Bélgica e Inglaterra partiram do mesmo Grupo G nesta Copa do Mundo da Rússia, atravessaram três duras etapas e vão terminar a competição outra vez frente a frente, na decisão do terceiro lugar, a ser disputada neste sábado. Repetem o que já aconteceu em cinco outras ocasiões num Mundial (três delas envolvendo o Brasil), ainda que pela primeira vez na partida de consolação do torneio. Relembramos abaixo esses verdadeiros clássicos do “déjà vu” em outras Copas, lembrando, entretanto, que não são considerados aqui os jogos desempate válidos por uma mesma fase, comuns nas Copas de 1934, 1938, 1954 e 1958.

Alemanha Ocidental x Hungria (1954)

Campeã olímpica, máquina de fazer gols, esquadrão histórico, favorita destacada ao título na Copa do Mundo da Suíça, a Hungria tinha como principal adversária no Grupo 2 a seleção da Alemanha Ocidental, que retornava à competição após ser excluída da Fifa ao fim da Segunda Guerra Mundial e reintegrada em setembro de 1950. E que contava com um cartel ainda não tão impressionante em Copas: disputara apenas as edições de 1934 e 1938, ficando em terceiro lugar na primeira, mas caindo logo na primeira fase na seguinte.

Acostumada a golear, a Hungria estreou no Mundial fazendo o que sabia: aplicou na pobre Coreia do Sul a maior traulitada da história das Copas até então (e pelos 28 anos seguintes): 9 a 0. No mesmo dia, a Alemanha também venceu por placar elástico a Turquia (4 a 1) em Berna, mas de um modo mais discreto: saiu atrás logo aos dois minutos e foi para o intervalo empatando, antes de deslanchar na etapa final. De todo modo, ficou atenta aos passos (e passes) húngaros e jogou a isca no segundo jogo, mudando o time em sete posições.

O time de Sepp Herberger caiu por estrondosos 8 a 3, resultado que forçou um desempate com os turcos, vencido facilmente por 7 a 2. A continuidade na Copa do Mundo estava assegurada, apesar de tudo. Os húngaros – depois se saberia – sofreram uma perda mais substancial. Caçado pelo zagueiro Werner Liebrich, Puskas teve o tornozelo lesionado e ficou de fora das duas batalhas seguintes, contra Brasil e Uruguai, ambas vencidas pelos magiares por 4 a 2. E mesmo sua escalação na decisão era duvidosa, já que não se recuperara plenamente.

Enquanto isso, os alemães, que trouxeram seus titulares de volta, incorporando ainda Liebrich e o ponta-direita Helmut Rahn, surpreenderam seleções mais cotadas, derrotando a Iugoslávia nas quartas (2 a 0) e a Áustria nas semifinais (6 a 1). E, mais ainda, surpreenderiam o mundo do futebol na decisão, revertendo uma vantagem de dois gols que os mesmos húngaros levaram apenas oito minutos para construir e vencendo por 3 a 2 com dois gols de Rahn – que estreara na Copa no primeiro embate entre as duas equipes.

 

Brasil x Tchecoslováquia (1962)

Depois de sofrer para superar a retranca do México e vencer por 2 a 0 em seu primeiro jogo de Copa do Mundo como detentor do título, o Brasil teve pela frente a seleção tcheca, que vencera a Espanha na estreia. Ainda assim, a Seleção voltou a dominar de saída e criou várias chances de marcar contra um rival que também pareceu satisfeito com o empate, apesar de bem mais qualificado que os astecas. Mas, ao fim dos 90 minutos, o pior daquele 0 a 0 foi perder Pelé.

Aos 27 minutos do primeiro tempo, o camisa 10 foi lançado por Zito, matou no peito e bateu de sem-pulo. A bola, pela terceira vez naquele início de jogo, explodiu na trave de Schroif. E Pelé caiu no gramado, com um estiramento no músculo adutor da coxa esquerda. O jogo praticamente acabou ali. Abalada e com um a menos, a Seleção não teve forças para manter o domínio. Por outro lado, os tchecos, talvez respeitosamente, também evitavam agredir.

Na última rodada da chave de Viña del Mar, o Brasil venceu a Espanha de virada, avançando como primeiro do grupo e garantindo, por tabela, a passagem da Tchecoslováquia, que só jogaria no dia seguinte (e perderia para o México, nitidamente se poupando). Nas quartas, cruzando com o Grupo D, os brasileiros bateram a Inglaterra por 3 a 1, com partidaça de Garrincha, enquanto os tchecos despacharam a Hungria com um gol de Scherer em Rancágua.

