Não se chega a uma carreira de 50 anos em uma das principais empresas de seu setor sem qualidade. John Motson passou cinco décadas como uma das principais vozes da BBC (quase sempre, a principal) em suas transmissões. Trabalhou no rádio e na televisão – nesta, até 2008. Narrou mais de duas mil partidas neste intervalo, cobrindo dez Copas do Mundo e dez Eurocopas, além de mais de 200 compromissos da seleção inglesa. Virou sinônimo da maneira como milhões de ingleses traduzem seus sentimentos no futebol. Mas, aos 72 anos, chegou o momento de se despedir. Em setembro, o veterano confirmou que esta seria sua última temporada. Sua última narração aconteceu neste domingo, durante a vitória do Arsenal sobre o Watford, nas ondas da BBC Radio 5. Até maio, seguirá apenas no Match of the Day, principal programa da BBC sobre a modalidade.

Durante os últimos anos, Motson conviveu com as críticas. Assim como aconteceu com Luciano do Valle ou acontece com Galvão Bueno, sua voz não tinha a mesma potência de antes. No entanto, também era preciso respeitar a sua história, de quem tanto viveu e tanto transmitiu ao seu público. No Reino Unido, costumam elogiar o veterano pela maneira como fazia os ouvintes sentirem o nível de intensidade do jogo apenas pela entonação de suas palavras. Não se nega que foi um dos melhores de todos os tempos em seu ofício.

Sua primeira narração aconteceu em dezembro de 1969, em vitória do Everton sobre o Derby County por 1 a 0, gol de Alan Ball. Desde então, percebeu a importância de sua missão diante dos microfones, como declarou recentemente à BBC: “Enquanto eu voltava para minha cidade de trem, durante a noite, estava andando atrás de dois rapazes que eram cegos. Ouvi um deles dizer: ‘Não foi ótimo poder ouvir o jogo?’. Aprendi como o serviço de rádio poderia apoiar muitas pessoas que não eram capazes de ver a partida na TV”. Entre suas narrações favoritas, está a do Itália 3×2 Brasil na Copa do Mundo de 1982.

Ao longo destas cinco décadas, John Motson conviveu com as diferentes transformações correlatas à sua profissão. Em seus primeiros anos, por exemplo, não tinha o auxílio de replays ou de uma segunda tela para confirmar o que viu, tornando os eventos ao vivo um desafio ainda maior. E nestas evoluções tecnológicas, o veterano trabalhou em diferentes mídias. Se suas narrações não são conhecidas no Brasil, a voz do inglês talvez te remeta a algumas lembranças. Ele foi o primeiro narrador da série Fifa, permanecendo na linha de frente do game entre 1997 e 2005, até ser suplantado por Clive Tyldesley e por Martin Tyler.

Motson não se transformou em folclore dos games, da mesma forma como o colega japonês Jon Kabira, lenda do Winning Eleven. Mas é evidente sua contribuição a uma maneira de transmitir a emoção também nos jogos. Ainda que muitos não tenham a consciência de quem era o narrador, sua voz participou da infância e da juventude de muitos brasileiros. Há bordões que, mais de uma década depois, seguem ecoando. Nada como o “Ronaldo” carregado de sotaque para indicar o Fenômeno ou o “great save by Taffarel”, que soava a cada vez que a versão eletrônica do goleiro era testada. Abaixo, em homenagem a Motson, relembramos um pouco desse seu trabalho além da realidade. As narrações no “World Cup 98” e “Fifa 99”, clássicos da época, guardam um bocado de nostalgia: