Recentemente excluída da Serie C italiana por irregularidades financeiras e forçada a fechar as portas para ser refundada e recomeçar sua escalada das divisões amadoras, a Reggiana vivencia – a exemplo dos tradicionais Bari e Cesena – um drama que provocou cenas comoventes no futebol italiano, como a do choro do velho torcedor ao saber da notícia. Ao longo de sua história, o clube teve vida curta na Serie A italiana, concentrada em três temporadas nos anos 90.

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No entanto, esse tempo se tornou marcante por ter acontecido em plena Era de Ouro do Calcio e ainda por ter assistido à passagem pelo clube de jogadores de bom nível, como o goleiro Taffarel (que defendia a equipe quando se sagrou tetracampeão mundial com a Seleção Brasileira nos Estados Unidos). A primeira de suas três temporadas na elite – e a única em que conseguiu evitar o rebaixamento, numa grande escapada – é o tema da volta da coluna Azarões Eternos.

A história até o acesso

Fundada em 25 de setembro de 1919 pela fusão de dois clubes da cidade de Reggio Emilia, na Emilia-Romanha (não confundir com Reggio Calabria, terra da quase homônima Reggina, no sul do país), a Reggiana teve ascensão rápida e chegou à categoria principal do então regionalizado Campeonato Italiano apenas cinco anos depois. Das últimas cinco temporadas do torneio antes da criação da Serie A, o clube grená disputou quatro. Mas acabou perdendo o lugar na elite bem no momento da transição para o formato de fase única em pontos corridos.

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Foram então várias décadas de espera para retornar ao convívio dos grandes, transitando entre as Series B e C, chegando até a passar um curto período no equivalente à quarta divisão em meados dos anos 50. Nesses mais de 60 anos nas categorias inferiores, o momento em que esteve mais perto de voltar à elite foi na temporada 1968/69, quando o acesso falhou por um ponto, numa apertada disputa com os promovidos Lazio, Brescia e Bari.

O passo que começou a encerrar essa espera veio em 1989, com o clube ainda na Serie C1: a contratação do técnico Giuseppe “Pippo” Marchioro. Ex-meia criado na base do Milan mas de carreira feita em clubes pequenos, Pippo teve seu grande momento como jogador na brilhante campanha do Catanzaro na Copa da Itália em 1965/66, quando o clube calabrês despachou em sequência, e sempre em jogo único, Napoli, Lazio, Torino e Juventus, antes de perder a final na prorrogação para a Fiorentina no Estádio Olímpico de Roma (foi seu o gol na derrota por 2 a 1).

Como treinador, embora tivesse passagem curta no comando do Mian, Marchioro também se notabilizou por grandes feitos com clubes pequenos. Em 1975, levou o Como à Serie A após mais de 20 anos. Na temporada seguinte, cumpriu campanha histórica com o Cesena na elite do Calcio, terminando na sexta colocação e classificando-se para a Copa da Uefa. E dois anos antes de chegar a Reggio Emilia, havia conquistado o título da terceira divisão com o Barletta, guiando o pequeno clube da Apúlia ao primeiro e único acesso à Serie B de sua história.

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Logo em sua primeira temporada no comando da Reggiana, Pippo Marchioro trouxe o clube de volta à Serie B. Seguiriam-se então três temporadas terminando sempre na sétima colocação, ao mesmo tempo cimentando a participação do clube na segunda divisão como preparando o terreno para saltos maiores. Na primeira campanha – embalada pelos 23 gols marcados por Andrea Silenzi, o artilheiro do campeonato – terminou a seis pontos do quarto colocado, o arquirrival local Parma, que levou a última vaga do acesso.

Mesmo com Silenzi vendido ao Napoli, o clube manteria o nível com outro goleador então desconhecido e que explodiria com a camisa grená: Fabrizio Ravanelli. Na temporada 1990/91, os 16 gols do atacante trazido do Avellino deixaram a Reggiana bem perto do acesso, mas uma sequência final ruim (apenas uma vitória nos últimos nove jogos) obrigou a equipe a se contentar com um novo sétimo posto, apenas três pontos atrás da promovida Ascoli, quarta colocada.

Um returno decepcionante prejudicou o acesso em 1991/92, e a Reggiana terminou outra vez em sétimo, agora a seis pontos da quarta promovida Udinese. E em seguida, Ravanelli foi vendido à Juventus. Sem o goleador, os grenás foram um tanto econômicos ao balançarem as redes na próxima campanha. Mas com uma defesa quase imbatível (de longe a menos vazada da Serie B), conquistaram o acesso com algumas rodadas de antecedência, logo seguido do título.

