Relembrar é viver: cinco finais de parar o coração na história da Champions League

A Champions League chega à sua final neste sábado, quando o Real Madrid e o Liverpool disputam quem fica com a taça da temporada 2017/18. Dois times que, pelo seus estilos, prometem um jogo muito emocionante em Kiev, na Ucrânia. Não sabemos como será a decisão da edição deste ano, mas lembramos de cinco finais que tiveram um fator em comum: foram emocionantes, com reviravoltas que deixaram os torcedores atônitos. Dos tempos de Copa dos Campeões da Europa à Champions League, venha conosco e passeie pela história do torneio de clubes mais importante da Europa.

ESPECIAL: Como a final da Champions de 1981 marcou os rumos de Liverpool e Real Madrid

1967 – Celtic 2×1 Internazionale

Celtic foi o primeiro time a conquistar a Tríplice Coroa na Europa, em 1967 (Foto: AP)

A final da Copa dos Campeões de 1967 teve um finalista inédito. O Celtic de Jock Stein chegava como um azarão diante de uma badalada Internazionale. Aquela final trazia um histórico muito negativo dos britânicos na competição. Embora outros clubes já tivessem ganho competições continentais, nunca um britânico tinha conseguido levantar a taça do principal torneio, a Copa dos Campeões. Era uma missão ingrata.

A Internazionale de Helenio Herrera vinha de dois grandes títulos, em uma década mágica. O time conquistou a Serie A em 1962/63, 1964/65 e 1965/66 e seus primeiros títulos europeus em 1963/64 e 1964/65. Mais do que isso, tinha batido dois grandes, o Real Madrid e o Benfica. Por isso, a equipe italiana chegava com pinta de favorita.

O Celtic tinha uma característica bastante peculiar. Primeiro, do ponto de vista tático, Jock Stein foi um dos primeiros a levar pelo 4-2-4 no Reino Unido. Tinha um trabalho de captação de talentos na Escócia que era muito eficiente. Aquele grupo, porém, era mais do que local: todos os jogadores tinham nascido em um raio de 15 quilômetros ao redor do Celtic Park, descendentes de imigrantes irlandeses, parte da comunidade católica. Eram parte de uma classe econômica e social parecida, que provavelmente trabalharia como operários em uma cidade que tinha essa característica.

Stein tinha uma linha de liderança que tornava aquele time um conjunto muito unido e muito difícil de ser vencido. Ganhou o título escocês em 1965/66 pela primeira vez desde 1953/54. Aquele foi o primeiro de uma sequência de nove títulos consecutivos de um time que marcou época na Escócia e na Europa, já que o fato de ser o campeão do país o qualificava para disputar a Copa dos Campeões. Mas ali, naquele dia 25 de maio de 1967, essa dinastia ainda não estava estabelecida. Era preciso enfrentar a “Grande Inter” do Catenaccio montado por Helenio Herrera.

Com um time ofensivo diante de uma equipe campeã, experiente e com um técnico especializado em defesa como poucos, o Celtic foi a razão de cerca de 20 mil torcedores terem deixado Glasgow rumo à Lisboa. A Inter tinha uma torcida com o costume de viajar para acompanhar o time. Era a “Club Inter”. E, assim, cerca de 50 mil torcedores se deslocaram de suas cidades para ir até Portugal e apoiarem seus times.

Naquela partida, Jock Stein sabia que teria que enfrentar o sistema defensivo voraz da Inter de Helenio Herrera. Precisava encontrar uma forma de usar suas armas de um time ofensivo contra alguém que congestiona tanto a região próxima do gol que defende. Só que o início não foi como esperado. As coisas ficaram bem complicadas para o time britânico quando, aos sete minutos, Jim Craig derrubou Renato Cappellini dentro da área. O árbitro Kurt Tschenscher apontou a marca da cal. O craque daquele time, Sandro Mazzola, cobrou o pênalti e marcou 1 a 0.

A Inter faria o que estava acostumada: se defender. O Celtic, por sua vez, também faria o que estava acostumado: atacar. Eram dois times filosoficamente opostos. Só que a Inter tinha tudo: os títulos, a história de sucesso recente, a experiência. O Celtic tinha o peso de nunca ter ido tão longe, de nenhum time britânico ter ganhado. E não teve medo: atacou muito pelos lados do campo, criando problemas para a defesa interista, que se segurava. O time técnico e veloz do Celtic abusava da velocidade pelos lados e começou um bombardeio. Acertou uma bola na trave no primeiro tempo e tentava, mas não conseguia chegar ao empate.

No segundo tempo, a pressão seguia. A Inter atacava pouco e entregava a bola para o Celtic tentar, a cada ataque, quebrar o cadeado. Aos 18 minutos, depois de uma grande jogada do lateral direito Jim Craig, ele rolou para o meio onde o lateral Tommy Gemmell surgiu com liberdade e, com um chute forte, estufou as redes do goleiro Giuliano Sarti: 1 a 1.

O empate, porém, não era suficiente para o Celtic. O time não se contentou em empatar com uma equipe que era consagrada, badalada e com nomes como Armando Picchi, Giacinto Facchetti e o próprio Sandro Mazzola. Seguiu atacando, amassando a Inter em seu campo. Os italianos sentiram o gol e pareciam não ter uma alternativa de jogo. Seguiram entrincheirados, segurando os ataques escoceses.

Quando restavam apenas cinco minutos para o fim do tempo regulamentar, o ponta Bobby Lennox chutou forte, de longe, e a bola desviou em Stevie Chalmers, matando o goleiro Sarti e morrendo no fundo do gol. O Celtic alcançava uma improvável virada em Lisboa. Se tornava o primeiro campeão britânico do torneio. A torcida invadiu o campo para comemorar o incrível feito e aqueles jogadores entraram para sempre para a história como Os Leões de Lisboa.

1974 – Bayern de Munique 1×1 Atlético de Madrid

O Atlético de Madrid era um concorrente de peso para o Real Madrid nas décadas de 1960 e 70, mas nunca levou o título europeu. Chegou a duas finais, e em embas vencia até dois minutos do final (AP Photo)

A final de 1974 foi marcante para o futebol dos dois países, Espanha e Alemanha, por motivos diferentes. Os alemães tinham força, um país economicamente próspero e um futebol que tinha conquistado a Copa do Mundo em 1954 e vinha de um sucesso recente da Eurocopa de 1972. Tentavam levar esse sucesso também às noites europeias e especialmente à Copa dos Campeões, da qual nunca um alemão havia sido campeão.

Do outro lado, o Atlético de Madrid, que tinha sido orgulho do regime franquista, tinha conseguido desbancar o badalado Real Madrid, campeão europeu em 1966, mas que não conseguiu manter o sucesso. Os Colchoneros tinham um estilo de jogo que abusava da força física e não raro era acusado de violência. Fez um duelo brutal com o Celtic, campeão europeu em 1967, nas semifinais daquela edição. No jogo de ida, no Celtic Park, em Glasgow, teve três jogadores expulsos e, mesmo assim, segurou um 0 a 0. Venceu a volta por 2 a 0 e carimbou passagem à decisão.

O Atlético de Madrid tentava uma glória que o seu grande rival já tinha conquistado seis vezes. Era uma questão de orgulho, algo que aquele time tinha conseguido chegar até ali. E o jogo, nervoso, não foi muito atrativo. Aquela final em Bruxelas, no dia 15 de maio de 1974, teve pouco a se admirar.

Depois de um 0 a 0 no tempo normal, o jogo foi para a prorrogação. Aos nove minutos do segundo tempo da prorrogação, Luis Aragonés (sim, aquele, o técnico do Tiki-Taka campeão europeu em 2008) cobrou falta e marcou o gol que, àquela altura, parecia ser o do título. O Atlético de Madrid se aproximava de uma glória que o rival já tinha se esbaldado.

O drama do Atlético ganhou um capítulo terrível no último minuto da prorrogação. Hans-Georg Schwarzenbeck, em um chute de longe, de fora da área, venceu o goleiro Miguel Reina e empatou dramaticamente aquela partida. Não havia previsão de pênaltis no regulamento e um novo jogo teve que ser marcado entre as equipes.

Dois dias depois, no mesmo estádio de Heysel, em Bruxelas, com metade do público, os dois times voltaram a campo. A igualdade do primeiro jogo ficou para trás. O Bayern pareceu estudar melhor o seu adversário e trucidou o Atlético de Madrid. Uma impiedosa goleada por 4 a 0, com dois gols de Uli Hoeness e dois de Gerd Müller.

O Bayern era, finalmente, campeão europeu. Foi o primeiro título de uma sequência, o tricampeonato que elevaria o time do capitão Franz Beckenbauer ao status da glória eterna – e o colocaria como o grande rival de Johan Cruyff naquela década, já que venceria, pouco tempo depois daquela final, a Copa do Mundo na Alemanha derrotando a Holanda de Cruyff. O Ajax de Cruyff tinha sido tricampeão europeu em 1971, 1972 e 1973. E o drama do Atlético em finais de Champions League só começava.

1999 – Manchester United 2×1 Bayern de Munique

Jogadores do Manchester United comemoram o título da Champions League de 1999 (Photo by Christian Liewig/TempSport/Corbis via Getty Images)

A era da Champions League já tinha começado em 1992/93 e a final da edição de 1998/99 foi uma das mais surpreendentes de todos os tempos. Não pelo resultado final, mas pela forma como ela se desenvolveu. O Bayern voltava à final da competição e tentava o título que não vinha desde o tricampeonato dos anos 1970.

Para alcançar a glória, porém, seria preciso vencer um time que tentava recolocar os ingleses no ponto mais alto do pódio europeu. Desde a tragédia de Heysel, na final da Copa dos Campeões de 1985, os ingleses nunca mais chegaram a uma final daquela competição. E quem estava ali era o Manchester United, segundo dos times britânicos e levantar a taça e o primeiro entre os ingleses, em 1968. Na primeira conquista, o time era comandado por Matt Busby. Desta vez, quem comandava a equipe era Alex Ferguson, que se tornaria uma lenda.

O dia 26 de maio de 1999 reuniu Manchester United e Bayern de Munique no estádio Camp Nou, em Barcelona. E logo no começo do jogo, aos cinco minutos, Mario Basler cobrou falta e venceu o goleiro Peter Schmeichel para marcar 1 a 0 para o clube alemão. Um prenúncio ruim para o time inglês, que chegava à decisão desfalcado do seu capitão, Roy Keane.

Perdendo por 1 a 0, o Manchester United não estava nos seus melhores dias. Tinha jogadores que vinham brilhando internamente, na Premier League, mas faltava a confirmação em competições europeias. O Bayern, desfalcado do brasileiro Giovane Élber, ia vencendo por 1 a 0. Aos 33 minutos do segundo tempo, o Bayern ficou perto de resolver o jogo. Mehmet Scholl, em um toque com categoria por cima do goleiro, viu a bola bater na trave. Não entrou. Era o 2 a 0, o que, àquela altura e com o futebol que os dois times jogavam, seria difícil ser revertido.

Não foi a única chance. Aos 38 minutos, o atacante Carsten Jancker deu uma puxeta que bateu no travessão. O Bayern se aproximava, perigosamente, da vitória. O técnico Alex Ferguson tinha feito duas alterações na partida visando a vitória. Jesper Blonqvist, substituto de Roy Keane que fez David Beckham se deslocar para o centro do campo, saiu para a entrada do atacante Teddy Sheringham. Um atacante bem típico do futebol inglês: grande, forte, goleador, ótimo nas bolas aéreas. Quando o relógio já batia em 36 minutos, quem saiu foi Andy Cole para a entrada de Ole Gunnar Solskjaer, atacante norueguês com o curioso apelido de “Assassino com cara de bebê”.

