 anos na prefeitura de São Paulo e eu quis, quando já era profissional, que se aposentasse antes, mas ele não fez isso porque amava seu trabalho. Minha mãe era gerente de supermercados e também de colégios. Mas queria ajudar, porque havia uma diferença muito grande entre o que me pagavam no Brasil e o que me ofereciam na Lituânia.

Eu era muito jovem. Queria sair do meu país, queria jogar, queria experimentar coisas novas. Mas nunca me transferi por dinheiro. Nunca coloquei isso em primeiro lugar, tampouco então, por mais jovem que fosse. Ao final, entre Lituânia e Polônia, estive três anos e meio fora de casa. Cheguei em Vilnius. Vivia com um jogador brasileiro, mas você não deixa de estar sozinho. Deixou sua família, teus amigos, tudo o que tinha em São Paulo. Foram sete ou oito meses duros. Logo veio minha namorada e me transferi para a Polônia depois de vários episódios de racismo.

Eu estava me adaptando à rotina da equipe. O time tinha oito brasileiros, a cidade tem tudo. Tudo ia bem, até que chegaram os episódios de racismo. O que me diziam? O habitual nestes casos, já sabem. Aquilo me marcou para sempre. Não apenas comigo, mas também com meus companheiros. Sofri muito com o racismo. Quando saí para a Polônia, me fiz uma promessa: “Se acontece algo similar, volto imediatamente para o Brasil’. É inaceitável que hoje em dia aconteçam estas coisas. Só peço respeito às pessoas, nada mais. Respeito para todos, como eu respeito os demais.

Tenho um espírito, um caráter e uma dignidade… Tenho uma personalidade muito forte. Por isso, quando tomo uma decisão, dificilmente mudo de ideia. Sou assim. Nunca volto atrás em minhas convicções, ainda que, afortunadamente, não voltei a sofrer mais na Polônia. Ali me respeitaram muito, mas não me esquecerei destes episódios na Lituânia.

Paulinho comemora gol pelo Brasil (Foto: Pedro Martins/Mowa Press)

A volta ao Brasil

Claro. Às vezes me perguntava: “Por que estou aqui? O que faço aqui? Eu preciso disso?”. Estava sozinho, não tinha meus pais, meu irmão mais velho e pensava em voltar. Essa experiência me fez amadurecer muito mais rápido. Na Polônia, os problemas foram outros. O clube não cumpriu o prometido e, então, decidi voltar. Esperei o final do meu contrato. Qualquer outro, ao ver que não pagavam, teria ido no meio da temporada. Eu não. Fiquei até o último dia.

Voltei, mas com uma ideia muito clara: “Não volto mais a jogar futebol, nunca mais!”. Por que? Vivi situações na Polônia que me deixaram desenganado. Sou uma pessoa que sempre quis ter uma vida tranquila e simples. Em todo momento, lutei por meus direitos. Eu cumpria isso na Polônia, eles não. Por isso, ao chegar no Brasil, não queria saber de futebol. O Pão de Açúcar queria que eu voltasse para lá. Nem Polônia, nem Pão de Açúcar. Nada. Eu deixo e pronto. Não tenho o porquê de passar estas coisas, não necessito. Tenho pais maravilhosos, tive de tudo, não passei dificuldades com eles. Ou seja, não sigo.

A mudança de ideia

Eu acabei jogando porque tinha uma filha recém-nascida, a primeira. À minha ex-mulher, dizia o mesmo que aos demais: “Não jogo mais futebol!”. Mas ela replicou: “Se não vai mais, o que vai fazer? O que você sabe fazer além disso? Se há uma coisa que você sabe fazer bem é jogar futebol”. Meus pais também insistiam. Todos insistiam. E eu? Ficava na minha. Não jogo. Até que a minha mulher disse que era uma falta de respeito a tudo que meus pais tinham lutado, pelas vezes que tinham me acompanhado… “Vai se esquecer do que fizeram por você desde que tinha cinco anos?”.

Sim, se passaram umas semanas até que me convenceram. Estava em São Paulo, sem sair, sem treinar. Não fazia nada. Um gerente do Pão de Açúcar me chamou para me convencer. E eu respondia que não, que não queria jogar mais. Além do mais, havia uma diferença grande entre o que eu cobrava na Polônia e o que me podia oferecer o Pão de Açúcar. Mas não era um problema de dinheiro. Ao final, com minha filha recém-nascida, com os conselhos da minha mãe e da minha ex-mulher, voltei. Só pedi a eles uma casa para viver com minha mulher e minha filha. Eu não podia voltar a morar com meus pais, porque precisava formar um novo lar e assumir minha responsabilidade como pai. Alugaram um apartamento para nós.

