O futebol não é feito apenas para os craques. Fosse assim, talvez nem desse para montar uma seleção da Pangeia para disputar a Copa do Mundo. A magia dos grandes jogadores, afinal, está em se colocar um patamar acima dos outros. Em humilhar um joão qualquer dentro das quatro linhas. Porém, também é possível que os maltratados desfrutem de seu dia de glória. Que, dentro de suas limitações, vivam o seu máximo em pleno Mundial. É o que aconteceu com Marouane Fellaini nesta sexta-feira, em Kazan. Dá para dizer que o meio-campista fez a partida de sua vida? Por aquilo que ofereceu à Bélgica e por aquilo que negou ao Brasil, certamente. Deboches e críticas arrefecem por um momento. Mais do que o descanso de seus ouvidos, o camisa 8 merece os aplausos.

Fellaini é um jogador estereotipado. A cabeleira, o tamanho, o jeito desengonçado. Não é, nunca vai ser e imagina-se que não almeja a unanimidade. Mas vale fugir do lugar comum. Não é um craque e dá suas engrossadas, óbvio, mas em diferentes momentos de sua carreira teve suas virtudes. Surgiu bem no Standard Liège, antes de se transferir ao Everton. E, de um volante combativo, se transformou em um voluntarioso meia-atacante em seu último ano no Goodison Park. Dentro de suas características, fez uma excelente temporada com os Toffees, contribuindo com 11 gols e seis assistências. Foi o que o levou ao Manchester United, homem de confiança de David Moyes.

A passagem por Old Trafford, que poderia parecer uma grande oportunidade, atribuiu um rótulo a Fellaini. Talvez não fosse um jogador aos Red Devils, de fato. Os resultados ruins e as vezes em que maltratou a bola ficavam na retina. A chegada de José Mourinho, de qualquer forma, acabou transformando o belga de possível jogador útil em insistência pouco agradável. A placa de substituição apontando o número de Fellaini, com razão, era o suficiente para desatar as reclamações na torcida – e entre aqueles que se irritavam meramente em vê-lo em campo. Virava a prova cabal que o jogo limitado de bolas longas e chuveirinhos na área se intensificaria. Tornou-se o retrato de um clube aquém de seu potencial e do futebol que poderia apresentar. E a cena, repetida semana após semana em Manchester, acabou se sobrepondo ao coadjuvante de trajetória satisfatória na seleção.

Se Fellaini não pode ser colocado necessariamente no papel de vilão, tratá-lo como vítima também não cabe. Era apenas um jogador limitado presente em um contexto desgastado, da mesma forma como Romelu Lukaku não vê suas virtudes totalmente aproveitadas pelo United. E estas características de Fellaini, exauridas em Manchester, também podem ser exploradas pela seleção. A entrada do camisa 8 no segundo tempo contra o Japão serviu justamente para aproveitar seu tamanho, com os cruzamento constantes rumo à área. Deu certo. Ainda assim, fica claro que ele também poderia contribuir de outras maneiras – como fez por tantos anos.

Contra o Brasil, Fellaini ajudou a Bélgica a redesenhar o seu esquema tático. Tornou-se uma aposta pertinente de Roberto Martínez, para liberar Kevin de Bruyne à armação e dar mais presença defensiva pelo lado direito. Poderia ter dado errado? Poderia, caso a pressão brasileira por seu lado esquerdo durante os primeiros minutos da partida rendesse frutos maiores que uma bola na trave ou boas defesas de Thibaut Courtois. Mas, entre prós e contras, pertinentes a qualquer um, o saldo do camisa 8 é muito mais positivo. O acerto tático ajudou. O meio-campista deu muito mais firmeza à faixa central, barrando quem tentasse se criar por ali.

Neymar teve muitos problemas ao encarar o belga. A atuação tímida do camisa 10 se explica também pela maneira como Fellaini o perseguiu por aquele lado do campo. O marcador teve sucesso na maioria dos combates e anulou o craque durante boa parte do duelo. Philippe Coutinho, que errou muito mais do que se esperava, também esbarrou algumas vezes no camisa 8. Em uma seleção belga que botou os pés no chão para encarar o Brasil e anular as forças do outro lado, se evidencia o papel do meio-campista.

Logicamente, há um sistema que funcionou muito bem ali. A Bélgica venceu muito por aquilo que aconteceu em seu meio-campo, com Axel Witsel e Nacer Chadli exibindo uma entrega imensa. Fellaini, entre estes se sobressaiu mais. Foram quatro desarmes, duas interceptações, três bolas rifadas, quatro chutes bloqueados. Sua altura o beneficiou bastante, principalmente nos minutos finais, quando era alvo óbvio nas reposições de Courtois, para ganhar a bola pelo alto e ajudar a prendê-la no ataque. Qualquer falta de manejo não o comprometeu. Dentro do que sabe e pode fazer, cumpriu com excelência, apesar de erros de passes ou outros problemas pontuais. E, afinal, de uma finalização sua nasceu o escanteio que originou o primeiro gol dos Diabos Vermelhos.

Nada impede que Fellaini se torne bode expiatório em questão de dias. É um alvo fácil, ainda que ele faça por merecer frequentemente. No entanto, também é necessário o reconhecimento. A Bélgica venceu porque teve um goleiro inspirado, uma defesa quase sempre atenta, liberdade para os craques brilharem na frente. E um brucutu que ajudou a engrenagem a funcionar. Toda a confiança no camisa 8 se justifica por esses momentos, e não pelo desespero das insistências. Uma noite redentora a ele, em especial.