Em um escanteio, aos 45 minutos do segundo tempo, quando o drama já era grande, veio o milagre. Beckham cruzou, o goleiro Peter Schmeichel estava dentro da área, subiu para cabecear, a defesa do Bayern tentou afastar, Ryan Giggs chutou de primeira e a bola sobrou para Sheringham, fatal, empurrar para a rede. Um gol de empate dramático que levaria a partida para a prorrogação.

Diante do cansaço, era bem provável que muitos jogadores já estivessem pensando naqueles 30 minutos que viriam depois. Enquanto o Bayern sentia os efeitos de um título que tinha sido adiado, o Manchester United sentia-se ressurreto. Voltou a um jogo depois de estar com a corda apertando no pescoço. E o aspecto psicológico não pode ser deixado de lado em uma final como essa.

Dois minutos depois, enquanto todos ainda tentavam recobrar os sentidos e colocar a cabeça no lugar, o Manchester United consegue outro escanteio. Mais uma vez, David Beckham vai para a cobrança. O jovem meia, de 24 anos, que tinha sido inocentemente expulso na Copa do Mundo no jogo da Inglaterra contra a Argentina, estava na bola para usar uma das suas melhores qualidades, o cruzamento. Apesar disso, nem o mais otimista dos torcedores do Manchester United poderia imaginar o que veio a seguir.

Antes de recuperar completamente o fôlego e conter a euforia, o torcedor viu o cruzamento de Beckham encontrar a cabeça de Sheringham, que desviou na primeira trave e a bola tinha a direção de sair. Exceto pela presença do Assassino com cara de bebê na segunda trave, quase em cima da linha, pronto a colocar a bola na rede e despertar olhos incrédulos de torcedores dos dois times no estádio – e de milhares de outros torcedores ao redor do mundo, que acompanhavam, atônitos, aquele jogo.

Em dois minutos, o Manchester United saiu de uma derrota para uma vitória. O Bayern viu um título que estava quase na mão escorrer por entre os dedos. E a Champions League ganhava um capítulo emocionante na história das suas finais.

2005 – Liverpool 3×3 Milan (3×2 nos pênaltis)

Gerrard levanta a taça ao lado de Carragher (Foto: AP)

O Milagre de Istambul tem esse nome por uma razão. O dia 25 de maio de 2005 criou uma lembrança eterna no coração dos torcedores de Milan e Liverpool. Os torcedores dos Reds lembram com a paixão de um time que vinha há muitos anos tentando retomar os grandes momentos da sua gloriosa história na Europa. Campeão em 1976/77, 1977/78, 1980/81 e 1983/84, nunca mais tinha chegado a uma decisão.

Em um momento glorioso do futebol italiano, o Milan chegava à sua segunda decisão em três anos. Vinha de um título em 2003 e tinha superado diversos times importantes no caminho, como o Barcelona, o Manchester United e a rival Internazionale, além do PSV. Do outro lado, o Liverpool, que vinha em uma trajetória errática, se classificando em um grupo que teve o Monaco, passando por Bayer Leverkusen, Juventus e o rival local Chelsea nas semifinais, em um duelo apertado.

Aquele jogo começou do pior jeito possível para o Liverpool. Com um minuto de jogo, o Milan abriu o placar com Paolo Maldini. Aos 38 minutos, depois de um chute de Shevchenko, Hernán Crespo completou para o gol e marcou 2 a 0. Aos 43 minutos, o brasileiro Kaká, que fazia grande jogo, fez lançamento para Crespo, que tocou com muita categoria para marcar 3 a 0 no placar. Três a zero. Um placar que parecia já determinar quem sairia de Istambul com a taça da Europa.

