No último mês de junho, o Gre-Nal completou 109 anos. E não existe muito consenso entre gremistas e colorados sobre qual o número de vitórias cada lado tem. Uma disputa causada por aquele que certamente é um dos clássicos mais tumultuados que Porto Alegre já viu, um século atrás. Em agosto de 1918, Grêmio e Internacional se enfrentavam pelo Campeonato Citadino. Uma partida que nunca teve fim. Dentro de campo, enquanto a bola rolou, o Tricolor ia garantindo o resultado. Contudo, uma briga generalizada aconteceu e o Inter acabou levando os pontos nos tribunais – na menor das consequências do ocorrido, que terminou com um homem preso e dezenas de feridos.

O futebol no Rio Grande do Sul se organizava no período e, naquele mesmo ano, foi fundada a federação. No entanto, o surto de gripe espanhola impediu a realização do primeiro estadual e os gigantes concentravam suas forças no Citadino, já que alguns jogadores haviam sido afetados pela crise. Em tempos de jogos muito pegados e placares elásticos, o Inter comemorara bastante em maio de 1918, pelo primeiro turno do torneio municipal. Bateu os rivais por 5 a 3 e emendou o seu quarto triunfo consecutivo no clássico. O jejum do Grêmio no duelo perdurava desde 1913 e incomodava bastante a torcida. Assim, os ânimos bastante exaltados determinariam o ambiente para o Gre-Nal de número 11, disputado no Estádio da Baixada, antiga casa tricolor.

Como de praxe na época, era uma partida bastante violenta. Entradas duras aconteciam de ambos os lados. Mas, superior no confronto, o Grêmio deu um passo à frente para encerrar sua amarga espera. Aos 35 minutos, o zagueiro uruguaio Garibotti abriu o placar para os anfitriões em cobrança de pênalti – em momento já nervoso do embate. E o problema maior se desencadearia oito minutos depois, a partir de uma simples cobrança de lateral. Depois que a bola saiu, os jogadores de ambos os times passaram a discutir para saber quem iria fazer a reposição. Foi a pólvora para uma briga generalizada entre os jogadores.

Em tempos nos quais não existia qualquer divisória entre o campo e as arquibancadas, os torcedores também entraram no tumulto. Não havia como conter a multidão ensandecida. As trocas de socos se espalhavam entre atletas, aficionados e mesmo dirigentes. Já o momento mais tenso de toda a briga aconteceu quando Manoel da Costa, funcionário da Empresa Telefônica Rio-Grandense, surgiu com uma faca e começou ameaçar quem aparecesse na sua frente.

Álvaro Ribas era o craque colorado naqueles anos abastados ao clube e tentou acalmar o torcedor tricolor. Seria ele mesmo a vítima. Manoel Costa deu um golpe na altura da coxa de Ribas e perfurou cerca de 15 centímetros na região do osso ilíaco. Outro presente, Octávio Telles de Freitas, também tentou conter o agressor e foi ferido na perna. Nem mesmo os soldados da polícia conseguiram detê-lo. O maluco soltou a faca apenas depois da intervenção de Aurélio Py, presidente da federação, que também era gremista. Saldo final, cerca de 100 pessoas ficaram feridas até que a poeira baixasse.

Depois disso, Manoel Costa acabou detido e encaminhado para a prisão. A viatura, ainda assim, teve problemas para sair do estádio. Os demais torcedores queriam linchá-lo. Os policiais precisaram apaziguar os ânimos e, de qualquer maneira, o carro terminou apedrejado. O chefe de polícia foi atingido na cabeça e o próprio criminoso, na perna. Ribas, por sua vez, precisou ser encaminhado ao hospital e foi operado. Os médicos conseguiram conter a forte hemorragia e evitar o pior, mas as consequências da facada seriam grandes à sua carreira. O golpe atingiu a massa muscular ilíaca externa e os glúteos, pegando também em parte do osso ilíaco. Nunca mais o colorado pôde entrar em campo, encerrando a sua carreira precocemente. Já o outro ferido, Octávio Telles de Freitas, teve uma lesão apenas leve e não precisou de intervenção cirúrgica.

“Conflito e ferimentos – Ontem, à tarde, quando, no campo do Grêmio, essa sociedade jogava um jogo com o Internacional, houve um conflito de que resultou saírem dois moços feridos. Por questões de futebol estabeleceu-se uma discussão em que acidentalmente se viram envolvidos o jovem Alvaro Ribas, pertencente a time do Internacional, e sr. Octávio Telles de Freitas, funcionário da Delegacia Fiscal. Ambos foram agredidos pelo sr. Manoel de Almeida Costa, que, armado de faca, desferiu golpes que atingiram Telles e Ribas, resultando-lhes ferimentos profundos na coxa esquerda. Socorridos imediatamente pelas pessoas presentes, foram os feridos transportados, em automóvel, para a Pharmacia Providencia, onde receberam os necessários curativos. Dali foi Octavio Telles removido para sua residencia, onde se acha em tratamento. Alvaro Ribas está em tratamento na Casa de Saúde do dr. Dias Fernandes. O criminoso foi preso em flagrante, tendo a polícia evitado a custo que ele fosse linchado”, resumiu o jornal A Federação, publicado no dia seguinte.

A Associação Porto Alegrense de Desportos, dias depois, determinou que o jogo deveria ser retomado. Seriam disputados os dois minutos finais do primeiro tempo, assim como a etapa complementar inteira. O Grêmio, todavia, recusou-se a acatar a orientação. Assim, os pontos pelo resultado acabaram direcionados ao Internacional, considerado o vencedor. Enquanto alguns historiadores atribuem os 43 minutos como vitoriosos aos tricolores, outros levam em conta o que terminou registrado nas atas oficiais. Fato é que aquele revés gremista seria determinante na definição do título do Campeonato Citadino. Por conta disso, o Cruzeiro terminou com a taça. E o Gre-Nal 11 também esquentaria a rivalidade, não tão extrema como naquela tarde, mas realmente quente ao longo das décadas.

*A imagem do Estádio da Baixada, que abre a matéria, é meramente ilustrativa e não foi registrada necessariamente no Gre-Nal 11