Os sucessos da seleção francesa quase sempre se contam pelo ataque, algo normal à maioria das equipes vencedoras. Se Michel Platini e Zinedine Zidane foram os símbolos de grandes conquistas dos Bleus no passado, o mesmo deve acontecer com a geração de Antoine Griezmann, Paul Pogba e Kylian Mbappé. No entanto, o bicampeonato mundial da França também acontece por outra característica marcante do país em Mundiais anteriores: a presença de defensores (incluindo aí também meio-campistas) brilhantes, algo que valeu demais ao longo da campanha na Rússia. Os números defensivos dos donos da taça podem não ser tão brilhantes assim, com seis tentos sofridos em sete partidas. Em compensação, há muitos jogadores que se engrandeceram individualmente, sobretudo nas difíceis vitórias contra Bélgica e Uruguai. Jovens que mantêm uma tradição, ao acompanhar a qualidade de tantos nomes históricos que a nação já teve em outras Copas.

Na primeira campanha até as semifinais da Copa, em 1958, havia um grande líder além de Just Fontaine e Raymond Copa. Robert Jonquet vestia a camisa 10 e fazia parte do “futebol champanhe” do Stade de Reims como os craques da frente, mas desempenhava uma função bastante diferente. O capitão atuava no miolo de zaga dos Bleus, unindo qualidade e segurança. Sem um grande porte físico, o defensor se destacava pela elegância e pela inteligência. Era parte fundamental no sucesso vivido durante o Mundial da Suécia, a ponto de ser uma das razões para a derrocada diante do Brasil. O veterano se machucou durante o duelo e, em tempos nos quais as substituições não eram permitidas, precisou ser deslocado à ponta esquerda, vendo os brasileiros abrirem a goleada rumo à final.

Entre as décadas de 1970 e 1980, outro monstro francês era Marius Trésor. O imponente zagueiro nascido em Guadalupe tinha enorme presença física, mas combinava a sua potência com capacidade técnica. Chegou a capitanear os Bleus e viveu o seu ápice já veterano, durante a Copa do Mundo de 1982. Foi um dos responsáveis pelos Bleus terem chegado tão longe, inclusive anotando um dos gols na dramática semifinal contra a Alemanha Ocidental. E logo à frente da linha de zaga, naquele Mundial os Bleus ainda viram a eclosão de Jean Tigana, um volante incansável e de muito dinamismo, com poder de marcação e também projeção ao ataque, se encarregando bastante da construção a partir da cabeça de área.

Sem Trésor na conquista da Euro 1984 e na Copa de 1986, outros defensores ascenderam na hierarquia. Manuel Amoros já havia ganhado o prêmio de melhor jovem do Mundial de 1982 e tomava conta da lateral. Maxime Bossis e Patrick Battiston carregavam larga experiência de outras competições internacionais desde os anos 1980. Já o meio-campo ganhou outro motor à frente da zaga, com a afirmação de Luis Fernández, que dava mais liberdade para Tigana jogar de área a área.

Os franceses esperaram mais 12 anos para retornar a uma Copa do Mundo. E tiveram craques da posição para conquistar o título em 1998. A começar por Marcel Desailly, um dos melhores zagueiros da década de 1990. Tinha muita consistência e firmeza, mas fugia o estereótipo que seu tamanho poderia sugerir. Também conseguia ser muito bom na antecipação, na leitura de jogo e na saída de bola. Não à toa, jogava também como volante, líbero ou até mesmo lateral. E era um líder. Laurent Blanc não era tão completo, mas possuía também uma técnica enorme. Além disso, era excelente pelo alto e costumava marcar gols com frequência em suas subidas ao ataque. Balançar as redes, aliás, era um acréscimo às suas virtudes. Foram mais de 100 tentos na carreira, muitos também em cobranças de falta ou de pênaltis.

Na lateral direita, Lilian Thuram pode ser incluído entre os melhores da história da posição, embora tantas vezes atuasse como zagueiro, sobretudo em esquemas com três homens atrás. A capacidade atlética era um diferencial imenso, a quem conseguia dominar aquele pedaço de campo. Tinha muita intensidade e força, o que o ajudava defensivamente, agressivo nos combates. De qualquer maneira, o jogo preciso também se tornava uma arma útil no apoio, com sua habilidade com ambos os pés. Pela esquerda, possuía a companhia de Bixent Lizarazu, de vocação bem mais ofensiva, por sua velocidade para puxar os contra-ataques e pelo apetite no um contra um. À frente da zaga, a referência era Didier Deschamps, um volante com boa visão de jogo para cortar as linhas de passes e fazer coberturas, pressionando os adversários. Ofensivamente, era mais simples, com precisão e eficácia. Voluntarioso ao lado de Christian Karembeu, ainda se punha como um líder.

