Quando Fernando Torres caminhou pacientemente ao final da fila, esperando cada companheiro de Atlético de Madrid receber a sua medalha pelo título da Liga Europa, ficava claro que o centroavante seria protagonista da festa. Esta é a sua temporada de despedida do clube que ama e, ao contrário do que aconteceu em sua primeira passagem, quando El Niño causaria estrago em outras partes do mundo, desta vez parece não haver volta no futuro. Assim, conquistar a taça ao Atleti era também oferecer um grand finale ao veterano. Ao seu lado, outro decano do Calderón aguardava. Gabi teve passagens por Zaragoza e Getafe, mas é como se fosse homem de um só clube. Companheiro de Torres nas categorias de base, ascendeu em uma instituição que se restabelecia na primeira divisão. Saiu e voltou para se tornar líder dos sucessos rojiblancos nesta década. Um símbolo, assim como o camisa 9. Que, juntos, receberam o troféu e juntos o ergueram para todo o continente ver. Não poderia estar em melhores mãos.

Os 34 anos parecem pesar menos nas costas de Gabi do que nas de Torres, mesmo que o capitão seja nove meses mais velho. Sua função exige um pouco menos de potência do corpo, embora sua atitude enérgica insista na intensidade que é marca deste Atlético de Madrid. No clube desde garoto, sabe como poucos o valor daquela camisa. O veterano continua como um dos esteios no meio de campo do clube, sempre presente, sempre confiante, sempre dando o exemplo. Em uma temporada de incertezas no Metropolitano, o volante já até desfrutou fases melhores. Mas quis o destino que a final da Liga Europa fosse o seu momento.

Gabi, firme em seu posto à frente da zaga, já tinha impulsionado ao Atlético de Madrid. O primeiro gol, afinal, saiu graças à sua concentração e à sua agressividade. Aproveitou-se do desleixo de Anguissa para interceptar a bola e passar direto a Antoine Griezmann, que guardou. Abria o caminho em um jogo que, até aquele momento, não era tão fácil aos colchoneros. No segundo tempo, Griezmann guardou mais um. E esperando uma brecha, o capitão balançou as redes no apagar das luzes. Recebeu livre o passe da esquerda e soltou um chute rasante, no canto de Steve Mandanda, sem chance de defesa. Seu primeiro gol na temporada, que não poderia vir em melhor hora.

Segundos depois da comemoração de Gabi, a torcida do Atlético de Madrid trocaria o gritos eufóricos pelos aplausos de reconhecimento. Griezmann, o dono da noite, saía de campo. Mas talvez o maior alvo dos agradecimentos fosse aquele que entrava para míseros instantes pisando no gramado. Fernando Torres anunciou sua despedida dos colchoneros há algumas semanas. Desde então, os seguidores do clube dedicam mais e mais tributos ao velho xodó. El Niño, do alto de seus 34 anos, permanece sendo um deles. E a sua paixão, de desejar vestir aquela camisa, recebe a gratidão de quem compartilha as mesmas cores no peito.

Fernando Torres não demonstra vaidades. A reserva ao longo da temporada, embora não fosse a situação que desejasse, não gerou manifestações públicas. O medalhão continuava o seu trabalho, a serviço do Atleti acima de tudo. Transformava-se em inspiração a quem o acompanhava no dia a dia do clube. E quando a conquista se consumou, poucos tinham o sorriso do Niño. O camisa 9 visivelmente estava entre os mais empolgados. A quem já marcou gol de título em Eurocopa, que já faturou Copa do Mundo e Champions, a Liga Europa nem de longe parecia um título menor. Pelo contrário. Era a sua inédita taça de primeira grandeza com a camisa rojiblanca. E, em gesto de enorme generosidade do velho parceiro de base, seria o primeiro a erguê-la.

“É uma felicidade difícil de explicar. Depois de muito tempo, tive a oportunidade de voltar a esta equipe campeã e tornar real um sonho de criança. É um orgulho formar parte deste grupo, que mudou para sempre a vida das pessoas. Era complicado dizer o que significava vestir essa camisa, independentemente dos resultados”, afirmou Torres, na saída de campo. “A nível sentimental, este é meu maior título. Na minha carreira, pude ganhar muitos, tive a sorte de jogar em grandes equipes, de fazer parte da melhor geração de jogadores espanhóis. Mas quando alguém tem um sonho de pequeno, que era este, poder ganhar com meu time… Quando fui embora a primeira vez, não pensava que poderia cumprir, mas isso é o que me ensinou esta gente, que com luta você pode conseguir. Estou agradecido para sempre”.

O sonho de menino se realizou diante dos olhos de toda a gente. Suas mãos compartilharam o troféu com aquelas que já se tornaram calejadas de erguer taças, considerando a transformação vivida pelo Atlético de Madrid nesta década. Fernando Torres e Gabi serão sempre os filhos queridos à torcida colchonera. Os garotos que vivenciaram juntos as penúrias e se tornaram símbolos do clube, de maneiras distintas. Um, pelos devaneios que provocou desde cedo; outro, por ser parte importante do grupo que mostrou que tais imaginações poderiam se tornar reais. Estão na história. E esta Liga Europa oferece um quadro para sempre, explicitando aquilo que os rojiblancos formam em casa: caráter.