Os torcedores dos Reds que viajaram até a Turquia já pareciam sentir o baque. Seriam atropelados. O Milan de Kaká, Shevchenko, Pirlo, Stam, Cafu, Nesta, Gattuso, Seedorf, com direto a Rui Costa no banco, parecia destinado à glória. O time comandado por Carlo Ancelotti mostrava a força que tinha. Como o próprio técnico definiu, “nós fomos excepcionais no primeiro tempo”. Ele complementaria com “o que aconteceu depois disso é difícil de explicar”.

Do outro lado, Rafael Benítez, em sua primeira temporada no Liverpool depois da glória de dois títulos espanhóis com o Valencia, buscava um título que certamente seria visto como improvável antes do início da temporada. Mas o time estava ali. E tinha em um camisa 8 a sua esperança. Steven George Gerrard é um jogador que tinha uma missão, desde que surgiu, desde que se tornou titular, dono da camisa 8, depois dono da braçadeira de capitão.

O Liverpool do capitão Gerrard e do técnico Rafa Benítez passava longe dos seus momentos mais gloriosos, com times cheios de lendas ou mesmo recheados de craques como o rival daquele dia. Na escalação, uma penca de jogadores que se tornariam muito menos do que se esperava deles, como Luis Garcia, Harry Kewell e Milan Baros. Mas tinha também Xabi Alonso. Tinha Jamie Carragher, que ainda que não fosse brilhante tecnicamente, longe disso, era um líder e lutador.

Aos oito minutos do segundo tempo, John Arne Riise cruzou para a área e encontrou Gerrard, que cabeceou perfeitamente para marcar o primeiro gol do Liverpool. Prestem atenção ao tempo: oito minutos da etapa final de jogo. O capitão marcou o gol e correu para o meio-campo, chamando o time. Era possível, era a mensagem que a sua atitude mostrava. Regeu os torcedores, pedindo apoio. Evidentemente, atendido prontamente.

Menos de um minuto depois, no lance seguinte, o Milan mal tinha dado a saída de bola, já tinha perdido a posse e viu Vladimir Smicer acertar um chute de fora da área, bem no cantinho, e marcar o segundo gol do Liverpool. O susto do primeiro gol tomou ares de desespero para o clube italiano. O impossível começava a ser possível.

Quando o árbitro apita o pênalti aos 14 minutos do segundo tempo, o Liverpool já tinha se inflamado com a esperança que você nunca pode oferecer a clubes como esse. O menor fio de esperança para um clube e uma torcida como o Liverpool são suficientes para mudar a história. O pênalti não era tão fácil de ser convertido. Quem estava no gol era Dida, o brasileiro que se notabilizou por defender esse tipo de cobrança. E foi isso que ele fez quando Xabi Alonso cobrou. Mas o próprio espanhol pegou o rebote para, aí sim, marcar o gol e empatar aquele jogo insano.

Com o placar empatado, restava ao Liverpool segurar o ímpeto do Milan, um time com estrelas, com forças, com talento. A partida foi para a prorrogação e o Liverpool pareceu estar por um fio quando Andriy Shevchenko cabeceou e o goleiro Dudek fez uma defesa que ele mesmo não sabe bem como aconteceu. Mas aconteceu. Ele impediu o gol. Impediu a consagração de Shevchenko ali. Impediu que o Milan fizesse o quarto gol e desse um golpe psicológico no Liverpool.

Por toda essa situação, chegar aos pênaltis fez o Liverpool chegar com uma enorme força mental, enquanto o Milan chegava com a pressão de ter desperdiçado uma vantagem de três gols. Coube justamente a Shevchenko, um craque, um ídolo, uma lenda do Milan, cobrar o pênalti decisivo e desperdiçá-lo. Dudek comemorou. O Liverpool comemorou. A taça estava de volta a Anfield Road. O Milan tinha para sempre uma cicatriz no peito de um título que parecia certo depois do primeiro tempo. Uma decisão que fica tatuada na memória de todos que assistiram àquele jogo incrível.

