*Por Leandro Stein, com colaboração de Pedro Reinert

Historicamente, o torneio de futebol dos Jogos Asiáticos (uma versão do Pan-Americano que se disputa do lado de lá do mundo) tem pouca relevância. O ouro representa um grande título a países sem tanta tradição, mas a verdade é que poucos se lembram da existência da competição. Uma partida de futebol, porém, pode se tornar muito maior do que realmente é graças a uma grande história. E o enredo desta edição dos Jogos Asiáticos ofereceu seu drama. A Coreia do Sul possui serviço militar compulsório. Todos os homens entre 18 e 35 anos precisam atuar pelas forças armadas por 24 meses. E isso inclui os esportistas, obviamente. Todavia, há uma exceção. Medalhistas olímpicos ou ganhadores do ouro nos Jogos Asiáticos perdem a obrigação. Têm que cumprir alguns requisitos, como quatro semanas de treinamento militar, mas em condições bem mais brandas. Liberdade que Son Heung-min e seus companheiros conquistaram neste sábado, ao vencerem o Japão por 2 a 1 na prorrogação e botarem o ouro no peito.

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Outros jogadores de futebol da Coreia do Sul já haviam desfrutado da mesma exceção. A primeira vez que isso aconteceu foi em 2002, quando o governo sul-coreano ofereceu o incentivo para os anfitriões da Copa do Mundo, caso eles superassem seu delicado grupo na primeira fase do torneio. Acabaram indo muito além, com a histórica campanha até as semifinais. Por conta do questionamento de atletas de outras modalidades, em 2007 o estado sul-coreano decidiu estabelecer a anistia pautada apenas nas medalhas olímpicas ou no ouro asiático, como citado acima – nada mais de Copa do Mundo. Assim, em 2012, a equipe de futebol que conquistou o bronze nos Jogos Olímpicos escapou do dever. Dois anos depois, seria a vez de conquistar os próprios Jogos Asiáticos. Já neste ano, a competição continental mais uma vez ganhou um contorno extra aos futebolistas do país, o que se notou na atual edição.

O torneio de futebol nos Jogos Asiáticos conta com o limite de idade de 23 anos, embora a maioria dos elencos seja composta por jogadores sub-21, visando a próxima edição das Olimpíadas. Os sul-coreanos contaram com uma equipe recheada de jovens, mas também atletas importantes, visando a oportunidade. O ataque teve Hwang Hee-chan, recentemente emprestado do Red Bull Salzburg ao Hamburgo, e Lee Seung-woo, do Verona, ambos sub-23 presentes na Copa do Mundo de 2018. Já as atenções se voltavam a Son Heung-min. O ídolo do Tottenham era um dos três jogadores acima do limite de idade, ao lado do goleiro Jo Hyeon-woo (ótimo no Mundial) e do atacante Hwang Ui-jo. E ninguém estava mais interessado na anistia que o camisa 7.

Son deixou o país aos 16 anos, quando se transferiu às categorias de base do Hamburgo. Passou o início de sua vida adulta na Alemanha e na Inglaterra. Chamado aos Jogos Olímpicos de 2012, preferiu focar em sua carreira no HSV e viu de longe os compatriotas ganharem a liberação, com a medalha de bronze. Já em 2014, não contou com a compreensão do Leverkusen, que não o liberou aos Jogos Asiáticos. Esteve nas Olimpíadas de 2016 como uma das referências do time, mas a eliminação aconteceu nas quartas de final, com a derrota para Honduras. Aos 26 anos, já estava próximo da idade limite para se apresentar ao exército.

Conforme a legislação de seu país, um cidadão que nunca teve contato com o serviço militar pode se abster da obrigação até completar 27 anos, quando então precisa se alistar. Caso não vencesse o ouro nos Jogos Asiáticos, Son teria que retornar à Coreia do Sul antes de julho de 2020 e jogar fora dois anos do auge de sua carreira no futebol europeu, para integrar as forças armadas. Por não ter um diploma de ensino superior, o atacante não se tornaria um soldado. Teria que trabalhar no serviço cívico do exército, em tarefas ligadas a instituições públicas locais (escolas, hospitais e afins) ou na burocracia dos órgãos do governo. Além disso, ao abandonar a faculdade para se mudar à Alemanha, o camisa 7 sequer poderia atuar no Sangju Sangmu, time da primeira divisão local composto por recrutas, que só aceita atletas graduados ou ainda que não entraram na universidade. Sua alternativa para manter a forma seria a quarta divisão.

