O The Players’ Tribune influenciou o trabalho de outras páginas ao redor do mundo. Uma delas é a The Coaches’ Voice. De uma maneira parecida, aproveita para dar voz a importantes treinadores. Nesta semana, o escolhido para protagonizar um artigo é Diego Simeone. O comandante do Atlético de Madrid assinou uma bela carta, em que fala sobre a maneira como vê a sua função e a relação que possui com os clube de sua vida. Não é um texto tão bem escrito / editado ou emotivo como os que se veem no Tribune, mas possui as suas virtudes. Abaixo, traduzimos o conteúdo. O original pode ser conferido neste link, em inglês.

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Quase impossível

Meu filho mais novo, Giuliano, mergulhou o croissant dele no leite, deu uma mordida e olhou para mim.

“Mas pai, se você for bem, não vai voltar”.

Eu me lembro deste dia muito bem. Foi aquele em que recebi o telefone que mudou tudo.

A ligação do Atlético de Madrid, dizendo que eles gostariam de falar comigo. Aquele sobre eu me tornar treinador do clube.

Naquela época, eu estava em Mar del Plata, passando alguns dias com Giuliano. Ele tinha apenas oito anos e estávamos sentados tomando café quando eu disse a ele:

“Olhe, uma chance chegou para ir ao Atlético de Madrid, e não sei o que fazer”.

Giuliano pensou no assunto.

“Você vai treinar Falcao? Vai jogar contra Messi? Contra Ronaldo?”.

O menino estava dizendo tudo isso a mim. E eu respondia que sim. Quando mergulhava o croissant no leite, ele disse aquelas palavras: “Pai, se você for bem, não vai voltar”.

Há dois lados nisso, é claro. Em uma mão é a sorte, porque quero me sair bem. Mas no outro é o azar, porque eu não veria meus filhos crescendo.

Eu tinha 27 ou 28 anos quando realmente decidi que deveria me tornar técnico. Eu ia do treino para casa – jogava na Lazio – pegava uma pasta e fingia que estava realizando uma sessão de treinamento.

Você sabe a maneira como as crianças imaginam coisas, quando estão brincando? Eu fiz o mesmo já como adulto, brincando de ser treinador. Eu usei minha equipe e me vi orientando partes do treinamento. Eu imaginei a próxima partida e planejei tudo o que eu precisava.

No fim do dia, eu estaria cercado por folhas de papel, cada uma coberta com desenhos ou anotações. Eu gostava de escrever tudo.

Fazer todas essas coisas começou a gerar muito entusiasmo em mim.

Como técnico, a maior paixão que você pode ter é melhorar seus jogadores. Obviamente, ser campeão é tudo o que nós queremos, mas eu acho que o melhor “campeonato” para um técnico é ver jogadores como Koke, Lucas Hernández, Ángel Correa – rapazes que subiram todos os degraus desde as divisões inferiores – se tornarem profissionais de alto padrão.

Quando chegou a hora de me aposentar como jogador e começar a ser técnico, eu estava de volta à Argentina, encerrando a carreira no Racing. A primeira vez que me ofereceram o trabalho de treinador, eu entendi que deveria dizer não. A segunda vez? O mesmo.

Na terceira vez, eu disse sim.

O time estava é péssima forma, eu sabia disso. Também conhecia os jogadores, porque era companheiro deles e acreditava que poderíamos fazer um bom trabalho.

A crença foi testada imediatamente.

Sentar no banco pela primeira vez é a coisa mais difícil que um técnico precisa atravessar. Para mim, demorou um pouco para ficar mais fácil.

Perdemos os três primeiros jogos. Sequer marcamos um gol

As pessoas no Racing estavam muito nervosas. Existiam vários problemas – várias experiências que tivemos que superar – mais isso nos deu forças. Isso nos deu mais confiança naquilo que acreditávamos.

Isso me trouxe de volta ao Atlético de Madrid.

Quando deixei o clube em 2005, era como um jogador que não estava participando muito com o time. E sabiam muito bem que minha presença não funcionava, porque eu não dava tranquilidade ao técnico.

Por que? Por causa do nome que você tem, à medida que envelhece, e pelo efeito que isso exerce sobre jornalistas, torcedores e toda a situação ao redor.

Mas a partir deste momento em que deixei Madri, comecei a preparar meu retorno.

Eu sabia que encerraria minha carreira na Argentina e começaria treinando lá. Mas, de alguma forma, também sabia que a oportunidade viria para treinar o Atlético em um momento difícil, então me preparei.

Quando isso aconteceu, eu não pensei muito no que deveria dizer no primeiro encontro com os jogadores. Eu não sou alguém que prepara com muitos detalhes o que direi, tento ser espontâneo. Para falar como eu sinto.

