No último ano no qual o Saint-Étienne havia levantado uma taça, a Copa da Liga Francesa nem sonhava em existir. Ao derrotar o Rennes por 1 a 0, os Verdes acabaram com um jejum que vinha desde 1981 e agora têm uma oportunidade de ouro nas mãos. Por seu prestígio e por sua história de maior campeão francês de todos os tempos, o ASSE pode usar a taça de um torneio desprezado por muitos significar sua redenção.

A Copa da Liga Francesa nunca despertou grandes paixões e se aproxima de uma competição sem legitimidade. Trata-se de um campeonato de poucos atrativos e visto como um peso para um calendário já sobrecarregado. O torneio tem um sistema de definição de cabeças de chave no mínimo estranho. O reflexo disso está nas arquibancadas, frequentemente vazias. Por mais fatores que denigram a imagem da Copa da Liga, o Saint-Étienne dá de ombros para todo este falatório.

A decisão no Stade de France serviu como um termômetro para testar a popularidade do clube. A resposta foi a melhor possível. Os torcedores do ASSE tomaram de assalto as arquibancadas do estádio em Saint-Denis e a festa na cidade se assemelhava à conquista de um título de primeiro escalão. Esses sinais vitais fulgurantes trazem à luz uma equipe que se reduziu ao nível regional e cuja maior conquista era derrotar o Lyon, seu vizinho que se tornou grande e ocupou o lugar que havia sido seu um dia.

As esperanças de um retorno aos velhos tempos (e que não fiquem apenas no discurso sebastianista) crescem. A paz parece reinar na direção do clube após a dupla Caïazzo/Romeyer se entender na presidência. O planejamento esportivo preza pela coerência e acena com algo durável.

O time atual conta com bons reforços (Lemoine, Cohade, Clerc, Clément), apostas certeiras (Ruffier, Aubameyang, Brandão, Mollo) e jovens de destaque vindos da base (Guilavogui, Zouma, Ghoulam). O técnico Christophe Galtier ajudou a construir um grupo homogêneo e motivado. Deve-se destacar também o sistema de remuneração aos jogadores, baseado no desempenho e que matou dois coelhos em uma só cajadada: reduziu a folha salarial e fez com que os atletas se esforçassem pelo bem coletivo.

O fim da temporada se apresenta doce para o Saint-Étienne, mas o canto da sereia pode ser a classificação para a Liga dos Campeões. Muito embora a LC seja um objeto de desejo, ela tem sido cruel para os clube medianos que dela participam. Exemplos não faltam de times franceses que não estavam à altura da Champions e passaram por problemas após disputa-la: Auxerre, Montpellier, Bordeaux, Toulouse…

A Liga Europa, presente conquistado com o título da Copa da Liga, desenha-se mais adequada hoje para o tamanho e pretensões do Saint-Étienne. Seria um lugar digno dentro desta linha de progressão, já que o ASSE não conta com investidores como um PSG, ou com uma estrutura como a de Lyon, Olympique de Marseille ou Lille. Dentro de um contexto intermediário, os Verdes aparecem com bom potencial de destaque.

Outro passo importante para seu processo de retomada se chama Geoffroy-Guichard. A reforma e adequação do estádio será de fundamental importância para as finanças do clube, já que ele se tornará uma fonte de receitas imprescindível. Caso consiga suportar a pressão e mantenha a inteligência de sua política esportiva, os Verdes estão com um trunfo nas mangas para, enfim, reviver seus momentos de glória.

Dança das cadeiras

A derrota na decisão da Copa da Liga Francesa para o Saint-Étienne foi o catalisador de um processo que parecia encaminhado. Frédéric Antonetti confirmou sua saída do Rennes ao final desta temporada. Com um pé na vaga para a próxima edição da Liga dos Campeões no fim de janeiro, o time entrou em queda livre desde então e amarga uma sequência de nove partidas sem vitória.

A perda do título para os Verdes apenas confirmou que Antonetti já não tinha mais o grupo nas mãos. A decisão da Copa da Liga Francesa era sua última esperança de cumprir seu objetivo desde que assumiu o clube em 2009 no lugar de Guy Lacombe: elevar os bretões ao nível continental. Nada feito. A sonhada vaga na Liga dos Campeões nunca veio e a equipe sempre pareceu hostil à Liga Europa.

Antonetti falhou ao tentar incutir no Rennes a cultura da vitória. Este será o grande desafio de seu sucessor, posto ao qual já aparecem inúmeras opções: Raymond Domenech, Antoine Kombouaré, René Girard e Philippe Montanier. Os rubro-negros precisam mais do que nunca de um choque para deixar sua fama de time que nunca chega e tentar firmar seu nome tanto em âmbito nacional como continental.

No Montpellier, o suspense terminou. O atual campeão francês definiu Jean Fernandez como sucessor de René Girard ao fim desta temporada. O atual treinador, que estava no MHSC desde 2009, havia caído nas graças de Louis Nicollin com a inédita conquista do título da Ligue 1. No entanto, a relação com o presidente do clube azedou em 2012/13, ao ponto de os dois não dirigirem mais a palavra. Com o ambiente tenso, Girard não tinha mais clima para continuar.

Nicollin, conhecido por sua língua solta, não poupou críticas ao trabalho de Girard durante a temporada. Para o presidente, era inadmissível o Montpellier desperdiçar tantos pontos ao longo do campeonato. O que o presidente se esqueceu era que o time não tinha mesmo condições de repetir a temporada mágica – ainda mais com a saída de jogadores fundamentais como Giroud e Yanga-Mbiwa.

Por falar em despedidas, Fernandez terá como primeiro desafio reconstruir o time com o adeus anunciado de outros nomes importantes, como Younès Belhanda. O jeito será trabalhar a permanência de jovens como Rémy Cabella e Benjamin Stambouli. O novo treinador, com perfil de valorizar as categorias de base, parece ser mesmo o nome mais indicado para o Montpellier neste momento de transição. Afinal, quem reparou em um certo Zinedine Zidane quando estava no Cannes merece um pouco de crédito.


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