Quando se cruzarem em campo nesta terça-feira, em São Petersburgo, franceses e belgas terão vários adversários íntimos. N’Golo Kanté e Olivier Giroud se verão do lado contrário a Eden Hazard e Thibaut Courtois, seus companheiros de todos os dias no Chelsea, da mesma maneira que Paul Pogba precisará encarar Romelu Lukaku e Marouane Fellaini. E isso se espalha aos colegas de Tottenham, Manchester City, Barcelona, Paris Saint-Germain e Monaco, sem contar os outros tantos que já foram parceiros de clube em momentos anteriores das carreiras. Há certa ligação também nas origens em comum, considerando o número notável de jogadores belgas com ascendência congolesa, reflexo do colonialismo, e os muitos franceses que vêm da mesma comunidade de imigrantes que se estabeleceu em seu país. No entanto, não existe um personagem que una mais os dois povos do que o homem de 40 anos sentado no banco de reservas da Bélgica. Do que o velho craque admirado pelos dois lados. Do que a lenda que recebe as reverências de azuis e vermelhos: Thierry Henry.

Já são quase dois anos como assistente da Bélgica, desde agosto de 2016. Henry chegou ao time ao lado de Roberto Martínez, em meio à crise de confiança gerada por outra campanha abaixo do potencial, com a queda relativamente precoce na Euro 2016. Servia de referência ao grupo, de auxiliar ao comandante principal. Mas, indo além, era alguém que sustentava uma relação de fã e ídolo com a maioria absoluta dos atletas, por tudo o que viram o atacante fazer com a camisa do Monaco, do Arsenal, do Barcelona ou da própria França. Adoração que, hoje, talvez desponte certos ciúmes nos próprios Bleus, como foi possível notar em algumas manchetes da imprensa local. Quis o destino que ambos os países se cruzassem nas semifinais de um Mundial e Henry, por força do ofício, se colocasse ao lado dos Diabos Vermelhos, depois de tudo o que estrelou com a seleção francesa.

Como jogador, Henry disputou quatro Copas do Mundo. Em 1998, era apenas um jovem que não se firmou totalmente como titular dos Bleus, mas teve o gosto de se proclamar campeão do mundo. Quatro anos depois, já estabelecido como um craque, experimentou o dissabor da eliminação na fase de grupos, contribuindo a isso com uma expulsão diante do Uruguai. Já em 2006, finalmente viveu o seu ápice com a seleção francesa durante o Mundial, anotando três gols no torneio – inclusive o que garantiu a classificação histórica sobre o Brasil nas quartas de final. Foi eleito entre os melhores da competição, apesar do maior prêmio não ter se consumado novamente na final diante da Itália. E depois da polêmica classificação rumo a 2010, renegado por muitos, teve seu ocaso na bagunça que minou as ambições gaulesas logo na primeira fase.

Henry viveu o melhor e o pior de uma Copa do Mundo. Conhece muito bem os meandros do torneio. Por seu trabalho como comentarista, também percebe-se a maneira didática como sabe transmitir os seus conhecimentos, com uma inteligência acima do comum também nas palavras, repassando sabedorias e vivências. Não à toa, essa força mental que pode agregar é fundamental a Roberto Martínez. “Ele trouxe algo que não tínhamos. Não tínhamos experiência internacional, o know-how de como ganhar uma Copa do Mundo e ter a expectativa de jogar o melhor no momento de maior pressão. Thierry nos traz isso, a calma, o entendimento sobre como jogar. É muito atento aos detalhes. Ele está sendo uma peça perfeita que faltava em nosso grupo”, comenta o treinador.

Mais do que isso, Henry atua como um conselheiro, sobretudo aos homens de frente. Poucos dominaram tão bem as artes do ataque quanto o francês ao longo dos últimos anos, algo que ele tenta perpetuar. Quando se olha Romelu Lukaku em campo neste Mundial, e se percebe todo o máximo potencial do jovem centroavante sendo explorado, há um quê de Henry em alguns gestos técnicos, na potência que entra em simbiose com a habilidade, na maneira como procura o jogo. Também é por isso que a velha lenda está por lá, auxiliando a refinar o talento inegável dos atacantes dos Diabos Vermelhos, assim como dos outros jogadores da equipe.

