Corinthians e Flamengo estão entre os clubes mais vitoriosos da Copa do Brasil. O torneio marca períodos importantes de ambas as agremiações, que não necessariamente aparecem entre os mais gloriosos, mas renderam uma taça importante para recobrar os brios da torcida. E o mais curioso é que, mesmo se acostumando a chegar às fases finais, os dois gigantes passaram 29 anos sem se enfrentar no torneio nacional, até o reencontro desta quarta-feira. A primeira e única vez até então aconteceu nas quartas de final da primeira edição da Copa do Brasil, em 1989. Tempos de ídolos de ambos os lados e partidas emocionantes.

Treinado por Telê Santana, o Flamengo vivia um momento de transição. Contava com muitos jovens talentosos eclodindo desde o final da década de 1980, mas ainda confiava nos serviços de Zico, em seus últimos meses vestindo a camisa do clube. Já o Corinthians, então comandado por Palhinha, não tinha uma equipe tão renomada quanto os rubro-negros e vinha encarando questionamentos, embora visse desabrochar a geração que rendeu a conquista do Campeonato Brasileiro em 1990. Nas etapas anteriores da Copa do Brasil, enquanto o Fla eliminou Paysandu e Blumenau, os corintianos deixaram Sampaio Corrêa e Tiradentes-DF pelo caminho – apesar de terem sofrido derrotas em ambos os confrontos.

Curiosamente, a seleção brasileira também era entrave na época. Por conta de compromissos importantes pelas Eliminatórias para a Copa de 1990, Sebastião Lazaroni desfalcou os clubes. O Flamengo não contou com Zé Carlos e Aldair, que integravam a equipe nacional durante sequência de partidas disputada desde as semanas anteriores. Além disso, os rubro-negros assimilavam a saída de Bebeto, que assinou com o Vasco. No jogo de ida, realizado no Maracanã, várias faixas apareceram nas arquibancadas. Culpavam “Eurico, o aliciador”, pelo trânsito do dirigente na CBF, assim como chamavam o atacante de “Chorão traidor”. De qualquer forma, não foi dos jogos mais atrativos ao público. Apenas 10,3 mil pagantes foram ao estádio na noite de quarta.

O Flamengo não teve problemas para confirmar o favoritismo no Maracanã. Dominando a partida, venceu o jogo por 2 a 0, em placar que até ficou barato, pela quantidade de chances que criou. Contra uma equipe alvinegra limitada a se defender, o Fla amassava os oponentes. Durante o primeiro tempo, teve um gol de Alcindo anulado por impedimento e uma bola no travessão acertada por Nando. Já os gols saíram em jogadas muito parecidas, entre os 35 e os 40 minutos. Em escanteios cobrados por Zinho na direita e desviados no primeiro pau, que Zico e Nando concluíram para as redes. Já no segundo tempo, enquanto os corintianos tentava diminuir o prejuízo, os flamenguistas maltratavam nos contra-ataques. Foram duas bolas salvas espetacularmente em cima da linha, que impediram uma diferença maior no marcador.

“Foi muito fácil para o Flamengo derrotar o fraquíssimo time do Corinthians no Maracanã. O placar de 2 a 0 foi pequeno diante das inúmeras chances desperdiçadas pelo time rubro-negro. Quem não conhecia a atual equipe corintiana entendeu bem porque esse time perdeu para o Sampaio Corrêa e o Tiradentes, nas duas primeiras fases da Copa do Brasil”, escreveu o então repórter Mauro César (Pereira) na reportagem do Jornal dos Sports. Segundo as avaliações do periódico, Leonardo e Zico foram os melhores do Flamengo, pela importância na criação, levando nota 9. Já no Corinthians, uma porção de notas baixas, com Ronaldo, Wilson Mano e Neto se salvando com o 5 no boletim.