Nas semifinais, os tchecos voltavam a Viña del Mar para derrotar a Iugoslávia por 3 a 1, diante de apenas cinco mil pessoas, enquanto o Brasil jogaria contra um país inteiro ao enfrentar o Chile no Estádio Nacional de Santiago. Venceria por 4 a 2, com mais uma grande atuação de Garrincha, expulso por retaliação no fim, e reencontraria o adversário da primeira fase na decisão, o que acontecia pela segunda vez nas últimas três Copas.

Os europeus assustaram e saíram na frente aos 15 minutos, quando Masopust recebeu passe de Kadraba no meio da defesa brasileira e chutou vencendo Gilmar. Mas dois minutos depois, Amarildo, o camisa 10 na ausência de Pelé, recebeu cobrança de lateral de Zagallo, girou na frente do marcador, arrancou em direção à linha de fundo e bateu cruzado, sem ângulo, entre Schroif e a trave. Era o empate.

No segundo tempo, num contra-ataque aos 25 minutos, Amarildo foi lançado na esquerda da área, driblou o marcador e centrou alto. Zito vinha chegando e cabeceou para decretar a virada. O terceiro gol do Brasil, a 12 minutos do fim, nasceria em outra cobrança de lateral que Djalma Santos recebeu e deu um balão para a área. Schroif agarrou, mas, atrapalhado pelo sol, largou aos pés de Vavá. Era o gol do bi mundial.

Itália x Polônia (1982)

Após chegarem à Espanha um tanto em baixa, italianos e poloneses abriram o Grupo 1 no estádio Balaídos, em Vigo, no dia 14 de junho. Pararam num travado 0 a 0 que começou a aprofundar a crise na Azzurra – embora, curiosamente, esta tenha se mostrado um pouco melhor na partida. O time de Enzo Bearzot mantinha boa parte da base que havia feito ótimo papel na Argentina quatro anos antes, mas a relação com imprensa e torcida havia se desgastado.

Do outro lado, os poloneses conservavam medalhões, como Lato, Szarmach e Zmuda, e traziam novidades, como Smolarek. Mas confiavam sobretudo em Boniek, meia talentoso perto de atingir a maturidade. Na segunda rodada, porém, a Polônia seguiu devendo futebol no empate sem gols com Camarões, enquanto a Itália ficava no 1 a 1 com o Peru. Mas na última partida, a equipe socialista deslancharia goleando os peruanos por 5 a 1 e tomando para si a liderança da chave, enquanto a Itália sofria em mais um empate, agora com os Leões Indomáveis.

Boniek, um dos condutores do massacre polonês em 15 minutos contra os sul-americanos, seguiu imparável na abertura da segunda fase, diante de uma Bélgica que chegara referendada após bater a Argentina na estreia, mas perdera jogadores fundamentais. O meia ruivo do Widzew Lodz, porém, não quis nem saber: numa atuação individual irretocável, marcou todos os gols na vitória por 3 a 0. Mas no jogo seguinte, o empate a zero com a União Soviética que garantiu a passagem às semifinais, levou um amargo cartão amarelo a dois minutos do fim. Era seu segundo na Copa.

Ficaria de fora do reencontro com a Itália, que virou a chave e, mesmo desacreditada, bateu Argentina e Brasil naquela segunda fase. Paolo Rossi, centroavante do time, também havia despertado da letargia ao repetir contra o time de Telê Santana o feito de Boniek contra a Bélgica. E voltaria a decidir para a Azzurra, primeiro desviando uma cobrança de falta de Antognoni para a área e depois escorando de cabeça com facilidade um cruzamento de Conti. Sem seu cérebro, a Polônia ficou de mãos e pés atados. E a Itália avançaria para o tri.

Brasil x Suécia (1994)

Uma sutil alteração de rota nos cruzamentos das semifinais feita antes do início da Copa de 1994 permitiu que o número de jogos repetidos possíveis naquela etapa dobrassem de dois, em 1986 e 1990, para quatro. E quis o destino que Brasil e Suécia se encarassem por duas vezes naquele Mundial dos Estados Unidos, transformando o confronto no mais recorrente da história do torneio (sete partidas), até ser igualado por Alemanha x Argentina em 2014.

Naquele 28 de junho, no Pontiac Silverdome, o estádio coberto de Detroit, pela última rodada do Grupo B, o Brasil tomou um susto quando, aos 23 minutos, Tomas Brolin ganhou a jogada de Aldair na intermediária e fez a inversão para Kennet Andersson. O atacante tocou de cobertura, antes da chegada de Mauro Silva, e Taffarel não alcançou. Depois de passar sem ser vazado pela Rússia (2 a 0) e por Camarões (3 a 0), o Brasil ia para o intervalo em desvantagem.

