O ano de 2003 é histórico ao futebol colombiano. Afinal, as coisas “viraram de cabeça para baixo” naquela temporada e dois clubes de cidades menores, fora dos grandes centros, quebraram uma hegemonia de 35 anos que se concentrava entre Bogotá / Medellín / Cali / Barranquilla. Primeiro, o Once Caldas levantou a taça após uma espera de mais de cinco décadas desde seu último título, em 1950. Depois, seria a vez do Deportes Tolima conquistar o seu primeiro troféu. E, ao longo da década passada, se tornou bem mais comum que os “pequenos” se aproveitassem das crises dos papa-títulos para subir ao alto do pódio ou chegar à final. Os grandes se fortaleceram, recuperando o cetro de maneira definitiva em 2011. Mas, depois de 15 títulos consecutivos divididos entre as quatro cidades mais populosas, em especial com o renascimento de Bogotá e o fortalecimento de Medellín, os desafiantes voltam a quebrar a escrita. Um feito histórico do Tolima, quebrando o seu jejum particular de 15 anos. No sábado, em final épica, superaram o Atlético Nacional dentro do Atanásio Girardot e conquistaram o Apertura.

O Tolima surgiu durante o El Dorado do Campeonato Colombiano, em 1954, quando o governador resolveu botar as mãos nos bolsos e contratar jogadores argentinos para estrelar o renovado time no campeonato local. Teve um vice-campeonato em 1957 e voltou a ficar no quase duas vezes no início dos anos 1980 – quando disputou a Libertadores pela primeira vez. No entanto, em suma, era um clube modesto de meio de tabela. O cenário mudou em 2003, graças a uma campanha histórica. Mesmo sendo apenas o sexto colocado na fase de classificação do Finalización, o Tolima eliminou Junior, Atlético Nacional e Independiente Medellín no quadrangular semifinal. Pegaria o Deportivo Cali na decisão. No entanto, apesar da derrota por 3 a 1 em Cali, que revertia os 2 a 0 favoráveis em Ibagué, o Tolima ficou com a taça. Venceu o duelo graças aos pênaltis.

A partir de então, o Tolima se estabeleceu como um clube de pretensões maiores no Campeonato Colombiano. Presidido por Gabriel Camargo, empresário de ligação histórica com a agremiação e presente também nos vices dos anos 1980, passou a montar equipes competitivas com frequência e a emendar participações nas fases finais. Dentro da crise nacional que sofreu o futebol colombiano na virada da década, em 2010, o clube de Ibagué quase renunciou à sua participação na liga. No entanto, conseguiu se reerguer. Além de três vice-campeonatos nos últimos 15 anos, eram frequentes as aparições nas competições continentais. Foram quatro campanhas na Libertadores entre 2004 e 2013, com destaque à classificação sobre o Corinthians em 2011.

Nos últimos anos, o Tolima voltou a pleitear o seu protagonismo. Em 2016, se meteu entre os grandes para disputar a decisão do Finalización, mas não resistiu ao Independiente Santa Fe – em campanha marcada pelas homenagens à Chapecoense na fase final. Já na atual campanha, novo sucesso. O Tolima teve um desempenho digno na etapa de classificação, terminando em terceiro. Mas o melhor viria ao que aprontou nos mata-matas. Primeiro, eliminou o Once Caldas sem muitos sobressaltos, graças aos 3 a 0 em Ibagué. Depois, se tornou o terror dos paisas. Na semifinal, com uma vitória para cada lado, a vítima foi o Independiente Medellín, nos pênaltis. Já na decisão, viria o Atlético Nacional, de energias renovadas sob as ordens de Jorge Almirón.

A vitória verdolaga em Ibagué, por 1 a 0, até parecia encaminhar o título. O Tolima não vencia o Atlético Nacional em Medellín fazia seis anos e, dentro do Atanásio Girardot, os paisas acumulavam 35 partidas de invencibilidade, sem sofrer gols nas dez anteriores. Confiança que se renovou entre os torcedores da casa quando, depois de um gol contra de Campuzano, em chute que desviou e enganou o goleiro Monetti, Vladimir Hernández subiu alto para cabecear e empatar ao Atlético Nacional já aos 21 minutos do segundo tempo. Contudo, o Tolima seria capaz de um milagre nos acréscimos.

Os alviverdes tentavam controlar o relógio e, em meio à cera, Camilo Zúñiga acabou expulso. Batendo o desespero, o Tolima passou a pressionar. Pois somente aos 49 do segundo tempo é que se consumou a vitória por 2 a 1, graças a um gol de Banguero. Cobrança de escanteio pela esquerda, o lateral se antecipou à marcação e desviou de cabeça, mandando por baixo de Monetti. Como em 2003, o clube de Ibagué forçava a decisão aos pênaltis. E na marca da cal, os Pijaos foram bem mais competentes. Converteram todas as suas cobranças, conquistando a vitória por 4 a 2. O goleiro Álvaro Montero era o herói, com duas defesas, em especial a última, parando com os pés o chute ridículo de Vladimir Hernández. Uma década e meia depois, recebiam de volta a taça.

O elenco do Tolima se concentra basicamente entre jogadores formados nas categorias de base e outros pinçados em clubes menores do futebol local. Os poucos atletas mais rodados, com passagens por clubes estrangeiros, figuram no ataque. Além disso, são três contratações internacionais: o goleiro paraguaio Joel Silva, o meia venezuelano Yohandry Orozco e o atacante paraguaio Robin Ramírez. Dão liga a um elenco que no papel não é o mais intimidador do país, mas apresentou suas surpresas – com menção especial ao prata da casa Sebastián Villa, atacante de 22 anos que foi um dos protagonistas da campanha. Já no banco de reservas, Alberto Gamero é o comandante desde 2014, exceção feita a uma frustrada passagem pelo Junior. Campeão nacional com o Boyacá Chicó, volta a levar o troféu após dez anos, valorizando o que faz em Ibagué – onde já tinha faturado a Copa Colômbia, há quatro anos.

É um momento de transição aos grandes na Colômbia, em especial a Atlético Nacional e Independiente Santa Fe, se afastando de seus momentos dominantes, enquanto o Junior não conseguiu justificar na liga nacional os altos investimentos recentes. Mais uma vez, o Tolima marcará o início de uma nova era de alegrias às cidades menores? Difícil dizer. Mas um ponto a se observar é o próprio desempenho continental dos colombianos, destacado ao longo das últimas décadas, mas que deu sinais de enfraquecimento recentemente. Os Pijaos têm uma responsabilidade, voltando diretamente à fase de grupos na Libertadores 2019.