A quem vê de fora, o comunicado da Fifa pode parecer uma bomba, mas não é nada inesperado aos acostumados com os bastidores do futebol no Uruguai. A entidade internacional anunciou nesta terça-feira sua intervenção na Associação Uruguaia de Futebol (AUF), diante dos entraves ocorridos nas eleições presidenciais da federação. Segundo a Fifa, “o processo eleitoral para ocupar o cargo de presidente da AUF não cumpriu os requisitos de transparência”. Assim, pelos próximos seis meses, uma comissão normalizadora irá dirigir a AUF, até que se realizem novas eleições. Disputa que expõe os meandros do esporte local e que tende a reorganizar o jogo de forças – inclusive, com os próprios jogadores ganhando voz, muito graças à ação dos astros da seleção.

A cronologia dos problemas na AUF teve um episódio decisivo em 30 de julho. Um dia antes das eleições presidenciais, o então mandatário da entidade renunciou ao seu cargo, assim como à candidatura pela reeleição. Wilmar Valdez optou por abandonar o posto, segundo suas palavras, “por motivos pessoais”. Contudo, dias antes de seu anúncio, veio a público um áudio de 2016, em que criticava um membro do governo uruguaio. Valdez vinha perdendo poder entre os clubes da elite e também recebia acusações de desvio do dinheiro da federação. Posteriormente, o vazamento da gravação desencadeou uma denúncia de fraude na licitação sobre o sistema de segurança do Estádio Centenario.

Sem Valdez, restavam dois candidatos à presidência da AUF. A Conmebol, que não aprovou o exame de idoneidade feito por ambos os candidatos, recomendou que as eleições fossem postergadas. Além disso, a Mutual, organização que representa os jogadores do país, também pediu que o processo fosse interrompido. As eleições aconteceram, mas com uma quantidade de votos em branco que não permitiram a escolha de um dos concorrentes e acabou adiando o pleito para 21 de agosto.

Simultaneamente, a AUF vinha sendo pressionada pela Fifa. A entidade internacional pedia que a federação aprovasse o seu novo estatuto. O tema vinha sendo postergado pelos clubes da primeira divisão desde 2013. A Fifa exige uma revisão no equilíbrio de forças dentro da AUF, que mantém o poder entre as equipes da primeira divisão. Com as mudanças, outros grupos ganhariam maior representatividade nas decisões da federação. Diante do imbróglio nas eleições presidenciais, os presidentes dos times da primeira divisão também manobravam para evitar as alterações. Em resposta, a Fifa enviou uma carta afirmando que poderia intervir, caso o novo estatuto não fosse aprovado até dezembro de 2018.

O intervalo entre uma eleição e outra

As três semanas de espera pela retomada das eleições permitiram que diferentes peças se movimentassem no xadrez político da AUF. A associação de árbitros se aproximou da Mutual e cogitou a possibilidade de uma greve, para aumentar não apenas a representatividade da categoria, como também garantir melhores condições de trabalho. Da mesma maneira, os jogadores também se abriam a uma paralisação, em uma briga por direitos de imagem mais justos que dura meses. Os clubes da primeira divisão se mostravam insatisfeitos pela representatividade que os jogadores da seleção ganhavam, sobretudo pelo prêmio que receberam pela participação na Copa do Mundo. Os clubes do interior reclamavam da falta de voz, excluídos por estatuto de processos de votação que se entendessem como “limitados ao profissionalismo”. E havia a incerteza sobre o futuro da própria Celeste, após o término de contrato de Óscar Tabárez com o fim da Copa do Mundo.

Neste jogo por mais força, outro ator fundamental é a Tenfield. A companhia pertence a Paco Casal, empresário que passou a controlar o futebol uruguaio a partir dos anos 1980, como agente de diversos jogadores notáveis (Enzo Francescoli puxando a fila) e também dono de clubes-empresa. A Tenfield é a responsável pelos direitos televisivos do Campeonato Uruguaio, assim como pela negociação de direitos da seleção. Enquanto a aliança com Casal é útil a diversos clubes de elite, ela causa atritos sobretudo com os atletas – os principais da seleção, já não mais agenciados por ele. Nos últimos meses, os astros da Celeste travaram uma disputa com o todo-poderoso por seus direitos na equipe nacional e por melhores contratos à federação, se afastando da rede de influências do empresário. Assim, as relações dos candidatos com Casal se tornaram também um tema chave nas eleições.

No meio deste cenário estava Edgar Welker, presidente interino da AUF. Ele foi o responsável por se reunir com jogadores e árbitros, para que não aderissem à greve. Também entrou em contato com Óscar Tabárez, para manter o treinador até o fim do semestre. Passou a estudar os contratos da Tenfield, analisando a possibilidade de um rompimento. Enquanto isso, tentava manter as possibilidade da realização das novas eleições.