A equipe de Marchioro somou 53 pontos, dois a mais que a vice Cremonese e cinco acima dos também promovidos Piacenza e Lecce. Foram apenas três derrotas em 38 jogos (a última, para a Fidelis Andria, com a promoção já assegurada). O time anotou apenas 47 gols (o sétimo melhor ataque), mas sofreu apenas 16. O excelente desempenho do sistema defensivo veio em grande parte graças aos milagres do goleiro Luca Bucci, que pertencia ao rival Parma e havia disputado a temporada anterior pela Casertana, também emprestado.

A montagem do elenco

O grande problema é que, com suas atuações espetaculares, Bucci havia atraído a atenção dos Crociati, que o chamaram de volta ao fim do empréstimo com expectativas de entregá-lo a camisa 1 da equipe. A solução para Pippo Marchioro não precisar promover o pouco testado Andrea Sardini a titular do gol grená foi encontrada no próprio Parma: amargando um quase ostracismo no clube devido ao limite de estrangeiros, após ter sido titular por dois anos, o brasileiro Taffarel acertou sua transferência para Reggio Emilia no começo de julho de 1993.

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Porém, outras baixas precisariam de reposição: emprestado pelo Genoa, o líbero Massimiliano Corrado, retornou a seu clube de origem. Já o ala esquerda Gianluca Francesconi, destaque das seleções de base, foi vendido à Juventus. Outros dois titulares do acesso iniciaram a campanha na elite, mas logo sairiam: o ponta Paolo Sacchetti desceria à Serie C para tentar salvar o Bologna, enquanto o rodado atacante Marco Pacione (ex-Atalanta, Juventus e Verona), já sofrendo com problemas físicos que logo poriam fim a sua carreira, seguiria em janeiro para o Mantova.

Pela outra porta chegaram bons reforços. Do Ravenna, a troco de alguns reservas, veio o zagueiro Stefano Torrisi. Da Internazionale, aportou o experiente lateral-esquerdo Luigi De Agostini, que também defendera Udinese, Verona e Juventus, além de ter sido titular da seleção italiana de Azeglio Vicini na Copa do Mundo de 1990, disputada em casa. Para a mesma posição, chegou também o novato Luigi Sartor, da Juventus, por empréstimo na negociação de Francesconi.

O meio-campo recebia outro jovem, o curinga Massimiliano Esposito, do Catanzaro, e mais tarde o ofensivo Christian Lantignotti, ex-Milan e Cesena. Já para o ataque, a novidade era o ascendente Michele Padovano (ex-Pisa, Napoli e Genoa), além do sueco Johnny Ekström, que retornava ao futebol italiano depois de ter atuado no Empoli por duas temporadas, na segunda metade dos anos 80 (e ter defendido a seleção de seu país na Copa de 1990).

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Aquele ano de 1993 marcaria ainda a chegada ao clube do empresário Franco Dal Cin na condição de acionista majoritário, após comprar a parte pertencente à família Fantinel, instalando-se no posto de administrador delegado. Ex-dirigente da Udinese (responsável por trazer Zico à Itália em 1983) e da Internazionale nos anos 80, Dal Cin também havia comandado uma empresa que intermediava transferências de jogadores soviéticos para o país.

Uma das ideias trazidas e conduzidas pelo dirigente seria a construção de um novo estádio para substituir o velho Mirabello (que comportava apenas 15 mil torcedores). O moderno projeto do que seria o primeiro estádio com naming rights (batizado “Giglio”, nome da empresa de laticínios que patrocinava o clube) e um dos primeiros particulares do futebol italiano, no entanto, só sairia do papel pouco depois, em setembro de 1994, sendo inaugurado em abril do ano seguinte.

Antes disso, o Mirabello se tornaria uma das armas da Reggiana em sua luta para não fazer feio e evitar o descenso logo em sua temporada de estreia na Serie A. Juntamente com uma equipe determinada, valente, veloz e dinâmica, que começava por Taffarel no gol (o único estrangeiro na posição na história da Serie A até então) e a dupla de zaga formada por Gianfranco Parlato ou Stefano Torrisi pelo lado direito e o capitão Michele Zanutta – revelado pela Sampdoria e com participação no Mundial Sub-20 de 1987 pela Azzurra – absoluto do lado esquerdo.

Já nas laterais, o apoiador Giuseppe Accardi manteve a titularidade na ala direita ao longo do primeiro turno, mas no segundo perdeu espaço para Gianluca Cherubini. Já pelo lado esquerdo, o experiente Luigi De Agostini era o dono da posição. À frente da zaga, como um misto de líbero avançado e cabeça de área autêntico, atuava Eugenio Sgarbossa. Um pouco mais à frente, e mais à direita, Giuseppe Scienza era o carimbador de todas as bolas que passavam pelo meio-campo.

