Mais do que a boa campanha na Copa do Mundo, o que passa esperança para o futebol inglês são as seleções jovens. O ano passado foi mágico para o país, com títulos do Mundial sub-20 e sub-17 e do Europeu sub-19. Nem sempre as gerações que são bem sucedidas nas suas categorias conseguem fazer o salto para o futebol dos adultos com a mesma competência, mas três conquistas em um espaço tão curto de tempo indicam que há algo de especial nesses jogadores.

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A discussão é antiga na Inglaterra, principalmente depois de tantos fracassos em torneios internacionais: como fazer com que os clubes da Premier League deem mais chances para as suas pratas da casa? Nem sempre essa transição é feita com qualidade, e muitos acabam sendo emprestados para divisões inferiores, saem do país ou ficam encostados em busca de poucos minutos e partidas de copas.

Com a nova temporada da Premier League começando nesta sexta-feira, mapeamos onde estão os jovens que deram esses três títulos para a Inglaterra, entre os times da Premier League, e consideramos qual o nível de moral que eles possuem dentro dos elencos para ganhar oportunidades nas próximas 38 rodadas.

Mundial sub-20

Lewis Cook, do Bournemouth (Foto: Getty Images)

A conquista mais importante entre as três porque envolve um número maior de jogadores que já estão inseridos em seus times principais. A Inglaterra passou em primeiro no seu grupo, com vitórias sobre Argentina e Coreia do Sul e empate com a Guiné. No mata-mata, os adversários foram a Costa Rica, México, Itália e a Venezuela, na grande decisão, sempre com vitórias no tempo normal.

O melhor jogador da campanha foi Dominic Solanke, autor de dois gols na semifinal contra a Itália. Formado nas categorias de base do Chelsea, passou uma temporada emprestado ao Vitesse, para onde o clube de Londres despacha muitas das suas revelações, e voltou buscando vaga entre os adultos. No entanto, as negociações para renovar seu contrato não avançaram, e ele foi afastado. No final de maio, durante a competição, assinou com o Liverpool, que pagou uma compensação acordada com os Blues.

Solanke ainda não desenvolveu o seu potencial, mas, sem muitas opções ofensivas em Anfield, teve a oportunidade de ser reserva de Roberto Firmino. Atuou 21 vezes na Premier League e marcou apenas um gol, contra o Brighton, na última rodada. Permanece no elenco, mas a ascensão de Daniel Sturridge durante a pré-temporada pode relegá-lo à terceira opção. Sheyji Ojo, por enquanto, também ficou, apesar de ter apenas 13 partidas pelo Liverpool.

O meia-atacante Lewis Cook surgiu nas categorias de base do Leeds, titular em duas temporadas da Championship antes de se transferir por € 7 milhões para o Bournemouth. O começo na Premier League foi dificultado por uma lesão séria e a primeira campanha terminou com apenas seis partidas. A segunda foi melhor, e Cook ganhou a posição de titular no segundo semestre e deve atuar bastante daqui para frente.

O Everton teve vários destaques. Dominic Calvert-Lewin anotou o gol do título contra a Venezuela. Na última temporada, disputou 32 das 38 rodadas da Premier League, 18 desde o começo, aproveitando o vácuo deixado no ataque pela saída de Romelu Lukaku. Mas fez apenas quatro gols e, embora os Toffees não tenham investido em centroavantes na janela de transferências, ainda briga pelo seu espaço.

Ademola Lookman apareceu no Charlton e foi contratado, em janeiro de 2017, por € 9 milhões. Atuou algumas vezes, mas foi em um empréstimo de seis meses para o RB Leipzig quando mostrou o que pode fazer: marcou quatro gols e deu três assistências nas últimas cinco rodadas da Bundesliga. Apesar do interesse dos alemães de mantê-lo, o Everton reintegrou-o ao elenco e deve utilizá-lo mais vezes nesta temporada.

O lateral direito Jonjoe Kenny ganhou uma boa sequência como titular por causa da lesão de Seamus Coleman e jogou 19 vezes na liga inglesa. O meia-atacante Kieran Dowell estreou no Everton na Liga Europa de 2014/15 e fez duas aparições na Premier League. Na última temporada, estava emprestado ao Nottingham Forest e jogou 38 vezes na Championship, com nove gols.

Outro meia, Ainsley Maitland-Niles já havia aparecido em partidas de copas, oportunidade que Arséne Wenger sempre aproveitou para lançar jovens, até surgir na Premier League, com 15 partidas na última temporada. Além disso, foi titular nos seis jogos da Liga Europa e também na primeira fase eliminatória, contra o Östersund, da Suécia. Precisa descobrir quais os planos de Unai Emery, o novo treinador, para a sua utilização.

O Tottenham tem o meia Josh Onomah, com 32 partidas pelo time principal, a maioria como reserva ou em times alternativos para as copas. O lateral direito Kyle Walker-Peters, que provavelmente ganhou o “Peters” para não ser confundido com o colega que foi para o Manchester City, soma apenas três jogos na Premier League, dois como titular, e cinco participações em copas. O Newcastle conta com o goleiro Freddie Woodman, que atuou uma única vez pelo clube, contra o Luton Town, na Copa da Inglaterra.

