Todo mundo sabia que era apenas uma questão de tempo. E até que demorou, considerando o nível de investimento. Neste domingo, o RB Leipzig confirmou a inédita participação na Bundesliga. A equipe entrou na zona de acesso na 15ª rodada e não saiu mais, assegurando a presença na elite com uma partida de antecedência, ao derrotar o Karlsruher. Não deve parar por aí. Afinal, o objetivo da Red Bull, dona do clube, é colocar o carro-chefe de seus negócios futebolísticos no topo da Alemanha. Investimento não falta para isso, assim como apoio local. Ainda que a maioria dos oponentes e dos torcedores no país torçam o nariz para o time gerido pela empresa austríaca.

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De certa forma, o RB Leipzig é um filho da Copa do Mundo de 2006. Berço da federação alemã e um dos mais tradicionais centros do futebol no país, Leipzig foi a única cidade da antiga Alemanha Oriental a receber o Mundial. Um empresário local fechou acordo com a prefeitura para reformar o antigo Zentralstadion, com capacidade para 110 mil pessoas em seus anos áureos. No entanto, o palco de cinco jogos da competição internacional ficou sem rumo depois disso. Em meio à falência do futebol alemão-oriental após o fim do comunismo, com todos os clubes locais no limbo das divisões semiprofissionais, a arena não tinha uma equipe que pudesse evitar o ônus ao seu dono. Apenas em 2009 é que o empresário costurou um acordo com a Red Bull. A indústria adquiriu o irrelevante Markranstädt, da quinta divisão, e transformou o Zentralstadion em Red Bull Arena.

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Não dá para negar que o RB Leipzig ressuscitou o futebol da cidade, não só por livrá-la do “elefante branco”. Em sete temporadas, o time subiu da quinta divisão à primeira – passando três anos na quarta e dois na segunda. E mais notável do que a ascensão é a forma como a população abraçou o novo clube. Enquanto os tradicionais Lokomotive Leipzig e Sachsen Leipzig viam as suas arquibancadas cada vez mais vazias, infestadas por grupos neonazistas que eclodiram após a queda do Muro de Berlim, o RB virou uma alternativa para quem gostava de futebol e queria se afastar da violência. Assim, ano a ano, o novo time passou a encher as arquibancadas da Red Bull Arena.

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O crescimento do público do RB Leipzig chegou a acontecer em progressão aritmética. Em sua primeira temporada, na quinta divisão, a média não passou de 2,2 mil pessoas por jogo – e metade do público total só compareceu por causa dos clássicos contra Lokomotive e Sachsen. A ida para o quarto nível do futebol alemão no ano seguinte alavancou a média para 4,2 mil espectadores, mesmo sem qualquer dérbi local. Depois, por mais duas temporadas na quarta divisão, o número girou em torno de 7,5 mil. Ao longo da estreia e do acesso na terceirona, foram 16,7 mil pessoas por partida. Já na segundona, o sucesso se tornou inegável. Mesmo sem subir à elite na primeira tentativa, o RB registrou média de 25 mil. Na atual temporada, a marca bate os 29,4 mil. É a segunda melhor da 2. Bundesliga e supera seis clubes da primeira divisão – incluindo os quatro ligados a empresas em sua administração (Bayer Leverkusen, Wolfsburg, Hoffenheim e Ingolstadt).

No jogo do acesso, o RB Leipzig registrou o melhor público de sua história na liga nacional. Pela primeira vez, a equipe conseguiu esgotar os ingressos para um jogo: ocupou todos os 42.959 lugares da Red Bull Arena durante o triunfo sobre o Karlsruher. Acima da marca, apenas o confronto com o Wolfsburg nas oitavas de final da Copa da Alemanha 2014/15. Na atual temporada, o clube da Red Bull fez três partidas acima dos 40 mil presentes, incluindo também os confrontos diretos com Nuremberg e St. Pauli. Enquanto isso, o Lokomotive Leipzig não somou mais do que 36 mil pessoas em seus 13 compromissos em casa pela quinta divisão.

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Contudo, o que motiva paixões em Leipzig, alimenta a rejeição no resto da Alemanha. As maiores reclamações se concentram sobre a “quebra da estrutura sustentável” existente no futebol local. Nenhum clube pode ter mais de 50% de suas posses nas mãos de um só acionista que esteja a menos de 20 anos no negócio – período estabelecido que ajuda a abrir exceções nos casos de Wolfsburg e Bayer Leverkusen, fundados por Volkswagen e Bayer para seus funcionários. Além disso, a federação não permite que um time tenha menos de sete investidores. Mas a Red Bull deu o seu jeito e dividiu as ações do RB entre nove funcionários. Mesmo o nome da empresa não pode ser carregado pela instituição esportiva e, por isso mesmo, a equipe de Leipzig se chama oficialmente RasenBallsport. Os austríacos também já foram acusados de dificultar a entrada de torcedores como membros em sua direção, cobrando valores abusivos para a associação. Por pressão da liga, precisaram reduzir drasticamente o preço. Os membros participam das reuniões diretivas, mas não votam, indicando apenas um representante geral.