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A meia esquerda foi outra posição que mudou bastante de titular ao longo da campanha: remanescente do trio de meio-campo do acesso, assim como Sgarbossa e Scienza, Mauro Picasso era o camisa 10 no início, tendo na reserva o jovem Christian Lantignotti, que chegou a atuar com a 11. Mais adiante, dois contratados durante a temporada também passaram pela posição: o português Paulo Futre atuou em uma única partida, cedendo o posto ao romeno Dorin Mateut.

Na ponta direita, Dario Morello foi o titular no início, jogando bem aberto, antes de inverter de lado, com a entrada de Massimiliano Esposito, compondo mais o meio-campo. A passagem de Morello para a esquerda foi uma consequência da troca no comando do ataque, na qual o dono da camisa 11 no início da temporada, Michele Padovano, ganhou a vaga do sueco Johnny Ekström, que não chegou a emplacar e deixou a equipe na janela de novembro.

O difícil começo da campanha

Nas 11 primeiras rodadas, com apenas seis pontos ganhos, a Reggiana parecia pertencer ao caso clássico de equipe que faz uma ótima campanha de acesso, mas ao chegar à elite não demonstra a consistência necessária para respirar fora da zona de rebaixamento. Vendera caro quase todas as derrotas e mantivera-se, com cinco empates, invicta em seus domínios. Mas ainda não vencera uma partida sequer e seguia na penúltima colocação, empatada com a Udinese.

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Na estreia, deu calor na Inter no San Siro, mas perdeu por 2 a 1. No segundo jogo, em casa diante da Lazio, cumpriu atuação muito boa, mas, sem poder de fogo, ficou no 0 a 0 – assim como aconteceria ao receber o Foggia e a Roma e ao visitar o Genoa. Sua pior partida viria em Bérgamo, na terceira rodada, ao perder da Atalanta por um 2 a 1 que poderia ter sido mais dilatado, não fosse Taffarel – que estreava naquele dia, após retornar da disputa das Eliminatórias com a Seleção Brasileira – defendendo um pênalti e Padovano descontando nos minutos finais.

Mais preocupante foi não conseguir vencer em casa duas equipes consideradas rivais diretas na briga contra a degola, ao empatar em 1 a 1 com Piacenza e Udinese. Pior mesmo, só a derrota para o Parma no clássico (ainda que por um apertado 1 a 0, gol de Melli) e ter sido vítima da “lei do ex” nas duas visitas a Turim e ao Delle Alpi. Contra a Juventus, segurava o placar em branco até os 11 minutos da etapa final, quando Ravanelli abriu o caminho para a goleada por 4 a 0. Já diante do Torino, dois gols de Silenzi deram a vitória aos donos da casa por 2 a 0.

Hora de mudar

Esta derrota para o Toro, em 7 de novembro, foi a última antes da pausa na liga para as rodadas decisivas das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1994. No mesmo interim, haveria a abertura da janela de transferências de meio de temporada para os clubes das Series A e B. Era preciso agir. Primeiro, o decepcionante Ekström (apenas um gol marcado até ali) é repassado ao Betis. Em seguida, Dal Cin pega um voo para Marselha, encontra-se com o presidente do Olympique, Bernard Tapie, e retorna com um reforço de peso: o meia português Paulo Futre.

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Revelado pelo Porto, com o qual levantou a Copa dos Campeões em 1987, Futre se transferiu logo em seguida ao Atlético de Madrid, onde viveu ótima fase, até 1993. Ao aportar na Reggiana, porém, vinha de passagens curtas e turbulentas pelo Benfica e pelo Olympique de Marselha. Em Reggio Emilia, tinha enfim, aos 27 anos, uma chance na grande vitrine do milionário Calcio. E no dia 17 daquele mês de novembro, estaria precisamente em Milão, atuando pela seleção lusa contra a Itália na partida decisiva para a classificação ao Mundial dos Estados Unidos.

No dia seguinte ao jogo das seleções (vencido pelos italianos por 1 a 0), Futre era recepcionado com status de grande astro – é ainda hoje a contratação mais cara da história do clube – por mais de dois mil tifosi em Reggio Emilia. Junto com ele, também aportava naquela janela era o meia romeno Dorin Mateut. Revelado pelo Corvinul Hunedoara e destaque do Dinamo Bucareste no fim dos anos 80 (chegou a conquistar uma controversa Chuteira de Ouro europeia em 1988/89), vinha de jogar por dois anos (sem brilhar) no Zaragoza e de ter raras aparições em um ano e meio no Brescia. Mas trazia a experiência de ter jogado a Copa do Mundo de 1990.