“Eu não estou na seleção belga apenas para lidar com os atacantes. Eu não falo somente com os atacantes, falo com todos. O técnico me autoriza, ele é extraordinário por isso. Estou lá para ajudá-lo como segundo assistente. Quando há uma sessão de treinamentos, trabalho com o assistente principal. Martínez se ocupa da parte tática, é o que ele ama fazer. Nós, os assistentes, ajudamos na preparação dos treinos, na análise dos adversários, na relação com os jogadores. Mas a decisão final é do treinador. Somos uma verdadeira equipe. Aprendo muito, porque a forma como Martínez vê as coisas é como eu adoro”, contou Henry sobre a sua função, em uma rara entrevista à RMC. Afinal, desde que iniciou o trabalho, prefere se manter como coadjuvante, longe dos microfones.

Ainda assim, que tente fugir dos holofotes, Henry é uma figura com luz própria à beira do campo. É alguém em quem os olhares se concentram naturalmente. Que não deixa de ser um mestre, com muito mais a ensinar. Após as quartas de final contra o Brasil, mais uma para a conta de Henry, as imagens resgatavam o que acontecera 12 anos antes. A euforia em meio à comissão técnica não se escondia. Mas, ânimos apaziguados, o veterano entrou em campo para saudar os seus sucessores. Deu abraços alongados, com conversas ao pé do ouvido de Lukaku, Hazard, Kompany e outros, tal qual era com Zidane há uma década. Mais do que isso, reconhecia também adversários. O consolo que ofereceu a Neymar era o mesmo que entregará a um emocionado Cristiano Ronaldo depois da semifinal de 2006.

O estilo de Henry conquistou muitos fãs na Bélgica. Ele não se coloca acima na hierarquia, mas trata os jogadores como iguais. É um amigo, não um professor. Além disso, permanece no grupo durante todo o tempo e participa das atividades nos treinamentos, ensinando pelo exemplo. “Ele fala com os jogadores dos problemas que eles podem ter nos clubes, ele tenta liberá-los da pressão. Ele fala individualmente com cada um após os treinos. Humanamente, Henry possui várias qualidades. É como se fosse um técnico-psicólogo em todos os momentos”, comenta o empresário de um dos jogadores da seleção, à France Football.

Aliás, ninguém parece mais grato ao assistente do que Lukaku. Em diferentes momentos, o atacante elogiou publicamente a ajuda de Henry. Em 2017, afirmou que a chegada do francês “foi a melhor coisa que aconteceu comigo”. Algo expresso em sua já célebre carta ao Players’ Tribune: “Quando éramos crianças, não podíamos pagar para ver Thierry Henry no Match of the Day. Agora, estamos aprendendo com ele todos os dias na seleção. Estou junto com a lenda, em carne e osso, e está me dizendo tudo sobre como atacar os espaços, como ele costumava fazer. Thierry deve ser o único cara no mundo que vê mais jogos do que eu. Nós debatemos tudo. Estamos sentados e tendo debates sobre a segunda divisão da Alemanha. ‘Thierry, você viu o esquema do Fortuna Düsseldorf?’ Ele: ‘Não seja tonto. Claro que vi’. Isso é a coisa mais legal do mundo para mim”.

Do outro lado, nota-se um tom de desafio, como expressou Olivier Giroud, que conviveu por anos com a aura de Henry no Arsenal. “Eu preferia ter Thierry com a gente, dando conselhos. Mas ficarei orgulhoso de mostrar que ele escolheu o lado errado”, brincou o centroavante. Algo parecido na visão de Didier Deschamps, antigo companheiro de seleção: “É uma pessoa que gosto, jogamos juntos, ele era muito jovem e eu já estava em fim de carreira. Será uma situação difícil para ele, mas Thierry sabia muito bem que isso poderia acontecer. Quando você vai a um clube estrangeiro ou trabalha em outra seleção, pode ser parte do inimigo”. Saudades que não se misturam com o obstáculo de vê-lo do outro lado.

Ao longo da noite em São Petersburgo, certamente as câmeras da transmissão oficial procurarão as reações de Henry. Será um personagem na semifinal, ainda que não possa ser taxado como traidor, como espião ou mesmo como responsável pelo resultado. O ex-atacante é apenas um funcionário, que não recebeu uma oportunidade na federação francesa e aceitou uma proposta de trabalho interessante junto aos belgas. Por aquilo que conhece e por aquilo que representa, de qualquer forma, o velho ídolo se torna uma figura central. Um protagonista, mesmo como mero coadjuvante.