“Quando o gato sai, os ratos fazem a festa”. Aparentemente, os ratos da Fifa não encontravam um gato há muito tempo e parece que haverá muito a arrumar na bagunça que a casa ficou. A entrevista do procurador-geral da Suíça nesta segunda-feira revelou pouco sobre a investigação na Fifa, mas pareceu mais uma prestação de contas em um assunto que continua rendendo muitas manchetes ao redor do mundo. Também serviu como aviso para os altos dirigentes da Fifa, os conspiradores e co-conspiradores que ainda estão por aí, vendo a luz do dia, e não em uma cela. Foram encontradas 53 transações bancárias suspeitas nos documentos da entidade que comanda o futebol mundial. O aviso foi: calma que é só o começo.

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“Nós estamos diante de uma investigação complexa com muitas implicações internacionais”, declarou o procurador-geral, Michael Lauber. As autoridades suíças coletaram nove terabytes (NOVE TERABYTES, pouco menos do que toda o acervo da biblioteca do Congresso Americano, que tem 10 TB, para se ter uma ideia) de dados nos computadores da Fifa, na última semana de maio – aquela mesmo que o FBI fez com que todos nós acreditássemos em seriados americanos e fez uma operação em Zurique levando sete dirigentes presos de um hotel de luxo, antes do Congresso da Fifa.

“Não seria profissional comunicar neste momento uma agenda detalhada. O mundo do futebol precisa ser paciente. Pela sua natureza, esta investigação levará mais do que os lendários 90 minutos”, disse ainda o procurador, fazendo graça com a duração de uma partida de futebol. O procurador disse que Joseph Blatter, presidente da entidade, e Jérôme Valcke, secretário-geral, podem ser convocados para dar depoimentos sobre o caso. “Haverá interrogatórios formais com todas as pessoas relevantes. Por definição, isso não exclui interrogar o presidente da Fifa e não exclui de interrogar o secretário-geral da Fifa”, declarou.

A investigação é só a ponta da iceberg, algo que temos repetido com frequência por aqui. As autoridades suíças estão de olho na Fifa porque, por anos, o país foi leniente com o tratamento de contas bancárias de corporações, se tornou um paraíso fiscal para quem quisesse lavar dinheiro.

A pressão da Europa ocidental e dos Estados Unidos fez com que algumas coisas mudassem, como por exemplo a inclusão de suborno como crime no país – até os anos 1990, não era, razão pela qual Ricardo Teixeira, mesmo tendo sido condenado a devolver dinheiro que recebeu irregularmente como suborno, não ter ficado preso no país na época da sentença, em 2012. Os atos praticados eram imorais, mas não eram crimes nos anos 1990. Desde então, o quadro mudou. Agora, as autoridades suíças parecem dispostas a colocar pessoas atrás das grades por conta de crimes de colarinho branco.

Segundo Lauber, a investigação suíça encontrou 104 relacionamentos entre bancos e clientes, cada um deles representando diversas contas bancárias. A unidade de Inteligência Financeira Anti-Lavagem de Dinheiro da Suíça identificou 53 transações suspeitas com informações fornecidas pelos bancos. Sim, os bancos suíços estão colaborando porque a chapa está esquentando para eles também. O terceiro maior banco suíço, Julius Baer, anunciou que está fazendo uma investigação interna em relação à Fifa. O banco afirmou que está colaborando com as autoridades e não informou quando a investigação interna começou.

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Copa 2018 e 2022 no radar

As autoridades suíças conduzem uma investigação criminal que tem como alvo especificamente a escolha das sedes das Copas do Mundo de 2018 e 2022, respectivamente vencidas por Rússia e Catar. Quando o procurador-geral foi perguntado se as investigações poderiam atrapalhar os planos da Rússia, Lauber disse que a decisão “não era problema seu”.

Os dois países já passaram por uma investigação interna da Fifa, conduzida pelo ex-procurador de justiça de Nova York, Michael Garcia, e saíram ilesos. Mas Garcia não ficou satisfeito, porque o relatório produzido por ele não foi publicado e o resumo que foi divulgado, segundo ele, deixou muitas coisas escondidas – e inocentou tanto Catar quanto Rússia dizendo apenas que embora houvesse algumas irregularidades, nenhuma delas estava ligada às candidaturas dos dois países.

Ainda segundo Lauber, a investigação conduzida na Suíça é completamente independente da que está sendo feita nos Estados Unidos. A sua investigação está olhando com atenção o material gerado por Michael Garcia. Segundo Lauber, o relatório não foi solicitado pelas autoridades americanas. A justiça suíça auxiliou os americanos na operação do FBI em Zurique, no dia 27 de maio.

O procurador-geral não se mostrou muito preocupado em atrapalhar planos de dirigentes da Fifa por causa da investigação. “Eu não me preocupo com a agenda da Fifa, eu só me preocupo com a minha própria agenda”, declarou Lauber aos jornalistas presentes à coletiva de imprensa, em Berna.

Dá para dizer que muita gente na Fifa – e em diversas outras entidades esportivas que estrategicamente têm sua sede no país, como a própria Uefa – está de cabelo em pé. Esperamos que seja mesmo só o começo de uma investigação séria sobre o que acontece no esporte, porque, como dizem em todo filme americano que tem crime de colarinho branco, basta seguir o dinheiro que as coisas aparecem.

(Com informações da Reuters)

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