A estreia dos dois reforços aconteceria diante da Cremonese no Mirabello em 21 de novembro. Depois de um primeiro tempo sem emoções, o time grená abre o placar aos 16 minutos, quando Futre começa a justificar sua contratação e seu recém-adquirido status de ídolo, ao receber passe de Morello e entrar driblando na área, finalizando no canto do goleiro Turci. Na última volta do ponteiro, é a vez de Mateut também balançar as redes, confirmando a primeira vitória do time na elite, graças a seus dois novos craques. Uma tarde perfeita. Ou quase.

Aos 27 minutos, Futre é parado com um carrinho do zagueiro Pedroni e cai de modo estranho no gramado. É substituído, gerando enorme apreensão nos torcedores. Após o jogo, o diagnóstico é um balde de água fria: o português rompeu os ligamentos de um dos joelhos e ficaria pelo menos três meses de molho. Na realidade, perdeu o resto da temporada. Ainda sentindo o baque, e desfalcado da lucidez de Scienza no meio-campo, o time é goleado pelo Napoli por 5 a 0 no San Paolo.

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A página é rapidamente virada: nos dois jogos seguintes, ambos no Mirabello, o time vence o Cagliari por um categórico 3 a 1 (um gol de Mateut e dois de Padovano) e, em seguida, o lanterna Lecce por 1 a 0 (outra vez Padovano). E graças a um tropeço do Genoa, goleado em casa pelo Foggia, a equipe de Pippo Marchioro deixa pela primeira vez a zona de rebaixamento. E mesmo apesar da derrota para a Sampdoria em Gênova pelo placar mínimo na semana seguinte, a Reggiana consegue ir para a pausa de fim de ano fora do grupo dos quatro piores.

A rodada da volta das festas coincide com o encerramento do primeiro turno, em 2 de janeiro. E não termina bem para a Reggiana, com o time sofrendo sua única derrota em casa naquela campanha ao perder por 1 a 0 para o Milan, líder disparado da tabela, que confirma o simbólico título de inverno. Uma semana depois, ao receber a visita da outra equipe milanesa, a Inter, a atuação é bem mais convincente e o resultado, histórico: com Taffarel fechando o gol, realizando pelo menos três defesas assombrosas, e Scienza achando o caminho das redes nerazurri em cobrança de falta, o time vence por 1 a 0 e volta a embolar a briga do descenso.

O perde-e-ganha seguirá pelo returno adentro: o time é batido pela Lazio em Roma (2 a 0), vence com facilidade a ameaçada Atalanta no Mirabello (3 a 0), perde um confronto crucial na visita ao Piacenza num jogo cheio de reviravoltas e decidido no último minuto (3 a 2), para num empate sem gols em casa diante da Juventus de Roberto Baggio, cai pelo placar mínimo na visita ao Foggia e torna a empatar em casa, agora diante do Genoa (1 a 1), depois de ter saído na frente.

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Mas nada é tão injuriante quanto a derrota para a Udinese em Friuli por 2 a 1, com dois pênaltis muito contestados – um deles, aos 43 minutos da etapa final – apitados pelo árbitro milanês Cardona. A arbitragem volta ao centro das atenções uma semana depois, mas por motivos menos polêmicos: o dérbi contra o Parma no Mirabello é encerrado aos 20 minutos, sem gols, depois de um mal súbito sofrido pelo juiz Pierluigi Pairetto, e remarcado para dali a um mês.

A reta final

Coincidência ou não, dali em diante, a Reggiana inicia seu momento mais consistente no campeonato: mesmo muito desfalcada, segura em pleno Olímpico uma Roma que rondava a zona da degola (0 a 0), tendo ainda um gol mal anulado de Sartor. Depois, vence o Torino no Mirabello (1 a 0), empata com a Cremonese fora de casa (1 a 1) e bate o Napoli, também por 1 a 0 em casa, antes de enfim chegar o dia do remarcado confronto com o Parma.

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Foi uma das tardes inesquecíveis para os torcedores granate, a de 6 de abril de 1994 no Mirabello. Diante dos arquirrivais, que em pouco tempo haviam se tornado um dos times mais badalados e ricos do Calcio, a vitória de 2 a 0 foi até pouco pelo volume de jogo apresentado pelo time de Pippo Marchioro. Esposito desviou uma cobrança de falta de Scienza para abrir o placar logo no início da etapa final e, mais tarde, Padovano foi derrubado por Georges Grün na área e converteu o pênalti resultante. Em êxtase, a torcida local gritava a plenos pulmões: “Serie A! Serie A!”. A nota triste, no entanto, foram os atos de vandalismo dos tifosi do Parma após o jogo.