O jogo de volta aconteceu dez dias depois, numa tarde de sábado no Pacaembu. Apesar da situação crítica do Corinthians, a torcida alvinegra foi realmente fiel. As arquibancadas estavam abarrotadas por 36 mil torcedores, que empurraram o time da casa. Os corintianos corresponderam em campo, embora as condições do Flamengo entre um jogo e outro não fossem boas. Neste intervalo, os rubro-negros viajaram até Hamburgo, onde disputaram um torneio quadrangular pela comemoração de 800 anos da cidade. Derrotaram St. Pauli e Hamburgo para erguer a taça no Estádio Millerntor, mas logo depois enfrentaram uma grande jornada. A final aconteceu em 9 de agosto. Depois de 20 horas de voo, os flamenguistas já estavam no Rio de Janeiro durante a manhã do dia 11. E no fim da tarde do dia 12, pisavam no gramado em São Paulo.

Aquele jogo era significativo ao Flamengo. Marcava o retorno de Júnior aos gramados do país, após sua passagem pelo futebol italiano. O maestro já havia atuado em Hamburgo, mas aquele era seu primeiro compromisso oficial com a camisa rubro-negra. Telê Santana o escalou no meio-campo, compondo uma trinca ao lado de Zico e Aílton. Pois a volta não poderia ser melhor ao velho craque, fundamental para garantir a classificação, apesar da derrota por 4 a 2.

O primeiro gol no Pacaembu, aliás, é sensacional. Aos 20 minutos do primeiro tempo, Neto cobrou escanteio fechado para o Corinthians, no capricho. A bola fez uma curva e morreu no ângulo de Cantarelli, em tento olímpico. As bolas paradas do camisa 10, aliás, eram as principais armas dos alvinegros. Muitas vezes levaram perigo à meta adversária. O Flamengo ao menos empatou antes do intervalo. Aos 37 minutos, Leonardo cruzou na medida para Zico completar de cabeça. Neste momento, os corintianos precisariam anotar três gols para conquistar a classificação.

O cansaço, no entanto, pesou sobre as pernas do Flamengo. E o que se viu foi um massacre inesperado do Corinthians. Numa saída errada de Cantarelli, Giba anotou o segundo aos 24. Eduardo ampliou três minutos depois, em uma bomba de fora da área que o arqueiro reserva do Fla aceitou. Viola viu uma bola salva em cima da linha, enquanto Nando desperdiçou chance clara para descontar, após lançamento açucarado de Zico. Já aos 39, o milagre parecia se concretizar. Dono da partida, Neto apareceu dentro da área para concluir e assinalar o quarto gol corintiano. Foi então que Júnior mudou os rumos da peleja. Aos 42, o passe de Nando deixou Ronaldo no meio do caminho e o veterano, com o gol aberto, definiu com estilo. Volta heroica do velho ídolo.

“Todos os jogadores estão de parabéns. Só nós sabemos da odisseia que esses rapazes foram obrigados a enfrentar. Viajamos cerca de 20 horas, da Alemanha para o Rio, e sem mesmo treinar viemos a São Paulo. Estou muito feliz”, pontuou Telê Santana, depois da partida. Emblematicamente, a melhor nota na avaliação do Jornal dos Sports foi de Neto: ganhou um 10 pelo espírito de luta e pela qualidade técnica. Sua grande tarde, contudo, acabou insuficiente. No Fla, os melhores foram Zico e Aílton, ambos com nota 8. Júnior levou um 7, assim como Leonardo.

Classificado às semifinais, o Flamengo não passou pelo Grêmio na etapa seguinte. Depois do empate por 2 a 2 no Maracanã, a derrota por 6 a 1 no Olímpico garantiu a festa dos tricolores, que terminariam com a taça. Já Telê Santana duraria não mais que um mês no cargo, demitido justamente depois do jogo contra o Corinthians no Brasileirão. Neto marcou o gol na vitória por 1 a 0, em pleno Rio de Janeiro. O ano seguinte seria melhor aos clubes. Enquanto os corintianos faturaram seu inédito Brasileirão, os rubro-negros levaram a Copa do Brasil.