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Segundo a federação e a liga, a formação do RB Leipzig está dentro dos conformes da legislação. O que boa parte dos adversários não concordam. Para eles, a admissão do clube da Red Bull implode os preceitos de competitividade pregados no país. Por mais que exista o Fair Play Financeiro, a indústria tem carta branca para investir como bem entender, enquanto a maioria das equipes tradicionais encontram dificuldades para encontrar patrocinadores e gerar receitas ter força. Diante do dinheiro que jorra na Red Bull Arena, fica fácil de entender a ascensão meteórica, assim como os seguidos protestos das torcidas adversárias contra o RasenBallsport.

Em suas duas temporadas na segunda divisão da Bundesliga, o RB Leipzig desembolsou € 43 milhões em contratações. Juntos, todos os outros 34 participantes nos dois anos não passaram de € 34,8 milhões. Seis dos oito jogadores mais caros da história da segunda divisão alemã chegaram à Red Bull Arena – e as duas exceções da lista foram levados pelo Hoffenheim. Assim, parece natural que o clube com o maior valor de mercado do campeonato acabe frequentando as primeiras colocações da tabela.

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Vale ressaltar, porém, que a Red Bull segue diretrizes na montagem do elenco que se enquadram na mentalidade do futebol alemão de desenvolver talentos. A empresa investe pesado nas categorias de base do RB Leipzig, ao mesmo tempo em que a maioria absoluta de seus contratados não passa dos 23 anos. Há nomes badalados em seleções de base, como o alemão Davie Selke e o belga Massimo Bruno. Enquanto isso, seis jogadores do elenco atual já chegaram ao nível principal de suas equipes nacionais, a exemplo do atacante dinamarquês Yussuf Poulsen.

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O sucesso esportivo do RB Leipzig se contrasta com a oposição ao modelo de negócio. Não à toa, quando o clube chegou à segunda divisão, um grupo formado por torcidas de 10 clubes passou a pressionar a federação contra os novatos. Entre os associados estava, inclusive, o Ingolstadt, ligado à Audi. Todavia, apesar do peso da empresa automotiva na tomada de decisões, sua administração não interfere nas condições financeiras do próprio clube. Desta maneira, a equipe alcançou à elite do futebol alemão sem injeções de dinheiro, o que não encontra resistência dos demais. Bem diferente, por exemplo, do que vive o Hoffenheim, que só apareceu no mapa graças fortuna empregada pela SAP, empresa criadora de softwares.

A contestação ao RB Leipzig e ao Hoffenheim, em geral, é feita por clubes tradicionais e apegados a uma postura “contra o futebol moderno”. Neste meio, se destaca especialmente o Dynamo Dresden. Situado em uma cidade que é rival regional de Leipzig, o segundo maior campeão do antigo Campeonato Alemão-Oriental foi sondado pela Red Bull antes da chegada em Leipzig, algo rechaçado por sua torcida. Entretanto, o bom desempenho do RasenBallsport também exerce certa influência para levantar o Dynamo. Mais organizado, o clube sobrou na terceira divisão para conquistar o acesso e registrou a maior média de público de sua história em 2015/16. Não será surpresa se começar a brigar pela volta à elite em breve.

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E, neste cenário, o RB Leipzig recoloca o futebol alemão-oriental de volta ao radar. Os estreantes serão o primeiro clube do antigo país a participar da primeira divisão desde 2008/09, quando o Energie Cottbus (hoje na terceira) caiu. Um sopro de esperança longe de ser bem-visto. Por mais que os benefícios locais do investimento da Red Bull no futebol se escancarem, os reflexos disso sobre as demais equipes gera insatisfações. Que não se concorde com tudo, dá para entender os argumentos de ambos os lados. Mas, no fim, quem acaba decidindo o “certo” ou o “errado” é a própria organização do futebol alemão – entre seguir fincada em suas raízes ou fomentar um investimento externo que, ainda assim, está distante da loucura feita por magnatas em outros países. Por enquanto, prevalece a lógica do mercado, independentemente da desigualdade que possa causar.