No último domingo, os dois candidatos restantes à presidência da AUF tiveram suas intenções impugnadas pela Conmebol, novamente por não passarem pelo exame de idoneidade da confederação. Em compensação, outros três dirigentes surgiram na corrida presidencial e, com a aprovação da Conmebol, se colocavam ao pleito. No fim das contas, a votação desta terça-feira sequer aconteceu. Antes mesmo que se chegasse ao horário para que os votos fossem feitos, a Fifa emitiu o seu comunicado intervindo na AUF. Além de questionar a legitimidade das eleições, volta a colocar o novo estatuto como um ponto decisivo.

O que a intervenção representa

A comissão formada pela Fifa irá gerir a AUF até o final de fevereiro. Um de seus papéis primordiais será revisar os estatutos. Depois disso, realizará as novas eleições, o que ataca os privilégios dos clubes da primeira divisão. As equipes da elite perdem seu peso eleitoral, que passa de 94% para 52% dos votos. Enquanto isso, ganham força as equipes do interior (19%), da segunda divisão (19%), do futsal (5%) e do futebol feminino (5%). Além do mais, o Conselho Executivo da federação deverá contar com dois novos membros: um que represente os times do interior e uma mulher que fale pelo futebol feminino. Mudanças que incomodam os dirigentes que perdem garantias, mas agradam os demais atores, inclusive os jogadores. Com o novo equilíbrio de forças, é mais difícil que a Tenfield continue mantendo sua hegemonia nas votações que dão as negociações em suas mãos.

Em informação revelada apenas nesta quarta, há uma semana a Conmebol recebeu uma carta assinada pelos capitães da seleção, pela associação de árbitros e pelos clubes do interior. Eles pediam a intervenção na AUF. Este documento teria sido decisivo para que a Fifa tomasse a postura. O texto argumenta que os princípios de democracia não são respeitados pelo estatuto e que os entraves nas eleições colocavam em risco a estabilidade do futebol uruguaio. O principal pedido era pela reforma, para que a regulamentação interna da federação se adeque ao modelo publicado pela Fifa em 2005. A partir disso, poderiam se realizar “eleições verdadeiramente democráticas e plurais, onde todos os estamentos do futebol tenham voz e direito de voto para eleger os novos dirigentes”.

Os cartolas dos clubes da elite manifestaram seu descontentamento com a intervenção da Fifa. Reclamam de uma “violação” feita pela entidade internacional e apontam que vão acionar o Tribunal Arbitral do Esporte por isso. Temem que a comissão gestora concentre os poderes e se coloque contra os seus interesses. Já nesta quarta, a AUF enviou um comunicado à Fifa, assinado pelo presidente interino Edgar Welker e pelo secretário geral Alejandro Balbi. A federação nega que a intromissão seja necessária e sustenta que duas das candidaturas feitas de última hora eram legítimas. Também aponta que o próprio governo referenda o processo da eleição. Conforme a carta, o pleito ocorreria conforme as determinações anteriores da Conmebol, o que deveria ser suficiente para que fosse consumada. Por fim, aponta que os estatutos serão mudados até dezembro, seguindo a recomendação da Fifa.

Em contrapartida, a intervenção foi comemorada por outros lados da disputa, incluindo os capitães da seleção Diego Godín e Luis Suárez. Nesta quarta, os dois astros publicaram uma carta em suas redes sociais, reproduzida por outros jogadores. Eles apoiam a intervenção como medida para “instaurar de forma definitiva os princípios de transparência, democracia e pluralidade na AUF”. Além disso, garantem que os presidentes dos clubes de elite se negam a introduzir a reforma. Também aproveitam para ressaltar a necessidade de se renegociar os contratos com a Tenfield de Paco Casal. “Faz-se necessário e imprescindível uma revisão da política de contratação dos ativos da AUF, para determinar se nos últimos 20 anos existiram interesses ilícitos ou casos de corrupção na gestão desses contratos”, posicionam-se, antes de enfatizarem que “é a hora para o futebol uruguaio começar a se reger por vontade dos atores que o integram, e não por pressões externas que obedecem interesses de terceiros”.

Obviamente, nada impede Fifa e Conmebol de atuarem em prol de seus próprios interesses, assim como de alianças políticas ao redor do antigo presidente. Ainda assim, considerando a atuação de jogadores, árbitros e clubes do interior em busca de uma situação mais igualitária, a impressão é de que a intervenção pode realmente melhorar a gestão do futebol no Uruguai e olhar além dos mesmos de sempre. A vitória pode ser da maioria, em um caos necessário para a revolução.