A história de Neil Tovey nunca virou best-seller ou filme candidato ao Oscar. O jogador de futebol não se tornou um ícone midiático como François Pienaar, lenda do rúgbi eternizado nos cinemas por Matt Damon. No entanto, os dois capitães tiveram papéis destacados na história real da África do Sul. Pienaar, simbolizando a conquista da Copa do Mundo de Rúgbi em 1995. Tovey, erguendo o troféu da Copa Africana de Nações meses depois, também dentro do país. Dois atletas reverenciados por Nelson Mandela. Dois nomes importantes para o clima de união que se viveu após o fim do Apartheid.

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De fato, a vitória no rúgbi possui um significado enorme – seja pela grandeza, pelo ineditismo ou pela surpresa. Provocou um imenso orgulho nacional e os abraços de pessoas antes segregadas. De qualquer maneira, não se deve menosprezar a importância da Copa Africana de Nações, especialmente pela popularidade do futebol na África do Sul. Além disso, o elenco dos Bafana Bafana representava ainda melhor a miscigenação entre os sul-africanos. Algo que, entre os clubes de futebol, começou antes mesmo da extinção do Apartheid.

Tovey demonstra uma consciência enorme de seu papel. O meio-campista foi o primeiro capitão da seleção, depois que o time foi readmitido nos torneios internacionais, com o fim do regime segregacionista. E honrou o seu papel, ao ajudar a promover a convivência através do futebol. Em longa entrevista à revista SoFoot, o veterano de 54 anos falou sobre a sua relação com Mandela, sobre o ambiente vivido naqueles anos e sobre a força do esporte.

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Mandela

“Apertar a mão de Mandela me deixou muito orgulhoso. Não é todo mundo que tem essa oportunidade, mesmo na África do Sul. Foi um dos maiores ícones do Século XX e continuará sendo no futuro. Foi um privilégio encontrá-lo diversas vezes ou falar com ele pelo telefone. É uma grande honra. Sobretudo, quando você acaba de ganhar um troféu por seu país”.

“Quando ele me entregou a taça, disse ‘bem jogado’ e agradeceu por fazermos aquilo pela nação. Você sabe, sem ele, não teríamos jogado qualquer competição ou partida internacional. Sem esse espírito de luta, que ele encontrou depois de sair da prisão e que permitiu que ele se tornasse nosso presidente”.

“Concordo completamente com a ideia de que os artistas e os esportistas podem mudar o mundo, transmitindo mensagens como ninguém mais consegue. Concordo completamente. E Mandela pensava assim. Por isso que ele ficou tão feliz com as conquistas esportivas. Os atletas podem fazer muito mais do que qualquer político. Mandela adorava o esporte e era muito próximo de vários esportistas”.

O futebol antes do Apartheid

“Nossa seleção perdeu grandes coisas por causa do Apartheid, porque nós tivemos vários bons jogadores. Infelizmente, isso impediu os jogadores mais velhos de participarem das competições internacionais. Eu nunca joguei pela seleção antes de 1992, porque nós estávamos banidos. Foi muito especial quando montamos o time em 92. Fui o capitão desde o início”.

“Nosso futebol era muito particular, porque o campeonato se tornou multirracial antes do fim do Apartheid. A partir de 1978, os clubes contavam com equipes mestiças, enquanto a democracia racial não existia para o resto do país. Eu comecei minha carreira profissional em 1981, com brancos, negros e indianos. Assim era o campeonato. Mesmo nos estádios, a multidão era enorme”.

“Sim, existiam momentos complicados por causa da situação política, mas não no futebol. Nós estávamos unidos. Jogadores brancos ou negros, nós éramos uma equipe. Quando íamos a hotéis, entrávamos com jogadores negros, que normalmente não poderiam ficar. lá. Nós continuamos juntos, assim como os torcedores”.

“Eu comecei a minha carreira em 1981 e meu primeiro time era majoritariamente branco. Depois de quatro anos, me transferi ao AmaZulu. Se você conhece a África do Sul, os zulus são a etnia mais importante. No AmaZulu, as pessoas me amavam e eu me tornei capitão. Em 1990, parti ao Kaizer Chiefs, um grande clube local. Como um Manchester United, sabe? E eu continuei como capitão. Então, como costumava usar a braçadeira e já era capitão em equipes majoritariamente negras, segui como um líder na seleção”.

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A importância da Copa Africana

“Tanto a Copa do Mundo de Rúgbi quanto a Copa Africana de Nações contribuíram enormemente para a unificar o país. Em 1993, nos tornamos uma nova nação democrática. Mandela saiu da prisão em 1990 e, nos anos seguintes, o país era uma jovem democracia. O rúgbi, o futebol e o esporte em geral ajudaram as pessoas a se unirem de maneira mais rápida. Talvez o futebol ainda mais, porque é o esporte mais popular na África do Sul. Nós tivemos um grande papel na união do povo. O esporte faz isso, é bem mais influente do que a política”.

“O país começou a mudar depois de 1992, 1993. Mas, com as vitórias na Copa do Mundo de Rúgbi e na Copa Africana de Nações, houve uma enorme transformação, isso ajudou incrivelmente. As pessoas de todas as cores fizeram festa nas ruas, todo mundo se esqueceu dos problemas, deixou para trás os maus momentos e a tristeza. Foram instantes de felicidade para todo o país”.

“Sim, sou o primeiro branco a erguer a taça da CAN. Você sabe, isso é como é. Mas eu nunca me importei com essas questões de cor. Eu sou um jogador de futebol, nós jogamos todos juntos, nós somos africanos e eu amo o meu país”.

O apelido de ‘Makoko’

“Em primeiro lugar, é preciso compreender que, neste país, quando você ganha um apelido, você precisa merecê-lo. Nós não damos apenas para fazer piada. Você precisa ser especial para os torcedores. Quando eu jogava em Durban, meu apelido era ‘Peakoko’, como um pavão. Depois, no Kaizer Chiefs, eles me chamavam de ‘Makoko’, que queria dizer ‘galinha chefe’. Eu jogava no meio-campo, era o capitão, como um patrão. Como o galo que mandava no galinheiro”.