A próxima Data Fifa marca o fim de uma era à seleção holandesa. Jogador com mais partidas disputadas pela Oranje, Wesley Sneijder se despedirá da equipe nacional. O amistoso contra o Peru, na Johan Cruyff Arena de Amsterdã, servirá para que a torcida festeje o ídolo, responsável por grandes momentos da equipe nacional ao longo dos últimos 15 anos – e também símbolo do envelhecimento nos insucessos recentes. Diante do momento, o veterano concedeu uma ótima entrevista ao jornal AD, em que repassa os principais momentos de sua trajetória vestindo laranja. Abaixo, destacamos os principais trechos da conversa, confira:

As memórias da infância

“Nós nunca tínhamos acesso aos jogos em casa, mas quando a seleção jogava, íamos para a rua. Sentávamos com a vizinhança inteira para assistir à Eurocopa ou à Copa do Mundo. Sim, aqueles foram os verões mais bonitos da minha juventude. Eu aprendi o quanto a seleção significa ao país”.

O primeiro ano na seleção

“Junto com Paul Bosvelt, eu estava fora do elenco para o primeiro jogo contra a Escócia, pela repescagem da Euro 2004. Eu lembro que entramos no vestiário para desejar sorte e Dick Advocaat nos expulsou. Nós éramos uma ‘distração’ e não pertencíamos àquele ambiente. Minha ausência não era uma surpresa. Eu havia estreado meses antes, mas tinha apenas 19 anos, fui para acompanhar. Estava muito nervoso na primeira vez em Huis ter Duin (a base da seleção). Eu me sentei quieto na mesa durante o jantar e não me atrevi a dizer uma palavra. ‘Wesley, segure sua cabeça ou vou ficar bravo com você’, Frank de Boer disse depois de um tempo. Todo mundo riu. Mas quando estávamos no aeroporto depois do jogo de ida contra a Escócia, Van der Sar veio a mim e falou: ‘Apostamos que você joga a volta’. A partir desse momento, algo mudou. Eu não me sentia mais nervoso. Nunca poderia sonhar que ganharíamos por 6 a 0. Quando Frank de Boer marcou a partir de um escanteio que cobrei, minha quarta assistência, ele correu aos meus braços sorrindo. O grande Frank de Boer veio comemorar comigo um gol! Inesquecível. Foi uma ocasião que mudou a minha vida para sempre”.

Copa de 2006

“De todos os torneios, o que eu tenho menos lembranças é a Copa de 2006. Sim, aquele jogo contra Portugal em Nuremberg, com todos os cartões. Não importa o quão maluco isso soe, a Eurocopa dois anos antes foi mais importante para mim. Joguei apenas meio tempo em um jogo e 15 minutos em outro, mais apenas que Patrick Kluivert. Mas ainda assim foi minha primeira grande competição”

Euro 2008

“Quando olhamos pela janela de nosso hotel, vimos uma multidão laranja de torcedores que passavam pela ponte em Berna, a caminho ao estádio. Eu nunca me esquecerei da imagem daquela caravana alegre. Durante a Eurocopa e a Copa do Mundo, você está completamente desconectado do mundo exterior. Você dificilmente consegue ver o que acontece nas ruas. Mas em Berna, estávamos sempre no meio disso. Quando chegamos ao estádio, o motorista dirigiu ao lado da torcida de propósito. Estávamos imersos naquela atmosfera. Nós nos divertimos muito. Acho que nunca jogamos tão bem na seleção quanto naquelas partidas contra França e Itália. Eu entendo que as pessoas sempre falam sobre 2010, mas pessoalmente acho que 2008 foi meu melhor desempenho, porque joguei de uma forma mais versátil, mais completa. O que deixa uma memória dúbia, porque contra a Rússia de repente estávamos fora do torneio. Jogamos a partida de nossas vidas, mas tudo deu errado”.

Copa de 2010

“Na verdade, eu deveria estar no limite da área esperando a sobra. Mas por uma razão inexplicável, caminhei em direção ao gol de Júlio César. Exatamente lá, a bola caiu na minha cabeça: 2 a 1. Como se estivesse predestinada. No entanto, a união nos vestiários foi a parte mais importante daquele dia. No primeiro tempo, tivemos muito respeito ao Brasil. Graças a Stekelenburg o jogo não estava decidido. Mas no intervalo, algo mágico aconteceu. Eu tomei a palavra, outros falaram e, em certo momento, todos começaram a gritar. Tudo estava certo, exceto por aquele dedo de Casillas, uma semana depois. Eu fiquei um pouco atrás de Robben depois que dei o passe. Parecia que a bola entraria. Eu estava convencido que seria gol, sentia isso. Até que Arjen pôs as mãos na cabeça e eu percebi o que aconteceu. Nunca mais assisti àquele jogo. É muito doloroso”.

Euro 2012

“Na África do Sul, a hierarquia estava traçada de A a Z. Todo mundo sabia o seu papel, incluindo os reservas. Dois anos depois, isso era muito diferente. As relações dentro da equipe, com quase os mesmos jogadores, começaram a mudar. Você podia perceber que as coisas estavam erradas com a distribuição dos números. Diferentes jogadores se sentiram prejudicados. Falamos muito, tentamos levar as coisas de volta ao rumo certo, mas havia muita irritação dentro do time”.

Copa de 2014

“Fiquei realmente furioso quando perdi a braçadeira em 2013. Precisava desabafar não apenas pelo que acontecia, mas pela forma como aconteceu. Fui acusado de sair na noite depois do jogo contra a Estônia. Com isso, eu tinha quebrado as regras internas. Mas não era o caso. Era o aniversário da minha esposa e nós fomos jantar, não fiquei fora até tarde ou cometi extravagâncias. Esperávamos dois amistosos contra Indonésia e China. Depois desse anúncio, Van Gaal disse que entenderia se eu fosse para casa. Mas isso nunca foi uma opção para mim, continuei no grupo. Van Gaal não é o cara com quem sairia de férias. Mas tenho grande admiração pela habilidade dele. A forma como ele te trata não é meu estilo, mas ele é muito bom nos treinamentos e nas análises. A motivação sempre veio de mim, mas tenho que admitir que isso funcionou. Ao me ferir profundamente, eu joguei a Copa de 2014”.

O final melancólico

“Em 15 anos, eu realmente experimentei de tudo com a Holanda. Sou muito orgulhoso disso. Sucessos, insucessos, problemas, euforia, ótimas fases. Bons momentos, maus momentos e tudo o que se encontra no meio disso. A derrota para a Islândia foi o ponto mais baixo, porque nos demos conta que era o fim de uma era. Depois, nunca deveria ter jogado na derrota por 4 a 0 para a França, nas Eliminatórias da Copa. Eu estava apenas começando no Nice. Mas não seria diferente, estávamos fora de forma. Eu tinha dificuldade com isso: a facilidade com a qual jogadores optavam por ficar de fora nos últimos anos. Especialmente nos momentos ruins, você precisa permanecer. Jogar pela seleção não é algo corriqueiro. percebi isso do meu primeiro ao último jogo. Todas as vezes era especial. Todos os jogos e todos os lugares para onde fui são queridos por mim. Não perderia isso por nada”.