Já em 2006, Thuram faria outra Copa do Mundo espetacular, como zagueiro, a ponto de ser eleito o melhor em campo na semifinal contra Portugal. Ao seu lado, se não tinha jogadores exatamente brilhantes, seus companheiros possuíam muita consistência. William Gallas vinha pelo miolo de zaga, com Willy Sagnol e Éric Abidal nas laterais – este último, um grande defensor a ponto de marcar sua história também por clubes. Os complementos fora de série a Thuram, ainda assim, eram os dois volantes. Claude Makélélé não vinha na melhor fase da carreira, mas dispensava comentários, pelo trabalho impressionante que fazia na cabeça de área, fora de série para desarmar e perseguir os oponentes. Em senso defensivo, poucos igualavam sua qualidade para manter a disciplina tática e anular craques adversários. Já o companheiro era Patrick Vieira, um craque com c maiúsculo. Reserva em 1998, chegou ao Mundial de 2006 como uma das referências do time. Praticamente um monumento por sua presença física, jogava de maneira direta para dominar o campo de área a área. A força na marcação se complementava com seus avanços potentes ao ataque. Naquela Copa, gastou a bola especialmente contra a Espanha, nas oitavas.

Por fim, chegamos a 2018. E a capacidade defensiva da França não deixa a desejar em nada, se comparada com outros Mundiais. Pela segurança do sistema ou por alguns nomes, é possível preferir antecessores nos sucessos dos Bleus. Ainda assim, vários dos jogadores atuais parecem no caminho de se equipararem às lendas de outras Copas. Combinam físico, técnica e tática, como muitos dos seus exemplos.

No miolo de zaga, dois jogadores soberanos. Raphaël Varane por vezes não é valorizado como deveria. Após tantos anos de Real Madrid, foi o responsável pelo clube abrir mão de Pepe e mantém o nível de solidez, com características diferentes. Mais técnico, sabe como controlar o jogo pelo alto e possui ótima leitura das jogadas. Fez uma Copa do Mundo estupenda, grande referência na linha defensiva. Ao seu lado, Samuel Umtiti é um jogador de mais potência e imposição física, cuja agressividade valeu demais aos Bleus no torneio – apesar de algumas desatenções. Ambos foram heróis nos mata-matas, graças aos gols contra Uruguai e Bélgica.

As laterais, motivos de grande incerteza antes da Copa, tiveram gratas surpresas. Dois zagueiros deslocados para os lados, Benjamin Pavard e Lucas Hernández cresceram ao longo da competição, não apenas para afastarem as desconfianças, como também para se colocarem entre os melhores da posição no torneio. Pela direita, Pavard era um desconhecido meses atrás e fez um trabalho correto na contenção, premiado ainda pelo gol antológico contra a Argentina. Já na esquerda, Hernández manteve a costumeira confiança na defesa, sem desistir de qualquer lance, só que mostrando também uma nova aptidão ao ataque. Suas subidas foram importantes para dar força ao seu setor, e renderam gols importantes, com destaque ao quarto na final. A arrancada do jovem permitiu que Mbappé ficasse pronto para definir.

Já à frente da zaga, um capítulo à parte. Paul Pogba merece a consideração pela força que deu ao meio-campo, jogando com seriedade e de maneira bastante direta, principalmente na saída de bola, com suas arrancadas e seus passes verticais. Defensivamente, a forma adiantada como marcava foi um trunfo nas recuperações. Pela esquerda, Blaise Matuidi ajudou a dar equilíbrio ao time e fez um trabalho brilhante especialmente nas semifinais contra a Bélgica, ao tomar conta de seu setor. Mas o grande nome na proteção é mesmo N’Golo Kanté, aquele que segue a linhagem de Tigana, Deschamps e Makélélé. O baixinho incessante parece ser um daqueles jogadores que antecipam uma era. Corre mais do que qualquer outro, está em todos os cantos do campo, é perfeito na maioria de suas coberturas. Encaminhou a França até a final.

A fase de grupos de Kanté já tinha sido excelente, o melhor jogador da França com sobras. Nas oitavas de final, deixou Lionel Messi em seu bolso. Fez outras duas ótimas partidas contra Uruguai e Bélgica, funcional para que os Bleus não passassem apuros. Uma pena que justamente na final ele tenha ficado devendo. Segundo a imprensa francesa, o camisa 13 vinha com uma gastroenterite, mas seguiu no time. Talvez por causa do problema físico, visivelmente teve mais dificuldades na movimentação e, sem a sua abrangência, os franceses tiveram problemas diante da atitude da Croácia. Tomou um cartão amarelo, errou na marcação de Ivan Perisic durante o primeiro gol e saiu no início do segundo tempo – para a entrada de Steven N’Zonzi, ótimo na função. Mas nada que apagasse o desempenho estupendo do cabeça de área até então.

As maiores mostras do carinho por Kanté vieram dos próprios companheiros. Nesta segunda, durante a recepção aos jogadores em Paris, centenas de pessoas cantaram a musiquinha puxada por Pogba: “N’Golo Kanté! Ele é pequeno, ele é bacana, ele parou Leo Messi…”. Um tanto quanto desconcertado pela brincadeira, o rapaz tímido sorria, dizendo que os companheiros o ajudaram naquilo. Em três anos, além de ser coadjuvante no vice da Eurocopa, conquistou dois títulos da Premier League como peça fundamental e, agora, vive o ápice na Copa do Mundo. Puxa a fila entre tantos nomes que marcam sua história.