Até existiriam possibilidades para Son escapar do serviço militar compulsório. Uma delas seria sofrer uma lesão grave. Outra, receber a concessão do governo para postergar seu alistamento, algo raríssimo de acontecer. Poderia ainda recorrer à justiça em busca dos Jogos Olímpicos de 2020, situação não menos simples de se arranjar na rigidez do sistema local. Por fim, poderia ignorar a apresentação às forças armadas e migrar legalmente a outro país, o que implicaria a não mais retornar à Coreia do Sul. A vitória nos Jogos Asiáticos se sugeria realmente o mais simples do caminho, por mais que implicasse em uma responsabilidade enorme ao jogador.

A ótima Copa do Mundo foi apenas um prólogo a Son, fundamental na histórica vitória sobre a Alemanha no encerramento da fase de grupos. Menos de dois meses depois, recebeu a braçadeira de capitão e tinha uma tarefa a cumprir nos Jogos Asiáticos da Indonésia. Pois logo na fase de grupos a Coreia do Sul correu os seus riscos. Com o camisa 7 no banco, goleou o Bahrein na estreia, mas perdeu para a Malásia em seguida. O atacante estreou na terceira rodada, sob a necessidade de vitória sobre o Quirguistão para não ficar pelo caminho. Foi dele o gol no triunfo por 1 a 0. Na inchada competição, restariam mais quatro jogos pela frente.

Nas oitavas de final, um pouco mais de tranquilidade, com a vitória por 2 a 0 sobre o Irã. Nas quartas, desafio bem maior contra o Uzbequistão. A Coreia do Sul esteve duas vezes em vantagem, mas permitiu a virada dos adversários e precisou buscar o empate aos 30 do segundo tempo. Numa cardíaca prorrogação, o gol do triunfo por 4 a 3 saiu apenas aos 13 do segundo tempo extra, em pênalti cobrado por Hwang Hee-chan. Flagrado no momento, Son sequer olhava para o companheiro na marca da cal. Já nas semifinais, vitória mais sossegada sobre o Vietnã por 3 a 1. A decisão aconteceria em clássico contra o Japão, interessado em se preparar às Olimpíadas de 2020, que disputará em casa.

Buscando o ataque, a Coreia do Sul teve mais chances de marcar no primeiro tempo da final. Em contrapartida, a melhor oportunidade foi do Japão, negado por uma grande defesa do goleiro Jo Hyeon-woo. Já o segundo tempo perdeu intensidade e os sul-coreanos precisaram encarar mais uma prorrogação. Voltaram ao primeiro tempo extra prontos para resolver. Lee Seung-woo e Hwang Hee-chan acabam creditados com com os gols, mas o cara mesmo foi Son, que preparou a jogada no primeiro tento e cobrou a falta (que ele mesmo sofreu) para o companheiro ampliar a diferença. Nos 15 minutos finais, a Coreia sentiu a ocasião e permitiu que o Japão pressionasse, descontando. O apito final, entretanto, guardou algo maior que o ouro – o quinto da equipe na história do torneio de futebol e o de número 48 do país na atual edição dos Jogos Asiáticos, terceiro no quadro de medalhas.

As imagens de Son depois da partida são emblemáticas. Se a apreensão ficou escancarada ao longo do torneio, ele não escondeu a euforia pela conquista. Substituído nos acréscimos para receber os aplausos da torcida, o capitão saiu em disparada do banco de reservas, com um enorme sorriso no rosto, abraçando os seus companheiros. Depois, desabaria em lágrimas no caminho dos vestiários. Poderá seguir sua carreira em alto nível no Tottenham, certamente mais leve para retomar a sua jornada com o clube e superar a temporada excelente que já viveu em 2017/18. Assim como ele, outros companheiros não terão a mesma barreira em suas trajetórias. Lee Seung-woo e Hwang Hee-chan, que também chegaram cedo à Europa, poderão se desenvolver no continente – embora, por serem mais jovens, ainda encontrassem outras chances nas próximas competições. Ao camisa 7, o limite desapareceu no último instante.

O ouro, que seria uma nota de rodapé no noticiário do futebol mundial, no fim das contas se transforma em enredo de filme. E, o mais bacana, com final feliz.

PS: Para mais detalhes sobre as questões “legais” relacionadas ao serviço militar na Coreia do Sul, recomendo “Como Son ainda pode escapar do serviço militar – e por que isso não tem nada a ver com a Copa”, excelente matéria assinada por Pedro Reinert aqui na Trivela em junho, durante a Copa do Mundo, e que serviu de base a primeira parte do texto acima.