Uma derrota por 3 a 0 para o Cagliari na Sardenha encerrou a série invicta, mas a equipe se recuperou vencendo pela primeira vez fora de casa ao aplicar 4 a 2 sobre o rebaixado Lecce. O resultado igualou sua pontuação à do Piacenza, primeiro clube fora da zona da degola. Cenário que se manteve após a penúltima rodada, quando um gol de Esposito (seu quarto nos últimos sete jogos) garantiu o empate em 1 a 1 com a Sampdoria no Mirabello.

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A rodada decisiva foi aberta na sexta-feira, com o empate sem gols do Piacenza contra o Parma no Ennio Tardini (os Crociati decidiriam a Recopa contra o Arsenal no meio da semana seguinte). O resultado deixou a Reggiana precisando de um milagre no domingo: derrotar o Milan no San Siro, ou pelo menos empatar para decidir a queda num jogo extra com os biancorossi. Naquele 1º de maio de 1994, o dia esportivo começou triste, com a morte de Ayrton Senna em Imola, durante o Grande Prêmio de San Marino. E à tarde, em Milão, um feito épico estava a caminho.

Com o scudetto confirmado duas rodadas antes e uma decisão da Liga dos Campeões em vista para dali a algumas semanas, o Milan poupou quase todos os titulares. Mesmo assim, a equipe de Fabio Capello ainda ostentava um elenco fabuloso. Naquele time “reserva” figuravam nomes como Mauro Tassotti e Christian Panucci nas laterais, Marcel Desailly e Fernando de Napoli como volantes, Brian Laudrup na armação e Marco Simone e Jean-Pierre Papin no ataque. Do banco, durante o jogo, ainda entraram Roberto Donadoni e Daniele Massaro.

Invicto em casa durante toda a campanha, o Milan contaria ainda com um torcedor de ocasião: Luigi Cagni, técnico do Piacenza, compareceu ao San Siro para “secar” a Reggiana. Mas, apoiada por um número expressivo de torcedores que viajaram de Reggio Emilia a Milão, a equipe grená não se intimidava. Até que, aos 26 minutos da etapa final, numa escapada, a bola chegou a Esposito na meia direita e ele emendou um chute cruzado, que fez uma curva improvável, desviando de Mario Ielpo e entrando no canto do gol milanista. Do outro lado, Taffarel ainda fez uma defesa espetacular numa chance de Massaro e garantiu a vitória.

Com a permanência assegurada, a temporada seguinte se desenhava ambiciosa. Além da perspectiva da inauguração do novo estádio e do retorno de Futre, o clube trouxe vários novos jogadores. Entre eles, nomes experientes como o lateral Enzo Gambaro (ex-Fiorentina e Milan), o zagueiro Angelo Gregucci (ex-Lazio e Torino) e o volante Fernando de Napoli (ex-Avellino, Napoli e Milan), além de novos estrangeiros, como o nigeriano Sunday Oliseh (um dos destaques da seleção africana no Mundial dos Estados Unidos), o russo Igor Simutenkov e o experiente atacante português Rui Águas.

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Taffarel, porém, passaria a viver um ostracismo, perdendo a titularidade para o recém-contratado Francesco Antonioli e treinando entre os reservas como jogador de linha, até deixar o clube e voltar ao Brasil em janeiro de 1995, assinando com o Atlético Mineiro. Com mais qualidade no elenco, mas sem a mesma coesão, a Reggiana acabaria rebaixada. Voltaria logo na campanha seguinte, é verdade, quando entregou o comando do time a um técnico iniciante e filho da terra: um certo Carlo Ancelotti. No entanto, a temporada 1996/97 – sua última na elite – revelou-se desastrosa, com a Reggiana amargando nova queda, agora como lanterna.

E o que se seguiu foi uma queda meteórica: dois anos depois, o clube se despedia da Serie B, nunca mais conseguindo ir além da terceirona. Nesse interim, decretou falência pela primeira vez em 2005, sendo refundado, partindo da Serie C2. Retornou à terceira (então batizada Lega Pro Prima Divisione) três anos depois, mas viu ser seguidamente frustrado seu sonho de voltar ao menos à Serie B. Mas o pior viria em 16 de julho deste ano, quando, de novo excluído da Serie C por ilícitos financeiros, anunciou que não recorreria da punição, preferindo ser refundado outra vez e começar nova história a partir da base da pirâmide do Calcio.

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Quinzenalmente, o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

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