2012 – Chelsea 1×1 Bayern de Munique (4×3 nos pênaltis)

Didier Drogba foi o grande nome da final da Champions League de 2012, pelo Chelsea (Photo by Alex Livesey/Getty Images)

É muito raro que um time tenha a chance de decidir a Champions League em casa no modelo de final em jogo único com sede pré-determinada. Só que o Bayern de Munique teve essa chance em 2012. Campeão em 2001, o time alemão tinha a chance de voltar a levantar a taça com uma geração completamente diferente.

O problema é que do outro lado tinha um time que vinha com a faca nos dentes em uma história improvável. O Chelsea voltava à final, depois da decepção de 2008, quando perdeu para o então rival Manchester United, nos pênaltis. Desta vez, vinha com um time menos estrelado, menos favorito, mas que foi passando pelas barreiras que surgiram ao longo do caminho, como o superfavorito Barcelona de Pep Guardiola nas semifinais. Venceu o primeiro jogo, arrancou um empate improvável no segundo e garantiu viagem à Munique.

Vencer o Bayern em Munique é sempre uma tarefa complicada. Mesmo que o clube alemão não fosse mandante, é o seu estádio. O Bayern, de Jupp Heynckes, tinha uma geração talentosa com Manuel Neuer, Philipp Lahm, Jérôme Boateng, Bastian Schweinsteiger, Toni Kroos, Thomas Müller, além do holandês Arjen Robben e do francês Franck Ribéry.

O Chelsea, mesmo não sendo o time tão estelar, ainda tinha muitos jogadores importantes. Petr Cech no gol, Gary Cahill no lugar do suspenso John Terry, David Luiz, Ashley Cole, Frank Lampard, o capitão na ausência de Terry e, principalmente, Didier Drogba, no seu último ano de contrato.

O Bayern tinha a decepção da final de 2010 para lamentar. Tinha perdido da Internazionale naquele ano e esperava, desta vez, ficar com a taça. O Chelsea sabia da força do adversário e usou uma tática que o seu técnico interino, Roberto Di Matteo, tinha se acostumado a fazer: trancar os espaços, se defender e contra-atacar com muita velocidade.

O problema foi segurar quando Toni Kroos cruzou a bola para a área, encontrando Thomas Müller na segunda trave, aos 38 minutos do segundo tempo. Um gol na final, de um jogador bávaro, na final em Munique. Parecia um casamento dos sonhos para o Bayern conquistar o esperado título, depois de 11 anos de espera. A taça nem precisaria viajar, ficaria ali mesmo.

Só que o Chelsea tinha um camisa 11 muito, muito bom. E que o camisa 10, Juan Mata, teve um escanteio para cobrar. E ele colocou na primeira trave, onde Didier Drogba, com o seu posicionamento preciso e a cabeçada tecnicamente perfeita acertou o gol, estufou as redes, vencendo Neuer. Um empate dramático aos 43 minutos do segundo tempo. Água no chopp dos bávaros, que já se preparavam para a festa.

Drogba, o herói, o ídolo, autor do gol de empate, autor de um pênalti na prorrogação em cima de Franck Ribéry. Como assim? O atacante, o artilheiro, o craque, se matando para ajudar na marcação e comete um pênalti claro em cima de Ribéry. Tudo parecia, mais uma vez, destinado ao Bayern. A responsabilidade nos pés de Robben. Ele cobrou, Cech pegou. Nada de decisão no tempo normal. Seria nos pênaltis que o campeão seria definido.

Mais uma vez, a situação ficou com Drogba. O atacante cobraria o último pênalti. Bastava marcar o gol e sair em comemoração. Ele foi para a bola, cobrou com tranquilidade, saiu para o abraço: o Chelsea é campeão europeu. O primeiro time de Londres a ganhar a taça, com um herói que não tinha contrato para começar a próxima temporada. E não começou: mesmo com a taça em mãos, atacante e clube não se acertaram. Ele foi para a China, jogaria na Turquia antes de voltar ao Chelsea para uma última passagem. Aquele capítulo da história foi escrita com Drogba como protagonista em uma das finais mais emocionantes que a Champions League viveu.