Era uma prévia do que aquele perigoso time sueco aprontaria no Mundial, já que os resultados anteriores (empate em 2 a 2 com os camaroneses e vitória por 3 a 1 diante de um enfraquecido time russo) ainda eram um tanto inconclusivos. O Brasil chegou ao empate no primeiro minuto da etapa final, em finalização de biquinho de Romário. Mas a virada acabaria mesmo parando numa ótima atuação do experiente goleiro Ravelli.

Dali em diante, a Seleção Brasileira suaria sangue para vencer os anfitriões Estados Unidos em pleno 4 de julho nas oitavas e, em seguida, chegaria a complicar um jogo que se desenhava surpreendentemente fácil contra a Holanda, apenas para ser salva pela bomba de Branco. Mas conseguiu se colocar entre os quatro melhores de um Mundial pela primeira vez desde 1978. E quem apareceu pelo caminho? A Suécia, que bateu a surpresa Arábia Saudita nas oitavas e levou nos pênaltis um jogo épico diante da Romênia nas quartas.

No tira-teima, jogado em 13 de julho no gigantesco Rose Bowl, em Los Angeles, o Brasil dominou as ações e criou ótimas chances. Logo no começo, Romário passou no meio de dois zagueiros, driblou Ravelli, mas teve seu chute salvo em cima da linha por Patrik Andersson. No rebote, Mazinho mandou na rede pelo lado de fora. Mais tarde, num contra-ataque, Romário mais uma vez driblaria o goleirão, mas perderia o ângulo.

No segundo tempo, houve ainda um chutaço de Zinho, que Ravelli espalmou, e outra finalização do meia para fora, que serviu de pretexto para uma dancinha do arqueiro sueco que ficou na memória como um dos momentos mais divertidos daquela Copa, em meio à tensão da partida. Até que, já aos 36, veio o alívio: Jorginho cruza da direita e Romário salta entre Patrik Andersson e Roland Nilsson, cabeceando para o chão e colocando o Brasil na final da Copa. Ufa!

Brasil x Turquia (2002)

Oito anos depois, outra sensação europeia cruzou duas vezes o caminho do Brasil numa mesma Copa. A Turquia, que estava ausente desde 1954, deu calor na Seleção na primeira fase e também nas semifinais, em dois jogos duríssimos. No primeiro deles, o Brasil teve várias chances para abrir o placar na etapa inicial – o goleiro Rüstü fez milagre numa cabeçada de Rivaldo – mas, após levar também alguns sustos, saiu atrás nos acréscimos depois que Hasan Sas foi lançado por Bastürk entrando pelo lado esquerdo da área e chutou forte para vencer Marcos.

A reação veio logo no início do segundo tempo: Juninho Paulista entregou na esquerda a Rivaldo, que cruzou. Ronaldo se atirou na bola quase numa voadora e empurrou para dentro, deixando tudo igual. E depois de Rivaldo ter um gol anulado por impedimento, a virada chegaria só aos 41 minutos, num lance até hoje lembrado: Luizão foi lançado em profundidade num contra-ataque e derrubado por Alpay fora da área. Mas o árbitro sul-coreano Kim Young-Joo apitou pênalti, expulsando o defensor. Rivaldo cobrou e converteu, dando a vitória à Seleção.

A Copa seguiu com zebras e arbitragens calamitosas aqui e acolá. E com Brasil e Turquia avançando. O time de Luiz Felipe Scolari goleou a China (4 a 0) e a Costa Rica (5 a 2), enquanto o de Senol Günes empatou com os centro-americanos (1 a 1), mas também venceu fácil os asiáticos (3 a 0). Nas oitavas, a Seleção sofreu para eliminar a Bélgica por 2 a 0, enquanto os turcos bateram o Japão dono da casa (1 a 0). Já nas quartas, os brasileiros venceram os ingleses de virada (2 a 1), e os turcos superaram outra sensação, o Senegal, por 1 a 0 no gol de ouro.

Até chegar a hora do reencontro, num jogo incrivelmente mais difícil do que o primeiro. Marcos foi o personagem do primeiro tempo, detendo inúmeras chances turcas. O Brasil começou a aparecer também no ataque só ao fim da etapa final, especialmente com Rivaldo. Mas o gol do alívio sairia mesmo dos pés de Ronaldo – de biquinho, tal qual Romário em 1994 – aos quatro minutos da etapa final, levando o Brasil à decisão, para repetir o desfecho de oito anos antes.