Voltei para as divisões inferiores. Minha mentalidade foi melhorando e voltei a desfrutar do futebol. Subimos à terceira divisão e, no ano seguinte, à segunda. É curioso, mas nunca tinha jogado como profissional no Brasil. Minha base, além dos primeiros anos na Portuguesa e mais dois no Pão de Açúcar foram em Vilnius. Ali segui minha carreira neste momento tão delicado de formação. Aprendi tanto fora quanto dentro de campo. Passei muitas coisas nesta vida, muitas que tomara que outros jogadores não passem nunca. Minha vida foi uma montanha-russa. Fora de campo. Dentro, não, ali sempre é o mesmo. Ali é tudo mais fácil, aproveita, se diverte, passa bem.

Paulinho, do Corinthians, em jogo contra o Al Ahly (Foto: AFP PHOTO / TOSHIFUMI KITAMURA)

A transferência ao Corinthians

Sempre aconteceu algo similar em todos os clubes. Muita gente falava de mim, das minhas condições, do meu jogo e você descobre que as pessoas falam sem saber. Antes era muito difícil de entender os comentários de pessoas que me maltratavam sem saber de mim, da minha história, da minha família, do que eu vivi, do que sofri. Aconteceu no Corinthians e agora aqui. Também fui criticado quando saí do Bragantino. Nunca escutei e nem me deixei abater por isso. Só quis trabalhar para dar o melhor à minha família. Não podia ter nada, mas se eles estão bem já é o suficiente.

Tite me deu a oportunidade de ser campeão de tudo. Tenho uma grande conexão com ele, me ajudou muito. Por exemplo, em 2011. Tinha algumas ofertas, estava chegando ao CT quando meu empresário me ligou: “Você tem uma oferta do Inter, mas deve se decidir hoje mesmo, em cinco minutos”. Entrei no vestiário chorando e Ralf me perguntou o que acontecia. Expliquei e fui falar com Tite. Ele foi muito sincero comigo. “A decisão é sua, eu não creio que seja o momento de sair, mas é você quem decide”. Voltei ao vestiário, com lágrimas nos olhos, e pensei: “Eu fico”. Então, me vesti rapidamente para sair e treinar. Quando fui ao gramado, fiz um sinal de positivo ao Tite. Era o sinal de que seguiria no Corinthians. Tomei a decisão em cinco minutos e não me arrependi de nada. Bem ao contrário: ganhamos todos os títulos e prolonguei a bonita história com o Corinthians.

A chegada ao Tottenham

Em 2013, recebi duas ofertas: Roma e Tottenham. Já tinha feito tudo no Brasil. Fui à Inglaterra porque Villas-Boas, o treinador, me queria muito. No primeiro ano, fui bem. Meu estilo de jogo se encaixava no futebol inglês. Mas, ao voltar do trauma da Copa do Mundo, daquele 7 a 1 contra a Alemanha, tudo foi pior. Estive os últimos seis meses sem jogar. Senti que era o momento de sair.

Paulinho comemora gol pelo Guangzhou: camisa 8 é destaque

A mudança à China

Sabia que, ao ir à China, desapareceria do mundo. Mas eu necessitava jogar, aonde fosse seria igual para mim. Tenho que agradecer o Felipão pela confiança que teve em mim. Sabia que ia a um futebol pouco visto e que seria difícil voltar à Seleção. Eu só queria jogar. Nesse momento, pensei só em mim. Não fugia da Inglaterra, só buscava renascer como jogador. Ali construí uma história muito bonita, ganhando seis títulos e recebendo, sobretudo, o carinho do torcedor chinês.

O Barcelona

Era uma oportunidade única. Fui muito claro com Felipão: “Outra equipe como o Barcelona não vai vir à China atrás de mim. Ou saio agora ou nunca mais. Isso só acontece uma vez”. Ele entendeu, sabia que seria uma injustiça se o clube não me deixasse sair ao Barça. Parecia que o negócio não ia acontecer, mas finalmente se concretizou no último dia do mercado chinês.

Por mais dificuldades que passei, não deixei nunca de ter foco. Isso é uma força mental, que aprendi em todas essas experiências de vida. Minha vida sempre foi um desafio. E o futebol, sem desafios, não é futebol. Eu procurei lidar da melhor maneira possível, transparente, respeitando os espaços dos demais, mas com meu foco inalterado.

Antes dos contatos oficiais, já tinha uma pista sobre o Barcelona. Foi no amistoso em que jogamos contra a Argentina, em junho. Estava preparado para bater uma falta com Willian e outro jogador que não me lembro. De repente, vem Messi, se aproximando pouco a pouco, e me disse: “Vamos para o Barcelona ou não?”. Ele me disse pouco antes de bater a falta. Eu respondi: “Se quer me levar, pode me levar. Eu vou”. Fiquei tão nervoso que disse ao Willian: “Você bate a falta!”. Depois do jogo, pude trocar a camisa com ele. Não me deixou bater a falta, mas agora estou aqui.