A Copa do Mundo de 2022 é criticada desde o dia que o país-sede foi escolhido, em dezembro de 2010. Há muitas dúvidas em relação ao país, especialmente no que diz respeito a direitos humanos. É um país com métodos bastante questionáveis sobre relações de trabalho, o que levantou suspeitas. Isso para não falar sobre as suspeitas de compra de votos, questão que está sob investigação do FBI e da justiça da Suíça. São muitos os relatórios que mostram riscos em relação à realização do Mundial no país do Oriente Médio, mas normalmente isso vem de fora da Fifa. Desta vez, porém, é vem de dentro.

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Um relatório encomendado pela Fifa para melhorar as questões de direitos humanos na própria entidade e na forma como a instituição lida com isso nos seus torneios. Como, por exemplo, na escolha do país-sede. A Fifa encomendou um relatório do especialista em direitos humanos da universidade de Havard, John Ruggie, responsável pelo Guia de Princípios para Negócios e Direitos Humanos das Nações Unidas” (UNGPs, em inglês).

“As prioridades de curto prazo devem incluir abordar riscos de direitos humanos em torneios que já estão marcados e usar todas as oportunidades para pressionar os países que sediam a apoiar o novo compromisso estatutário da Fifa sobre direitos humanos. Além disso, a Fifa deve finalizar a integração dos requisitos de direitos humanos aos documentos de candidatura para a Copa do Mundo de futebol masculino em 2026”, diz um trecho do relatório.

“Duas grandes questão surgiram em relação às candidaturas para a Copa do Mundo masculina. Uma preocupação é sobre suborno com intenção de compra de votos. O processo de candidatura para 2006, 2010, 2018 e 2022 chamaram a atenção dos investigadores. Como isto está relacionado com direitos humanos? Suborno e corrupção não são apenas sobre dar e pegar dinheiro para ganho pessoal em um recurso destinado a propostas sociais mais amplas. Isso também irá permitir que as partes envolvidas escapem de requerimentos contratuais legais, incluindo aqueles que protegem os direitos humanos. A falta de integridade financeira, contudo, é fonte fundamental para os riscos de violação de direitos humanos. As medidas recentes de reforma da Fifa têm a intenção de tratar da questão de integridade financeira relacionada à Copa do Mundo, membros associados e aos próprios órgãos governamentais da Fifa”, mostra o relatório.

“Outra questão é que o critério de candidatura e seleção da Fifa para sediar e disputa de torneios no passado não incluiu provisões adequadas para tratar de riscos de direitos humanos. Isso deixou indivíduos e comunidades vulneráveis e a própria reputação da Fifa exposta. Considere a decisão da Fifa de disputar o Mundial sub-20 de 2016 na Papua Nova Guiné em novembro e dezembro. Papua Nova Guiné é conhecida como um dos piores países com violência sexual contra mulheres – e a polícia está frequentemente entre os criminosos. Isto é precisamente o tipo de caso que requer uma diligência elevada de direitos humanos como parte do processo de avaliação da proposta. Com a decisão tomada, é imperativo que a Fifa agora demonstre que os arranjos de segurança adequados estão sendo feitos para enfrentar os riscos”, diz outro trecho do relatório.

“Onde a Fifa é incapaz de reduzir as graves violações de direitos humanos usando a sua vantagem, ela deveria considerar suspender ou terminar o relacionamento”, relata o professor no relatório.

O presidente da Fifa, Gianni Infantino, agradeceu os serviços prestados pelo consultor. “Eu gostaria de agradecer o prof. Ruggie pelo seu trabalho na produção deste relatório, que, junto com a própria análise da Fifa e o trabalho que está sendo feito, irá nos guiar em frente. Este é um processo em andamento e é claro que muitos desafios continuam, mas a Fifa está comprometida em desempenhar o seu papel no sentido de garantir o respeito pelos direitos humanos e ser um líder entre as organizações internacionais de esporte nesta área importante”, disse o dirigente.

O mais recente estatuto aprovado na Fifa inclui um compromisso de proteger “todos os direitos humanos internacionalmente reconhecidos”. Isso, somado ao relatório de Ruggie, coloca mais pressão para que sejam investigadas as preparações para a Copa do Mundo no Catar, de 2022, contestada por diversos abusos no país, incluindo em obras do Mundial.

Isso tudo parece uma forma da Fifa preparar o terreno para, eventualmente, ter que tirar o Mundial do Catar. A pressão por reformas é grande.

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