Eu sabia que tinha uma vantagem. Por cinco anos e meio, joguei no clube. Conhecia os roupeiros, os funcionários, o presidente, as cadeiras do Vicente Calderón, as pessoas sentando nelas… todo esse conhecimento me deu a chance de olhar diretamente o que eles queriam.

As pessoas do Atlético sempre quiseram um time competitivo. Um time que fosse forte na defesa. Um time que pudesse jogar nos contra-ataques e fosse um incômodo aos adversários mais poderosos.

Meu objetivo estava focado nisso.

Quando cheguei, os jogadores não estavam passando por um momento positivo – estavam em 10° no Espanhol e tinham sido eliminados pelo Albacete na Copa do Rei. Mas eu acreditei que eles poderiam dar às pessoas o que desejavam.

Havia uma conexão muito forte entre as pessoas e os jogadores. E, como sempre acontece no esporte, as pessoas são absorvidas por esta paixão. Isso é futebol.

O verdadeiro ponto de partida veio cinco meses depois de minha chegada. Ganhar nossa primeira Liga Europa juntos foi o início de um novo e importante ciclo. Um ciclo que significava nosso comprometimento. Aquele que nos permitiu ver os fatos claramente.

Sem dúvidas, essa Liga Europa foi o início para o grupo – um grupo que, desde o início, sabia o que queria.

Lutar contra os maiores.

Ganhar o Campeonato Espanhol, competindo com Real Madrid e Barcelona, é quase impossível. Ao longo desta décadas, estes dois times vinham sendo uma força tremenda, com jogadores inacreditáveis.

Mas com trabalho duro, continuidade e perseverança, bem como com grandes jogadores – porque, sem grandes jogadores, você não pode conseguir isso – nós tornamos o quase impossível em possível.

Como? No dia a dia, continuamos acreditando naquilo que estávamos fazendo. E em minha segunda temporada completa como técnico, tivemos nossa chance.

Vimos que um desses dois times – o Real Madrid – saiu um pouco do caminho. Então fomos para cima do que sobrou, o Barcelona.

No dia final da temporada, chegamos ao Camp Nou precisando de pelo menos um ponto para conquistar o título. Precisando nos impor no estádio deles.

Precisando fazer algo que é quase impossível.

Depois do apito final, junto com Germán Burgos, meu assistente, eu comecei a rir. Sabíamos que poderíamos ganhar o título, mas quando isso se confirmou, a primeira coisa que senti foi alegria. E depois disso? É difícil de explicar. É uma mistura de sentimentos.

Essa temporada é uma que certamente será lembrada na história do futebol espanhol.

Mas no futebol, é impossível realmente parar e pensar e aproveitar, porque enquanto você está dormindo, alguém está trabalhando. Algumas vezes imaginamos se é possível, levando em conta diferentes fuso horários, trabalhar 24 horas por dia: um trabalhando aqui, outro lá, então ninguém está dormindo.

Porque o futebol é um mercado duro.

Nós não temos as opções dos super-poderosos, de gastar €150 ou €200 milhões em um jogador. Então, temos que tentar ser criativos, manter em mente o que precisamos para fazer o time melhor e quais partes da equipe estamos desenvolvendo.

Ano após anos, adicionamos mais coisas a isso.

Significa que temos que trabalhar muito e não podemos falhar quando vamos contratar um jogador que vai fazer o time melhor.

Isso soa cansativo, eu preciso dizer. Quando se ora e se está perto dos pensamentos, a única coisa que peço é energia. Peço energia para permanecer calmo e comunicar o que sinto. Essa é a coisa mais difícil de sustentar, porque de um dia para o outro pode simplesmente se desligar.

Você pode ver algumas influências da minha carreira como jogador na maneira como sou técnico. Sem dúvidas, há sinais da Itália e da Espanha reunidos em um treinador que muitas pessoas dizem ser defensivo.

Mas realmente, jogar e treinar são duas vidas diferentes.

Quando você é um jogador, além de saber sobre as necessidades da equipe, você precisa pensar em si. Como técnico, é o oposto. Você precisa ver tudo. Você precisa tentar tornar tudo bom, minimizar as forças de seus rivais e melhorar as suas.

Acima de tudo, você tem que ser forte, porque durante toda a temporada, muitas vezes você precisa vir à tona e dizer as palavras certas no momento certo, para que os jogadores possam segui-lo.

Para achar essas palavras certas, você precisa ter a mente aberta. Ouço muito. Pergunto muito. E então, bem, termino fazendo o que penso ser o melhor para todos.

Não é diferente do que eu fiz naquele café da manhã em Mar del Plata, quando disse a Giuliano: “Eu não sei o que fazer”.

Sete anos depois, tenho que dizer que o Atlético é minha vida – eu tenho 13 anos de história ligada a um clube.

Treze anos de história fazendo o quase impossível.