Marcar um gol olímpico é das missões mais difíceis do futebol. E não é apenas uma questão de botar a curva ideal na bola para que ela saia do escanteio rumo às redes adversárias, parábola necessária para suavizar a dureza da linha de fundo. Quase todo gol olímpico, afinal, vem com defeito de fábrica. Não por culpa do autor, que às vezes nem tem a real intenção de fazer aquilo. O problema quase sempre está na pequena área, entre goleiros que falham bisonhamente, zagueiros que furam, um desvio fortuito que acaba contribuindo para a bola entrar. Assim, quando um gol olímpico perfeito sai, o mínimo que se deve fazer é aplaudir de pé. Agradecer pela obra de arte que se concretiza diante dos olhos, traçada com uma pincelada insinuante de pés precisos. Foi isso que fez Júnior Sornoza em pleno Maracanã. Um golaço para ficar impregnado na memória da torcida do Fluminense.

A noite pela Copa Sul-Americana testou os nervos do Fluminense. O Defensor fez jus ao seu nome e veio ao Rio de Janeiro para fechar a casinha no jogo de ida. Pior do que isso, gastava o tempo irritantemente. Os tricolores dominavam a posse, mas tinham dificuldades para se aproximar da meta adversária. Já no segundo tempo, as chances começaram a aparecer. O goleiro Reyes se destacava. O caminho só se abriria aos 41 minutos, a partir de um escanteio de Sornoza. O cruzamento saiu na medida a Digão, que cabeceou rumo ao alto. Alívio e tranquilidade que permitiram o lance da noite, já nos acréscimos.

Sornoza voltou à esquina do campo, a outra, ideal ao seu pé bom. Posicionou-se para bater na bola, sem a mesma confusão dentro da área que o desespero anterior promovia. Os jogadores de linha se posicionavam fora da pequena área. Apenas o goleiro Reyes estava mais próximo do gol, um tanto quanto adiantado. Foi quando o equatoriano teve o estalo. A ideia que permitiu a felicidade.

O chute caprichoso subiu e se distanciou da linha de fundo. O goleiro do Defensor parecia não acreditar muito no movimento da bola. No momento em que se deu conta do que realmente acontecia, era tarde demais. A bola traiçoeira caiu. Mais importante que isso, voltou à direção da linha de fundo. Alguns podem até se questionar o posicionamento do arqueiro, seu salto, mas nada disso menospreza o que aconteceu naquele cantinho do Maraca. A finalização magistral só tinha um destino, a bochecha das redes. O raro gol olímpico perfeito, que talvez nem com mais dois uruguaios em cima da linha pudesse ser evitado. O sorriso no rosto do meia expressava a arte que imaginara e que concluíra com boa dose de genialidade.

Na saída de campo, Sornoza admitiu que era aquilo mesmo que desejava fazer. E o lance não dá muitos indícios de que estaria mentindo. Tamanho acerto depende do capricho, e dá para perceber o que ele espera, pela maneira como para ao lado da bandeira, só aguardando o momento de correr para o abraço. O equatoriano é bom de bola. Já tinha provado isso em seus tempos de Independiente del Valle ou mesmo no Flu, apesar de ter sido atrapalhado por lesões. Mas que não jogue mais nada com a camisa tricolor, vai estar sempre na lembrança. A partir de agora, o seu gol olímpico será menção imediata e obrigatória quando se falar sobre a passagem pelas Laranjeiras. Divinal.