Europeu sub-19  

Este título a Inglaterra já perdeu porque o campeonato acontece todos os anos. O último campeão foi Portugal. Mas o troféu foi o primeiro dos ingleses no torneio desde 1980, conquistado com cinco vitórias em cinco partidas, incluindo uma goleada por 4 a 1 sobre a Alemanha. O elenco é mais curto do que dos Mundiais, com apenas 18 jogadores. E a maioria está em clubes de divisões inferiores da Inglaterra, ou emprestada a eles pelos grandes da Premier League.

O maior destaque do time foi Ryan Sessegnon, lateral esquerdo que foi adiantado para o ataque na última temporada pelo Fulham, na segunda divisão, e se destacou com 15 gols em 46 partidas. Acabou vencendo o prêmio de melhor jogador da Championship. Defendeu o sub-19 mesmo tendo apenas 17 anos e foi um dos artilheiros do Europeu, com três gols.

Exceto ele, entre os jogadores que estão na próxima Premier League, o único que teve um gostinho do time principal foi o volante Joshua da Silva, com três partidas – uma delas de apenas um minuto – pelo Arsenal na Copa da Liga Inglesa. Os outros ainda não estrearam: os goleiros Aaron Ramsdale, do Bournemouth, e Nathan Trott, do West Ham, o lateral direito Darnell Johnson, do Leicester, e Marcus Edwards, do Tottenham.

Mundial sub-17 

Rhian Brewster, do Liverpool (Foto: Getty Images)

O torneio foi disputado na Índia, e a Inglaterra atropelou todo mundo. Foram seis vitórias e um empate, com 23 gols marcados e apenas seis sofridos. A única dificuldade foi nas oitavas de final contra o Japão. Os ingleses precisaram triunfar nos pênaltis. Mas houve quatro goleadas, contra Chile (4 a 0), Iraque (4 a 0), Estados Unidos (4 a 1) e Espanha (5 a 2), na decisão, além de uma boa vitória sobre o Brasil (3 a 1), nas semifinais. Pela idade máxima da categoria, muitos dos jogadores do elenco ainda nem estrearam nos times principais.

O grande destaque foi o atacante Rhian Brewster, com oito gols, sete no mata-mata. Anotou duas tripletas, contra os americanos, nas quartas, e os brasileiros. Ele deixou o Chelsea aos 15 anos por acreditar que teria mais chances no Liverpool. No entanto, em janeiro, dois meses depois do Mundial sub-17, sofreu uma lesão séria no ligamento do tornozelo e deve voltar a jogar apenas na época do Natal. Nesse período, foi abordado por outros clubes, como da Alemanha, para onde foi o seu colega Jordan Sancho, ex-Manchester City. Mas assinou seu primeiro contrato profissional com os Reds, depois de conversar com Jürgen Klopp e ficar satisfeito que receberia chances na equipe principal. Ainda não estreou entre os adultos.

Eleito o craque daquele torneio, Phil Foden já teve uma temporada como reserva regular do Manchester City. Disputou dez partidas, entre Copa da Inglaterra, Premier League e até Champions League, na qual foi inclusive titular, diante do Shakhtar Donetsk (com o clube já classificado) e Basel (depois de 4 a 0 no jogo de ida). Começou jogando contra o Chelsea, na Supercopa da Inglaterra, no fim de semana passado, e deu assistência para o gol de Sergio Agüero. Como Guardiola perdeu seu volante reserva e não contratou nenhum para ser o escudeiro de Fernandinho, pode tentar moldar Foden à função e dar mais oportunidades ainda ao jovem.

A família Sessegnon produz bons jogadores de futebol. Além de Ryan, tem Steven, seu irmão gêmeo e também jogador do Fulham, mas ele prefere atuar pela direita. Menos talentoso, até agora atuou apenas em partidas da Copa da Liga Inglesa e do troféu da Football League, que organiza as divisões inferiores da Inglaterra. Com a quantidade de contratações dos londrinos, o moleque provavelmente terá que ter paciência para ganhar chances no time principal.

O meia Morgan Gibbs-White passa por situação parecida. Teve duas temporadas como reserva do Wolverhampton, somando 20 partidas na Championship. Mas o clube investiu pesado para retornar bem à Premier League, o que pode diminuir o seu espaço. O meia-atacante Callum Hodson-Odoi entrou duas vezes no segundo tempo com Antonio Conte e aproveitou a reapresentação tardia de Eden Hazard, por causa da Copa do Mundo, para ser titular do Chelsea na Community Shield, pelo lado esquerdo do ataque. Caso José Mourinho queira compensar a falta de contratações com a molecada, pode dar mais oportunidades para Angel Gomes, que defendeu o Manchester United por dois minutos na última rodada da Premier League de 2016/17.

Confira outros jogadores campeões mundiais sub-17 pela seleção inglesa, que estão nas categorias de base de clubes da Premier League, mas ainda não estrearam no time principal e aguardam o chamado do técnico:

Marc Guéhi – Chelsea (zagueiro, sem jogos no time principal)
Conor Gallagher – Chelsea (volante)
George McEachran – Chelsea (meia)
Curtis Anderson – Manchester City (goleiro)
Joel Latibeaudiere – Manchester City (zagueiro)
Timothy Eyoma – Tottenham (lateral-direito)
Tashan Oakley-Boothe – Tottenham (meia, tem um minuto em jogo de Copa da Liga)
Emile Smith-Rowe – Arsenal (meia)
Lewis Gibson – Everton (zagueiro)
Nya Kirby – Crystal Palace (meia)